Nova rodada de tarifas dos EUA reduz relevância da rota Brasil–EUA e acenda alerta nos portos brasileiros
A nova rodada de tarifas de 25% anunciadas pelos Estados Unidos sobre uma ampla lista de produtos brasileiros reacende a pressão sobre a rota marítima Brasil–EUA e aumenta a cautela de exportadores e armadores, em um cenário em que o fluxo de contêineres nessa direção já vem perdendo peso relativo há mais de uma década.
De acordo com levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a medida atinge cerca de 4 mil itens e pode afetar até 26% da pauta de exportações brasileiras aos Estados Unidos, o equivalente a US$ 11 bilhões (R$ 56 bilhões) em vendas anuais, com destaque para produtos como carne suína, açúcar e móveis de madeira. A nova sobretaxa de 25% vem após a revogação da tarifaço anterior, de até 50%, que, à época, chegou a provocar suspensão de embarques, acúmulo de contêineres em portos como Santos e Vitória e revisão de contratos por parte de importadores norte-americanos.
Para Leandro Barreto, sócio da Solve Shipping, o impacto sobre o transporte de contêineres é um aprofundamento de um movimento em curso: “Os números mostram que os embarques em contêineres para os EUA já vinham, há mais de uma década, perdendo a participação em relação a outras rotas. Contudo, o tarifaço do ano passado catalisou em muito esse processo, levando os armadores a reduzir em mais de 20% a capacidade dedicada a essa rota em relação a julho de 2025. Com esse novo tarifaço, apesar da ampliação da lista de questões, algumas das principais mercadorias exportadas em contêineres serão impactadas — como madeira e derivados —, o que tende a tornar essa rota ainda menos relevante.”
Nos principais portos brasileiros com fluxo para os EUA, os operadores reforçaram o monitoramento da carteira de cargas e a ocupação de berços em segmentos sensíveis à nova tributação. Em terminais destinados à exportação de commodities e produtos industrializados para a costa leste norte-americana, como papel e celulose, bens de maior valor agregado e itens de madeira, já se avaliam planos de redução de volumes, reprogramação de embarques e eventual redirecionamento de cargas para outros mercados.
Na navegação, o efeito esperado é uma combinação de volatilidade na demanda e necessidade de ajustes finos na malha de serviços. As linhas regulares na rota Brasil–EUA têm espaço para reverter escalas, consolidar serviços, reposicionar navios e renegociar acordos de capacidade com clientes brasileiros diante da perspectiva de queda em determinados fluxos. Em um ambiente de margens pressionadas e demanda global mais fraca para algumas vezes dos Estados Unidos, os cortes de capacidade e o redesenho de rotas podem se tornar mais frequentes.
Do ponto de vista portuário e logístico, a preocupação vai além da fotografia imediata dos embarques. A possibilidade de perda de participação em cadeias globais de fornecimento ligadas ao mercado americano, especialmente em segmentos já relatados como madeira, móveis e parte da indústria de alimentos, recoloca na pauta temas como diversificação de mercados, atração de novas linhas marítimas e desenvolvimento de serviços que reduzem custos para exportadores brasileiros. Em regiões que vinham consolidando novas vocações para exportação – como o Nordeste, com terminais específicos para pescados e outros produtos destinados aos EUA –, o risco é de revisão em planos de investimento e de necessidade de reposicionar a carteira de destinos.
Para operadores logísticos e terminais, o tarifaço também reforça a discussão sobre previsibilidade regulatória e estabilidade de regras em acordos comerciais. Em um ambiente em que as decisões políticas podem alterar de forma abrupta a competitividade dos itens brasileiros e levar a suspensão de embarques em poucos dias, ganha peso a capacidade de planos planejados, ajustar contratos e reorganizar rapidamente a oferta de serviços em rotas estratégicas como Brasil–EUA, sem perder oportunidades que possam surgir em outros corredores marítimos.
Fonte: Portos e Navios






