Inflação surpreendente

Inflação surpreendente

Se colocarem, na sua frente, um copo com água até a metade, você dirá que ele está meio cheio ou meio vazio? Esse dilema é recorrente em debates econômicos, quando o indicador analisado apresenta aspectos negativos e positivos. Quais devem ser enfatizados? Um ótimo exemplo é o atual nível de inflação no Brasil, em torno de 2,5% ao ano, num patamar surpreendente e inferior ao piso da meta, de 3% (o centro da meta é de 4,5%). Devemos celebrar os preços bem comportados ou lamentar a anemia do Produto Interno Bruto (PIB)? O correto é aplaudir o trabalho do Banco Central (BC) ou reclamar do seu conservadorismo nos cortes de juros? Pode parecer estranho, mas todas as alternativas acima estão corretas. Elas, na verdade, não são excludentes e há bons argumentos para defendê-las.

O mais importante, neste momento em que o País começa a sair lentamente da sua maior recessão econômica, é que o BC não pode titubear. Há espaço para continuar cortando os juros básicos (a Selic está em 8,25% ao ano) em ritmo acelerado, quebrar o recorde histórico da Selic (7,25% ao ano, em 2013) e impulsionar a atividade produtiva. É praticamente consenso entre os analistas que a atual gestão do BC, sob o comando do economista Ilan Goldfajn, tem mais acertos do que erros. Uma vitória importante, por exemplo, ocorreu no ano passado.

Quando tomou posse, em junho, Ilan, como é conhecido no mercado, tinha apenas seis meses para impedir que a inflação oficial (IPCA), que estava em 8,8% no acumulado em 12 meses, estourasse o teto da meta. A regra previa um alvo de 4,5%, com margem de tolerância de dois pontos percentuais para cima ou para baixo. Poucos analistas acreditavam nesse “milagre” e alguns até sugeriram que a meta fosse “ajustada”. Ilan não aceitou mexer na regra do jogo e cumpriu sua missão. O IPCA encerrou o ano em 6,3%, após pouco mais de 10% em 2015. O feito, no entanto, não encobre alguns erros e apontá-los pode contribuir com as próximas decisões da autoridade monetária. “As críticas sempre têm de ser feitas para que se aprenda com os erros”, diz Gustavo Loyola, que presidiu o BC duas vezes na década de 1990.

Responsável por definir a taxa básica de juros, o Comitê de Política Monetária (Copom), que reúne oito diretores e o presidente do BC, demorou a iniciar o ciclo de afrouxamento dos juros diante de um quadro de rápida elevação do desemprego, que atingiu 14 milhões de brasileiros. Nas duas primeiras reuniões sob o comando de Ilan, em julho e agosto de 2016, o Copom decidiu manter a Selic inalterada, cortando os juros apenas no encontro seguinte, em outubro. Outra falha ocorreu em fevereiro de 2017, quando o ambiente econômico recessivo demandava uma injeção de ânimo da política monetária. Na ocasião, a DINHEIRO publicou uma reportagem intitulada “Acelera, Ilan”, na qual foram elencados dez motivos para que o corte de juros fosse intensificado de 0,75 para 1,0 ponto percentual.

O Copom, no entanto, preferiu repetir a dose de 0,75 e só adotou reduções de 1,0 ponto percentual a partir da reunião seguinte, em abril. De lá para cá, foram feitos mais três cortes neste mesmo ritmo. Parte da cautela do BC também decorreu de um receio de que a crise política inviabilizasse o ajuste fiscal, com impactos negativos no câmbio. Porém, na prática, o humor do mercado financeiro vem melhorando, inclusive, por conta de um cenário internacional favorável aos países emergentes. “O Banco Central foi surpreendido por muitas notícias positivas, que foram benignas para a inflação, como um adiamento no aumento dos juros nos Estados Unidos”, diz Loyola.

O conservadorismo do BC ajuda a explicar por que a inflação está tão baixa agora. “O BC demorou demais para cortar os juros”, afirma Heron do Carmo, professor da USP e consultor da .MAP (lê-se ponto MAP), que há décadas analisa os cenários inflacionários. Se o Copom tivesse sido mais ousado, o PIB não estaria tão anêmico e, por tabela, a inflação não permaneceria abaixo do piso da meta. No acumulado em 12 meses, até setembro, o IPCA, medido pelo IBGE, registra alta de apenas 2,54%. É incorreto, no entanto, colocar apenas na conta da política de juros do BC a responsabilidade pela queda surpreendentemente da inflação. “Os três principais fatores que explicam o IPCA abaixo do piso da meta são a recessão econômica, a supersafra agrícola e o câmbio bem comportado”, diz Fabio Romão, economista e especialista em inflação da LCA Consultores. Desses três itens, a política monetária teria efeito relevante apenas sobre a recessão, com impacto limitado no câmbio e nulo na safra.

O economista da LCA explica que agronegócio tem sido um grande aliado no combate à inflação. Porém, a safra recorde 2016-2017 foi tão exitosa, sem intercorrências climáticas, que acabou gerando queda real nos preços dos alimentos. Com um peso de 25% no IPCA, o grupo “alimentação e bebidas” acumula uma deflação de 2,1% nos últimos 12 meses encerrados em setembro. “Outro setor que reduziu os preços foi o de eletroeletrônicos, ajudado pela valorização cambial de 3% neste ano”, diz Romão. Houve ainda uma contribuição importante do setor de vestuário, cujos preços desaceleraram por conta da queda do consumo.

É importante salientar que uma inflação baixa é positiva para a economia, pois aumenta a renda real das pessoas e impulsiona o consumo. O problema está numa inflação excessivamente baixa, distante do centro da meta de 4,5%, num contexto em que a expansão do PIB ainda é inferior a 1%. “Não é uma notícia extraordinariamente positiva”, diz Alexandre Schwartsman, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central. “Se todos acharem normal a inflação ficar abaixo do piso da meta, amanhã pode surgir alguém que ache normal que ela fica acima do teto.” O boletim Focus, que colhe semanalmente as previsões de cerca de cem instituições financeiras, prevê que o IPCA encerre o ano em 2,98%.

Fonte; Isto É Dinheiro