EPE aponta 20 clusters propícios para eólica offshore na costa brasileira

EPE aponta 20 clusters propícios para eólica offshore na costa brasileira

A publicação de estudo de caracterização de áreas para eólica offshore pela Empresa de Pesquisas Energéticas (EPE) mobilizou entidades ligadas ao setor. A EPE divulgou estudo de caracterização das bases de dados de recursos eólicos disponíveis com a agregação de regiões geográficas de acordo com dados de vento considerado. Foram detalhadas as regiões de acordo com seu recurso eólico. Os dados são relevantes para o planejamento energético e setorial da fonte eólica e poderão ser utilizados para a elaboração de estudos de recursos de vento para as áreas de offshore e o setor elétrico.

O estudo identificou 20 clusters na costa brasileira e, entre estes, três propícios à geração offshore no Brasil, com ventos consistentes entre 7 e 10 metros por segundo. São eles: Cluster no Nordeste entre o Piauí e o Rio Grande do Norte; Cluster no Sudeste, focado na costa do Rio de Janeiro; e o Cluster no Sul, abrangendo de Santa Catarina ao Rio Grande do Sul.

A Coalizão Eólica Marinha (CEM), iniciativa empresarial criada por players do setor para acelerar os projetos de eólica offshore no país, destacou que o estudo também revela a complementaridade dos três clusters. A constância dos ventos nordestinos proporciona previsibilidade à operação do sistema elétrico. No litoral fluminense, os ventos ganham muita força exatamente no pico do verão, ajudando a suprir a alta demanda. Já no Sul, a velocidade média se mantém alta o ano inteiro com uma variação sazonal muito menor. De modo geral, a costa brasileira registra ventos mais fortes no segundo semestre, com picos de intensidade à noite e na madrugada.

Em 2020, no relatório Roadmap Eólica Offshore Brasil, a EPE havia estimado o potencial técnico da fonte a 100 metros de altura em cerca de 700 gigawatts (GW) em locais com profundidade até 50m, e em mais de 900 GW para o limite de profundidade de 100 metros. Outro desafio identificado no relatório é a necessidade de conferir maior precisão aos dados climatológicos e meteoceanográficos.

A EPE avalia que esse conhecimento se torna ainda mais relevante e urgente diante da possibilidade de cessão de áreas para a instalação de projetos, que deve ser informada por uma indicação locacional das áreas mais adequadas, que pode considerar, dentre outros critérios, a perspectiva técnico-econômica e energética.

O estudo comparou três bases de dados amplamente utilizadas: ERA5, MERRA-2 e GWA, observando discrepâncias relevantes entre os modelos — no Nordeste, ERA5 e MERRA-2 tendem a indicar velocidades maiores do que o GWA, enquanto no Sul e no Sudeste a relação se inverte. A própria EPE ressalta que não é possível afirmar qual base é mais aderente à realidade brasileira justamente pela escassez de medições em campo.

A clusterização revelou 20 agrupamentos com sazonalidades próprias, evidenciando que o perfil diário e anual do recurso eólico offshore varia espacialmente de forma significativa — informação que só poderá ser validada por meio de campanhas de medição in situ. Isso ratifica, com força técnica, a urgência de liberar o acesso às áreas para que os desenvolvedores realizem campanhas anemométricas que confirmem e detalhem o potencial mapeado, transformando modelagem em dado concreto.

Decreto
A CEM defendeu a publicação urgente do decreto regulamentador. “Precisamos permitir que os desenvolvedores iniciem suas campanhas de medição e transformem esse potencial mapeado pela EPE em infraestrutura real e em desenvolvimento industrial para o país”, defendeu a coalizão em uma rede social.

A Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica) divulgou um documento em que defende que a fonte já demonstrou capacidade de atrair investimentos, interiorizar renda, criar uma cadeia industrial e oferecer eletricidade competitiva e de baixa emissão de carbono. Mas a entidade adverte que o potencial eólico passou a ser limitado por cortes crescentes de geração, atrasos nas obras de infraestrutura e limitações do sistema de transmissão, além de dificuldades de acesso à rede, sinais econômicos distorcidos, insuficiência de flexibilidade e desaceleração da expansão.

Armazenamento
Já as novas tecnologias como os Sistemas de Armazenamento de Energia, Data Centers, Hidrogênio de Baixa Emissão de Carbono, Eletrificação Industrial e Eólica Offshore exigem planejamento energético e coordenação institucional de longo prazo. A entidade propôs uma agenda em linha com a agenda e as contribuições do Fórum das Associações do Setor Elétrico (FMASE), da Coalizão do Setor Elétrico CEBDS/PSR, e da ampla participação da Presidente Executiva no Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável (CDESS).

O documento lista sete prioridades: Governança, previsibilidade e capacidade de execução; Plano Nacional para reduzir cortes de geração; Expansão da transmissão e acesso à rede; Investimento em flexibilidade operativa de menor custo e baixa emissão de carbono; Isonomia e sinais econômicos eficientes; Eletrificação industrial e o acesso às novas cargas para reindustrializar o Brasil; e Estratégia Nacional para desenvolver a indústria de eólica offshore com responsabilidade social.

Para o prioridade de governança, a proposta da ABEEólica é instituir uma agenda nacional de energia, indústria e transição energética, coordenada pela presidência, CNDI e CNPE, com prioridades públicas, responsáveis, prazos e acompanhamento trimestral. O programa deve resguardar a continuidade das ações em andamento, fortalecer a autonomia e a capacidade técnica da Aneel, EPE, ONS e CCEE, dar transparência às decisões do CNDI, CNPE, Ibama e do CMSE, aprimorar o processo de licenciamento ambiental de infraestruturas estratégicas e prioritárias e assegurar a previsibilidade normativa e o respeito aos contratos.

Com isso, o governo deixaria de reagir a ciclos econômicos isolados e passa a operar um projeto nacional integrado para o desenvolvimento econômico e social que considera uma visão ampla das ações envolvendo: ampliação de rede, flexibilidade no Sistema Interligado Nacional (SIN), definição e redução de cortes de geração, novas cargas, crescimento da indústria eólica e desenvolvimento da indústria de eólicas offshore sob a mesma lógica de custo sistêmico total.

Para a segunda prioridade, a entidade propõe criar um Plano Nacional de Redução do Curtailment, com diagnóstico público por causa e região, critérios objetivos e reproduzíveis para classificar restrições, metas anuais de redução e carteira de soluções. A política deve combinar reforços de rede, melhoria operativa, armazenamento, resposta da demanda, conexão flexível e novas cargas localizadas de modo eficiente.

No caso da Transmissão, a ABEEólica destaca que a PNAST — Política Nacional de Acesso ao Sistema de Transmissão, instituída recentemente pelo Decreto 12.772, de 5 de dezembro de 2025, vem com a promessa de otimizar a contratação do uso do sistema de transmissão a fim de dar maior isonomia, eficiência e modicidade tarifária ao consumidor. Mas a entidade entende que a PNAST representa parte de um conjunto sofisticado de medidas que ainda precisam ser executadas para adaptar-se à nova realidade operativa com as novas necessidades sistêmicas de forma transparente, segura e sustentável. E defende o reconhecimento e fortalecimento da EPE.

A proposta para armazenamento é concluir o marco regulatório dos sistemas de armazenamento que deve contemplar diferentes formas de uso das baterias, evitar cobranças duplicadas pelo uso da rede e permitir que esses sistemas sejam remunerados pelos diversos benefícios que oferecem. Também deve estabelecer regras de conexão e operação, além de condições adequadas de tributação e financiamento.

No tocante à isonomia, a ABEEólica propõe revisar o modelo de subsídios existentes, os encargos e as regras de rateio com base em causalidade, benefício econômico e social mensurável. Para a MMGD, a política deve medir custos e benefícios locacionais e horários, aprimorar medição e resposta a sinais operativos, para coibir irregularidades e garantir isonomia competitiva em relação às demais fontes despacháveis pelo operador.

Por fim, a ABEEólica defende implementar integralmente a Lei 15.097/2025 por meio de uma Estratégia Nacional de Geração Eólica Offshore, com governança interministerial, portal único de informações, planejamento espacial marinho, critérios de cessão de áreas, licenciamento ambiental robusto, regras de conexão, estratégia portuária e roteiro para o primeiro certame.

Fonte: Portos e Navios.