Cultura oceânica invade escolas brasileiras

Cultura oceânica invade escolas brasileiras

Já passam de 700 as instituições de ensino, públicas e privadas, a adotar a cultura oceânica em seus currículos, de forma interdisciplinar. O movimento, que começou em Portugal, vem conquistando cada vez mais escolas brasileiras, que incluíram voluntariamente o tema em seus programas pedagógicos. Esse número deve aumentar, caso seja aprovado o Projeto de Lei em tramitação na Câmara dos Deputados que torna o conteúdo obrigatório nas salas de aula.

Em Brasília (DF), a Escola Pública Integral Bilíngue – Libras e Português – do Plano Piloto já nasceu sob essa diretriz, em fevereiro do ano passado. Apesar de residirem a mais de 1.100 quilômetros de distância do litoral, os cerca de 140 estudantes, de diversas idades, são capazes de entender a influência do oceano sobre suas atividades diárias e, principalmente, como suas ações também interferem na vida marinha.

 

Trazer o assunto para a realidade dos alunos não é uma missão fácil.

O maior desafio é pensar em estratégias de ensino ‘pra’ trazer essa temática do mar no contexto do Plano Piloto. O Distrito Federal não tem acesso direto ao mar, então isso foge um pouco do que os alunos vivem no dia a dia. E nós temos que usar a criatividade”, conta a professora Karoline Rodrigues, que leciona para as crianças surdas ou com deficiência auditiva do 1º e 2º anos do Ensino Fundamental.

“Água para quê?”

Embora não tenham contato com a água salgada, os alunos aprendem a comparar com os problemas dos ecossistemas que conhecem. O trabalho tem rendido frutos: a instituição de ensino foi vencedora do 14º Circuito de Ciências do Distrito Federal, na categoria “Ensino Médio Regular” do Plano Piloto. O concurso, realizado pela Secretaria de Estado de Educação no ano passado, teve como tema “Água para quê?”.

A escola foi premiada com o trabalho “O processo de eutrofização: comparativo da análise dos experimentos simulados com as coletas do Lago Paranoá”. Um dos autores, o aluno Juca Poljack, conta o que aprendeu com o estudo. “A qualidade da água interfere na nossa qualidade de vida e estamos todos interconectados. Não podemos achar que uma ação nossa não interfere no mundo. Precisamos cuidar dos nossos microespaços para que isso resulte em uma sociedade melhor.”

Pioneirismo de Santos

A cultura oceânica já é obrigatória nas escolas de Santos (SP), primeira cidade do mundo a aprovar uma lei para implementar atividades relacionadas ao tema na rede municipal de ensino. O então Secretário Municipal do Meio Ambiente, Marcos Libório, explicou que a iniciativa surgiu da necessidade de um investimento na formação das crianças.

“A gente precisava criar ou, pelo menos, conscientizar as crianças da sua responsabilidade cidadã no respeito ao oceano, no respeito à nossa praia”, disse ele na ocasião da promulgação. Mas antes mesmo que a legislação entrasse em vigor, em 2022, a escola Professor João Papa Sobrinho já adotava o assunto em suas aulas: o projeto Embaixadores do Século XXI buscava formar alunos protagonistas e multiplicadores de ações relacionadas ao meio ambiente e à cultura oceânica.

Alunos da escola Professor João Papa Sobrinho, em Santos, participam de atividade relacionada à cultura oceânica. Instituição foi uma das pioneiras do Brasil a adotar o tema em sala de aula — Imagem: Prefeitura de Santos

Atender à nova lei municipal foi, portanto, um caminho natural para a instituição.

Os docentes receberam a iniciativa com entusiasmo, incorporando atividades práticas e interdisciplinares ligadas ao oceano, enquanto os alunos se engajaram ativamente em campanhas de sustentabilidade, na separação correta dos resíduos e no desenvolvimento de projetos criativos de reciclagem”, conta o Coordenador do projeto, Renato Correia.

Escolas azuis

Instituições como a de Brasília e a de Santos, que assumiram o compromisso de disseminar a cultura oceânica, são conhecidas como “escolas azuis” e integram o Programa Escola Azul Brasil, coordenado pelo projeto de extensão Maré de Ciência, da Universidade Federal de São Paulo. A formação de docentes, assim como a legislação, a produção de material e o engajamento social são as bases da iniciativa, segundo o Coordenador do Maré de Ciência, Ronaldo Christofoletti.

O Brasil, hoje, concentra 25% das escolas azuis do mundo todo, que já estão em mais de 70 países. E qual que é o objetivo? É que cada uma olhe a sua realidade local, onde estiver, perto ou longe do mar, e respondam à pergunta: onde está a minha conexão com o oceano? E, assim, elas constroem projetos a partir daquele conhecimento, daquela dinâmica. Então, é um movimento que só cresce e que está virando exemplo mundial”, explica Christofoletti.

Segundo o Coordenador do Maré de Ciência, Ronaldo Christofoletti, Brasil se tornou exemplo mundial ao adotar cultura oceânica no currículo escolar — Imagem: Congresso em Foco

Com a possibilidade de tornar obrigatória a cultura oceânica no currículo escolar nacional, a ação ganha outra dimensão. “Hoje, temos 23 municípios e sete estados brasileiros com legislações para a cultura oceânica, além de uma discussão ampla no Ministério de Educação e no Conselho Nacional de Educação para a inclusão em nível nacional, processo pelo qual o Brasil se transformou referência mundial pela UNESCO”, ressalta o Coordenador.

Política nacional

A promoção da cultura oceânica na sociedade brasileira também é foco do Plano Setorial para os Recursos do Mar, que estabelece as metas da Política Nacional para os Recursos do Mar até 2027. Por isso, a Marinha do Brasil (MB), como coordenadora da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, apoia iniciativas como as escolas azuis. O Projeto está alinhado a outras ações desenvolvidas pela MB nesse contexto, como o Programa de Mentalidade Marítima (PROMAR).

Durante a COP-30, alunos da Escola Municipal Vereador Genaro Apollaro, de Barcarena (PA), visitaram o Navio-Aeródromo Multipropósito “Atlântico”, pelo Programa Escola Azul Brasil — Imagem: Marinha do Brasil

O Assessor Especial em Gerenciamento Costeiro da Secretaria da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (SECIRM), Capitão de Mar e Guerra (Reserva) Rodrigo Carvalho, explica que o PROMAR atua na promoção da mentalidade marítima e da cultura oceânica, principalmente entre crianças, jovens e educadores, buscando ampliar o conhecimento sobre a Amazônia Azul, os recursos marinhos e a importância do oceano para o desenvolvimento sustentável do País.

O fortalecimento de iniciativas como o Programa Escola Azul Brasil evidencia a relevância da integração entre educação, ciência e sociedade para a construção de uma verdadeira cultura oceânica no País. Ao apoiar ações dessa natureza, a Marinha do Brasil e a SECIRM contribuem para formar novas gerações mais conscientes, preparadas e comprometidas com a proteção do oceano e com o desenvolvimento sustentável da nação brasileira”, conclui o Assessor.

Fonte: Agência Marinha de Notícias