Brasil pode recuperar indústria naval? A China mostra o desafio

Brasil pode recuperar indústria naval? A China mostra o desafio

Uma potência marítima não depende apenas da quantidade de navios que possui, mas também da capacidade de construí-los, repará-los e manter uma indústria capaz de sustentar suas operações. A China compreendeu essa relação e transformou sua construção naval em uma das maiores forças industriais do planeta, concentrando mais da metade das entregas mundiais de embarcações em 2025, medidas pela capacidade de carga. Para o Brasil, que possui extensa costa, grandes interesses no Atlântico e experiência na construção de navios  militares e comerciais, o avanço chinês oferece uma lição estratégica. O desafio não é reproduzir a escala asiática, mas desenvolver uma indústria naval competitiva, com encomendas contínuas, fornecedores qualificados e capacidade de atender às necessidades da economia e da Defesa Nacional.

Como a China concentrou mais da metade da construção naval mundial

A indústria chinesa de construção naval atingiu uma escala sem paralelo no mercado de grandes embarcações mercantes. Segundo dados publicados pelo Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China referentes a 2025, o país respondeu por aproximadamente 56,1% das entregas mundiais, 69% das novas encomendas e 66,8% da carteira de pedidos. Os percentuais são apresentados em toneladas de porte bruto, indicador da capacidade de carga das embarcações, e não representam a proporção do número de navios ou de seu valor comercial.

Em termos absolutos, a produção chinesa entregue em 2025 somou cerca de 53,69 milhões de toneladas de porte bruto, enquanto os novos pedidos alcançaram aproximadamente 107,82 milhões de toneladas. A combinação de produção efetiva e encomendas futuras evidencia tanto a atividade industrial corrente quanto uma demanda expressiva para os anos seguintes. Ainda assim, o volume de pedidos precisa ser convertido em navios concluídos para representar resultado produtivo.

Um sistema que combina fábricas, portos, crédito e estaleiros

A liderança chinesa não surgiu apenas da existência de grandes docas. O país desenvolveu, ao longo de décadas, uma rede de fornecedores de aço, motores, componentes, equipamentos portuários, serviços financeiros e empresas de navegação. Sua indústria exportadora gera cargas para o transporte marítimo, os portos movimentam essas mercadorias e os armadores demandam navios para sustentar as rotas comerciais. A construção naval se beneficia desse mercado e, ao mesmo tempo, contribui para ampliá-lo.

O apoio governamental teve papel relevante. Estudos internacionais do setor, incluindo análises da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), examinam como financiamento, incentivos e políticas industriais contribuíram para a expansão da capacidade chinesa. Há divergências entre governos e empresas quanto aos efeitos desses instrumentos sobre a concorrência, mas o fenômeno central é verificável: a China construiu um ecossistema produtivo amplo, com fornecedores e demanda suficientes para apoiar grandes séries de construção.

Um estudo do Center for Strategic and International Studies estimou aproximadamente US$ 132 bilhões em formas de apoio financeiro estatal a empresas chinesas de navegação e construção naval entre 2010 e 2018, incluindo principalmente financiamento bancário. Essa estimativa possui metodologia e período próprios e não pode ser somada automaticamente a outras cifras de subsídios mencionadas em pesquisas diferentes. Ela ajuda a dimensionar, porém, como o financiamento foi utilizado para sustentar a expansão industrial.

Da construção de cargueiros à relevância para a Defesa

A concentração da indústria naval possui consequências estratégicas porque parte das competências necessárias a navios civis e militares é compartilhada. Soldagem de grandes estruturas, construção modular, controle de qualidade, gestão de fornecedores e manutenção são exemplos de capacidades industriais com aplicações diversas. Navios de guerra, entretanto, também exigem requisitos específicos de sobrevivência, sensores, armamentos e sistemas de combate. Portanto, liderança comercial não equivale automaticamente a superioridade  militar em todos os aspectos.

Uma grande infraestrutura de construção e reparo pode ampliar a capacidade de sustentar frotas e repor determinados meios ao longo do tempo. A disponibilidade de instalações e trabalhadores especializados também possui importância para a logística marítima em situações de crise. Isso ajuda a explicar por que a indústria naval passou a ser tratada como questão de segurança econômica e nacional em diferentes países, inclusive nos Estados Unidos.

A UNCTAD destaca, em seu acompanhamento do transporte marítimo internacional, que a construção naval responde a ciclos de encomendas, requisitos de modernização de frotas e transformações do comércio. A vantagem chinesa deve, portanto, ser interpretada como resultado de um conjunto persistente de fatores industriais, financeiros e comerciais, não como uma condição que dispense inovação ou garanta a manutenção indefinida da liderança.

Suape, embarcações fluviais e reparos mostram caminhos para a recuperação brasileira

A experiência brasileira evidencia como a indústria naval depende de continuidade de demanda. O país construiu grandes instalações e desenvolveu mão de obra especializada, mas enfrentou interrupções de encomendas e dificuldades financeiras que impediram a consolidação de parte desse aprendizado. Uma política de recuperação precisa considerar os ativos existentes, identificar compradores reais e reduzir a exposição de estaleiros a poucos contratos de grande porte.

Fundo da Marinha Mercante oferece carteira, mas não garante obras concluídas

A pesquisa identificou instrumentos brasileiros de financiamento que podem apoiar uma nova fase industrial. Em março de 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos divulgou uma carteira de projetos associada ao Fundo da  Marinha Mercante (FMM) de aproximadamente R$ 41,7 bilhões, contemplando construções, reparos, docagens e modernizações de embarcações. Em informações divulgadas posteriormente, o ministério também apresentou valores acumulados de projetos aprovados desde 2023.

Marinha do Brasil e soberania marítima exigem uma base industrial sustentável

A ligação entre indústria naval e Defesa Nacional é concreta. A Marinha precisa construir, modernizar, reparar e sustentar seus meios, e parte desse trabalho depende de estaleiros, equipamentos e profissionais especializados. A presença de capacidade industrial no país pode reduzir determinados riscos de disponibilidade e apoiar o conhecimento técnico necessário à manutenção da Esquadra. Isso não significa que todas as tecnologias  militares possam ou devam ser produzidas exclusivamente no Brasil.

Fonte: Defesa em Foco