{"id":38330,"date":"2022-03-17T09:37:59","date_gmt":"2022-03-17T12:37:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sincomam.org.br\/?p=38330"},"modified":"2022-03-17T09:37:59","modified_gmt":"2022-03-17T12:37:59","slug":"guerra-na-ucrania-pode-afetar-o-prosub","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/guerra-na-ucrania-pode-afetar-o-prosub\/","title":{"rendered":"Guerra na Ucr\u00e2nia pode afetar o PROSUB?"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 pouco mais de duas semanas, o poder b\u00e9lico das na\u00e7\u00f5es era assunto restrito aos c\u00edrculos militares, \u00e0 ind\u00fastria de defesa e aos especialistas do setor. Ap\u00f3s o dia 24 de fevereiro, isso mudou. Vladimir Putin invadiu a Ucr\u00e2nia, deu in\u00edcio \u00e0 mais grave e perigosa guerra na Europa desde a derrota de Hitler e jogou luz sobre a capacidade de cada pa\u00eds se defender de amea\u00e7as externas. No caso do Brasil, o instrumento de dissuas\u00e3o mais almejado \u00e9 o submarino com propuls\u00e3o nuclear. O problema \u00e9 que esse projeto enfrenta riscos e pode naufragar. Os obst\u00e1culos j\u00e1 existiam antes. Com guerra, ficaram maiores.<\/p>\n<p>O Submarino Convencional de Propuls\u00e3o Nuclear (SCPN) \u00c1lvaro Alberto \u00e9 a joia da coroa do Prosub, um programa de grande impacto e or\u00e7amento multibilion\u00e1rio lan\u00e7ado em 2008. Ele tamb\u00e9m prev\u00ea a constru\u00e7\u00e3o de quatro submarinos convencionais. Todos s\u00e3o fruto de uma parceria estrat\u00e9gica entre Brasil e Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Para a Marinha, o SCPN \u00e9 o mais importante projeto tecnol\u00f3gico do Brasil na atualidade e, quando pronto, significar\u00e1 um formid\u00e1vel ganho operacional no Oceano Atl\u00e2ntico. Na compara\u00e7\u00e3o com um convencional, ser\u00e1 mais r\u00e1pido, ter\u00e1 mais autonomia e capacidade de manter-se oculto por longos per\u00edodos em \u00e1guas profundas.<\/p>\n<p>O SCPN tamb\u00e9m \u00e9 sin\u00f4nimo de prest\u00edgio internacional. Submarino nuclear \u00e9 coisa para poucos. Hoje, apenas os cinco membros permanentes do Conselho de Seguran\u00e7a da ONU (Estados Unidos, China, R\u00fassia, Fran\u00e7a e Reino Unido), al\u00e9m da \u00cdndia, det\u00eam essa tecnologia. Essas seis na\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m j\u00e1 fizeram suas bombas at\u00f4micas.<\/p>\n<p>O Brasil pode ser o primeiro pa\u00eds a submeter \u00e0 Ag\u00eancia Internacional de Energia At\u00f4mica (AIEA) um modelo de salvaguardas tecnol\u00f3gicas (o mecanismo de prote\u00e7\u00e3o e de vistoria componentes sens\u00edveis) voltado a um submarino movido com combust\u00edvel nuclear e armas convencionais, como torpedos de alta precis\u00e3o, minas e m\u00edsseis SM 39 Exocet. Se demorar demais, no entanto, ser\u00e1 superado pela Austr\u00e1lia, que recentemente fechou uma parceria com os Estados Unidos e o Reino Unido para ter o seu pr\u00f3prio submarino de propuls\u00e3o nuclear.<\/p>\n<p><strong>Quest\u00f5es no caminho<\/strong><\/p>\n<p>Para entender a raiz dos problemas do SCPN, antes \u00e9 preciso compreender como esses seis pa\u00edses veem os planos da Marinha brasileira. Na avalia\u00e7\u00e3o de almirantes da ativa, oficiais da reserva que participaram do programa e especialistas do setor, o Brasil ter\u00e1 enormes dificuldades para seguir em frente no que depender dos interesses estrat\u00e9gicos dessas na\u00e7\u00f5es. E o SCPN depende dessa coopera\u00e7\u00e3o, em especial com os Estados Unidos e seus aliados militares.<\/p>\n<p>Em 24 de maio de 2021, quase um ano antes da primeira bomba explodir na Ucr\u00e2nia, a Marinha promoveu um evento no Complexo Naval de Itagua\u00ed (RJ), onde s\u00e3o constru\u00eddos os quatro submarinos de propuls\u00e3o convencional. O lugar tamb\u00e9m foi projetado para receber o submarino de propuls\u00e3o nuclear. No evento, o ent\u00e3o diretor-geral de Desenvolvimento Nuclear e Tecnol\u00f3gico, o almirante de esquadra Marcos Sampaio Olsen, fez um balan\u00e7o detalhado das atividades. Ali j\u00e1 se tornariam evidentes os n\u00f3s enfrentados pelo programa.<\/p>\n<p>O financiamento de todo o Prosub, embora volumoso (j\u00e1 recebeu mais de R$ 27 bilh\u00f5es), sofre com a imprevisibilidade. Entre 2015 e 2021, os recursos para o programa ficaram aqu\u00e9m do planejado. At\u00e9 meados do ano passado, o submarino nuclear havia recebido investimentos da ordem de R$ 810 milh\u00f5es. Neste ano, as chapas de a\u00e7o prensado do casco foram contratadas e devem ser entregues at\u00e9 dezembro.<\/p>\n<p>Esse fluxo financeiro n\u00e3o compromete o sucesso dos submarinos convencionais. H\u00e1 atrasos, especialmente por adapta\u00e7\u00f5es para o alongamento do casco original, que foram executadas a pedido da Marinha. Mas a meta da For\u00e7a \u00e9 entregar a quarta e \u00faltima unidade, o submarino Angostura, em fevereiro de 2025.<\/p>\n<p>Por\u00e9m no caso do submarino nuclear, a instabilidade de recursos se alia ao desafio tecnol\u00f3gico de desenvolver um reator que se encaixe perfeitamente \u2014 e com seguran\u00e7a \u2014 dentro da embarca\u00e7\u00e3o, submetida \u00e0 alta press\u00e3o e a turbul\u00eancias de toda ordem. E a ind\u00fastria brasileira, como revelou na ocasi\u00e3o o almirante Olsen, n\u00e3o d\u00e1 conta de fornecer essas tecnologias cr\u00edticas.<\/p>\n<p>O acesso \u00e0s tecnologias sens\u00edveis \u00e9 determinante, \u00e0 medida que a nossa base industrial de defesa se mostra ainda incipiente. Acaba que n\u00e3o tenho fornecedores no Brasil que atendam aos requisitos nucleares, explicou o almirante durante sua apresenta\u00e7\u00e3o no Complexo de Itagua\u00ed, na qual lamentou a falta de empenho da academia em pesquisa aplicada no setor.<\/p>\n<p>A Marinha j\u00e1 desenvolveu o ciclo de produ\u00e7\u00e3o de energia nuclear que, desde 1985, permite o funcionamento da Usina de Angra 1. Falta, por\u00e9m, a capacidade de desenvolver componentes que permitam a esse mesmo reator (chamado de PWR) operar com total seguran\u00e7a nas dimens\u00f5es e caracter\u00edsticas necess\u00e1rias e, depois, integr\u00e1-lo \u00e0s outras estruturas do submarino.<\/p>\n<p>Essas lacunas amea\u00e7am todo o projeto, inclusive a etapa imprescind\u00edvel de reprodu\u00e7\u00e3o em terra das condi\u00e7\u00f5es que ser\u00e3o encontradas no mar pelo reator at\u00f4mico e por seus componentes. Essa reprodu\u00e7\u00e3o ocorrer\u00e1 no Laborat\u00f3rio de Gera\u00e7\u00e3o Nucleoel\u00e9trica (Labgene), em Iper\u00f3 (SP), que \u00e9 uma maquete de tamanho real do SCPN.<\/p>\n<p>O laborat\u00f3rio avan\u00e7a, por\u00e9m em ritmo aqu\u00e9m do desejado. Sua prepara\u00e7\u00e3o, de alta complexidade, estaria cerca de sete anos atrasada em rela\u00e7\u00e3o ao cronograma inicial, segundo um oficial ligado ao programa. Espera-se que Labgene trabalhe tal como um reator que opera dentro do submarino no final de 2024, o SCPN est\u00e1 previsto para 2034. Para que isso aconte\u00e7a, \u00e9 preciso ir ao mercado, que j\u00e1 estava de portas fechadas.<\/p>\n<p>\u201cA minha maior preocupa\u00e7\u00e3o diz respeito ao acesso a tecnologias sens\u00edveis. E os Estados Unidos interferem n\u00e3o s\u00f3 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0quelas encomendas a empresas americanas, mas a de outros pa\u00edses\u201d , afirmou Olsen, em maio do ano passado.<\/p>\n<p><strong>Efeito Putin<\/strong><\/p>\n<p>Desde fevereiro, somam-se os potenciais preju\u00edzos causados pela guerra. A conta n\u00e3o \u00e9 simples e os obst\u00e1culos adicionais ultrapassam o aparente desgaste causado pela \u201csolidariedade\u201d do presidente Jair Bolsonaro \u00e0 R\u00fassia, emprestada dias antes da invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia, em visita a Moscou. Militares e civis concordam que o mundo passou a ter avers\u00e3o a todas as quest\u00f5es relacionadas \u00e0 capacidade de produ\u00e7\u00e3o nuclear.<\/p>\n<p>O professor da PUC-MG Eug\u00eanio Diniz, do International Institute for Strategic Studies, de Londres, ex-presidente da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (Abri) e parecerista da Nonproliferation Review, aponta obst\u00e1culos importantes. \u201c\u00c9 poss\u00edvel que o ambiente tenha se tornado particularmente dif\u00edcil para todas as quest\u00f5es envolvendo a capacidade de produ\u00e7\u00e3o e a utiliza\u00e7\u00e3o de material nuclear, o que pode implicar maior dificuldade ou mesmo a impossibilidade de obten\u00e7\u00e3o de pe\u00e7as e componentes cr\u00edticos para o submarino, e, naturalmente, tamb\u00e9m de licen\u00e7as para sua produ\u00e7\u00e3o no Brasil. Por si s\u00f3, isso j\u00e1 pode ter sido um duro golpe na continuidade do programa do submarino nuclear \u201c, avalia Diniz.<\/p>\n<p><strong>Desaten\u00e7\u00e3o do governo<\/strong><\/p>\n<p>Mas isso significa que o programa do submarino de propuls\u00e3o nuclear brasileiro est\u00e1 ferido de morte? Em sua apresenta\u00e7\u00e3o no ano passado, o almirante Olsen disse que \u00e9 preciso \u201cfazer o dever de casa\u201d. Nas \u00faltimas tr\u00eas semanas, a Marinha foi procurada para se pronunciar sobre o tema. A reportagem encaminhou um question\u00e1rio sobre aspectos t\u00e9cnicos e pol\u00edticos referentes ao programa, mas a For\u00e7a preferiu n\u00e3o comentar o assunto. A embaixada americana em Bras\u00edlia tamb\u00e9m foi procurada e n\u00e3o se pronunciou.<\/p>\n<p>FONTE: \u00c9POCA<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 pouco mais de duas semanas, o poder b\u00e9lico das na\u00e7\u00f5es era assunto restrito aos c\u00edrculos militares, \u00e0 ind\u00fastria de defesa e aos especialistas do&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1527,"featured_media":38334,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-38330","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38330","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1527"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=38330"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38330\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":38335,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/38330\/revisions\/38335"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/38334"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=38330"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=38330"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=38330"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}