{"id":26220,"date":"2018-03-06T09:25:40","date_gmt":"2018-03-06T12:25:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sincomam.org.br\/?p=26220"},"modified":"2018-03-06T09:25:40","modified_gmt":"2018-03-06T12:25:40","slug":"na-rota-da-soja-caos-logistico-continua-mas-muda-de-lugar-em-2018","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/na-rota-da-soja-caos-logistico-continua-mas-muda-de-lugar-em-2018\/","title":{"rendered":"Na rota da soja, caos log\u00edstico continua, mas muda de lugar em 2018"},"content":{"rendered":"<p>S\u00e3o 7h30. No acostamento da BR-163, em Novo Progresso (PA), o tema de uma roda de conversa de um grupo de caminhoneiros nem \u00e9 mais sobre a situa\u00e7\u00e3o da rodovia. Eles tentam mudar de assunto. Todos carregam soja e quase se conformam em perder ao menos um dia local. Passam horas e at\u00e9 dias em uma fila que, recentemente, chegou a 20 quil\u00f4metros. S\u00e3o v\u00edtimas do gargalo log\u00edstico que anualmente, pelo menos at\u00e9 agora, acontece na principal rota e escoamento de gr\u00e3os no Norte do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>No in\u00edcio do comboio, soldados do Ex\u00e9rcito controlam o fluxo e liberam entre 100 e 250 caminh\u00f5es por vez. N\u00e3o h\u00e1 uma frequ\u00eancia para que caminh\u00f5es de soja sigam viagem. Carros, \u00f4nibus, caminh\u00f5es com animais vivos e outros alimentos passam direto. &#8220;\u00c9 uma vergonha. Um dia parado para passar esse trecho. Muita gente passa mal. E vamos encontrar problemas mais adiante&#8221;, diz Aparecido Nunes.<\/p>\n<p>Caminhoneiro h\u00e1 quase 40 anos, Nunes deixou Tr\u00eas Lagoas (MS) dia 5 de janeiro para &#8220;puxar&#8221; soja pela BR-163 no trecho cr\u00edtico da rodovia, entre Sinop (MT) e o terminal de transbordo de gr\u00e3os de Miritituba, munic\u00edpio de Itaituba (PA). Ele e seus colegas buscam um frete que custa o dobro em rela\u00e7\u00e3o a um trajeto semelhante em outras regi\u00f5es, pre\u00e7o que se paga para enfrentar os desafios do percurso. Nessa viagem, Nunes tem a companhia de dois filhos, que encontraram o pai no meio do caminho e aproveitaram para &#8220;visit\u00e1-lo&#8221;.<\/p>\n<p>Na semana passada a reportagem do Broadcast Agro percorreu a BR-163, ida e volta a partir de Sinop (MT) at\u00e9 Itaituba (PA), num total de 2 mil quil\u00f4metros. Um trajeto de contrastes. Trechos de asfalto bem conservado, como o da fila de caminh\u00f5es encontrada na segunda-feira (26), logo s\u00e3o substitu\u00eddos por uma rodovia de terra. As filas e os gargalos mudam de lugar na rodovia de acordo com um planejamento informal feito diariamente entre o Ex\u00e9rcito e tradings exportadoras sediadas em Itaituba, a fim de controlar o fluxo de descarregamento dos gr\u00e3os em seus terminais.<\/p>\n<p>Liberados do bloqueio em Novo Progresso rumo ao Norte, os caminh\u00f5es percorrem mais 65 quil\u00f4metros at\u00e9 a serra de Moraes Almeida (PA). No trecho de terra, outra parada, onde o Ex\u00e9rcito realiza obras de rebaixamento do morro, controla o fluxo de ve\u00edculos e reboca os que n\u00e3o conseguem ultrapassar a terra, as pedras e, quando chove, o barro. Na quarta-feira, 28, a fila de dois dias antes se deslocou de Novo Progresso para l\u00e1, em novo reajuste do comboio, programado pelo Ex\u00e9rcito. Agora eram 15 quil\u00f4metros de caminh\u00f5es parados, nos dois sentidos da BR-163.<\/p>\n<p>Poderia ser pior. No ano passado, nas proximidades de Bela Vista do Caracol (PA), que fica 200 quil\u00f4metros ao norte de Novo Progresso e a 135 quil\u00f4metros ap\u00f3s Moraes Almeida, um atoleiro parou a BR-163. Nas proximidades de Bela Vista, 46 quil\u00f4metros de estrada de terra foram tomados por caminh\u00f5es que n\u00e3o conseguiram transpor o barro. O congestionamento foi multiplicado, superou 100 quil\u00f4metros e ve\u00edculos ficaram at\u00e9 20 dias parados por l\u00e1 em 2017.<\/p>\n<p>Maria Cardoso Santos, propriet\u00e1ria do Santar\u00e9m Palace, em Bela Vista do Caracol, conta que, \u00e0 \u00e9poca, pessoas dormiam &#8220;esparramadas&#8221; no lobby do hotel. &#8220;O nosso estacionamento lotou, com pessoas dentro de carros, o p\u00e1tio do posto aqui em frente n\u00e3o tinha lugar nem para transitar e tivemos desabastecimento na vila&#8221;, disse. &#8220;Mas todos sobreviveram, n\u00e9?&#8221; Hoje o trecho ainda \u00e9 de terra, mas uma camada de rochas e cascalho foi aplicada emergencialmente e acabou com o atoleiro. O fluxo de caminh\u00f5es nesse trecho \u00e9 normal, ajudado pelos bloqueios e reten\u00e7\u00f5es feitos adiante. &#8220;O povo que cuida da rodovia \u00e9 despreocupado&#8221;, criticou Maria.<\/p>\n<p>Cerca de 650 caminh\u00f5es, a maioria com 25 metros de comprimento e 40 toneladas de carga de soja, trafegam diariamente pela BR-163 na rota entre o norte de Mato Grosso e o terminal de Miritituba. Como uma viagem demora, em m\u00e9dia, cinco dias, a estimativa \u00e9 de que mais de 3 mil ve\u00edculos estejam rodando pela rodovia o ano inteiro. A partir de junho, a carga de soja \u00e9 trocada pela de milho.<\/p>\n<p>O presidente da C\u00e2mara Tem\u00e1tica de Infraestrutura e Log\u00edstica do Agroneg\u00f3cio do Minist\u00e9rio da Agricultura e diretor-executivo do Movimento Pr\u00f3-Log\u00edstica, comandado pela Associa\u00e7\u00e3o dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja), Edeon Vaz Ferreira, avalia que a situa\u00e7\u00e3o em 2018 \u00e9 um pouco melhor do que a do ano passado. Ele calcula que a espera \u00e9 de, no m\u00e1ximo, 18 horas em filas. &#8220;H\u00e1 a presen\u00e7a do Ex\u00e9rcito, da pol\u00edcia rodovi\u00e1ria e do Dnit (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes) e os trechos cr\u00edticos devem estar totalmente pavimentados at\u00e9 2020.&#8221;<\/p>\n<p>Segundo Ferreira, a preocupa\u00e7\u00e3o agora \u00e9 recuperar as \u00e1reas j\u00e1 asfaltadas. Exemplo disso s\u00e3o os 65 quil\u00f4metros da BR-163 antes de Novo Progresso, sentido Norte, um trecho pior do que muitos que ainda est\u00e3o sem asfalto. Enquanto os caminhoneiros sofrem, outros lucram com esses buracos.<\/p>\n<p>Borracheiro no povoado de Santa J\u00falia, Jo\u00e3o Melo e seu funcion\u00e1rio, Zineu da Rocha, o &#8220;Pica-Pau&#8221;, n\u00e3o podem reclamar. Sempre h\u00e1 servi\u00e7os de reparos em pneus e rodas de caminh\u00f5es danificados quil\u00f4metros antes. Na borracharia, uma placa retangular de isopor est\u00e1 cravada com as lembran\u00e7as da BR-163. A maioria \u00e9 de parafusos perdidos por caminh\u00f5es, colhidos por pneus de outros ve\u00edculos e retirados por Rocha e &#8220;Pica-Pau&#8221;.<\/p>\n<p>Os gargalos log\u00edsticos da BR-163 levaram a soja e a infraestrutura de armazenamento cada vez mais para perto de Miritituba. A Tapaj\u00f3s Agro iniciou a opera\u00e7\u00e3o, este ano, de um primeiro silo de armazenagem do gr\u00e3o, \u00e0s margens da rodovia, em uma fazenda no munic\u00edpio de Trair\u00e3o (PA), a apenas 150 quil\u00f4metros do terminal. A capacidade de armazenagem \u00e9 de 120 mil sacas (de 60 quilos) ou 7,2 mil toneladas do gr\u00e3o. Em 2019, a agropecu\u00e1ria deve cultivar mil hectares com soja. &#8220;Estamos muito perto de Miritituba e a soja vai ser a prioridade&#8221;, disse Rodrigo Dotto, gerente de Opera\u00e7\u00f5es da Tapaj\u00f3s.<\/p>\n<p>No terminal paraense est\u00e3o cinco opera\u00e7\u00f5es de transbordo, onde os gr\u00e3os s\u00e3o colocados em barca\u00e7as para uma viagem de mais mil quil\u00f4metros at\u00e9 o Porto de Barcarena (PA), de onde \u00e9 feita a exporta\u00e7\u00e3o. A Transportes Bertolini, que opera um terminal flutuante em Miritituba, estima enviar 1,5 milh\u00e3o de toneladas de soja e milho este ano em suas barca\u00e7as, 15% a mais que em 2017. &#8220;O volume vai ser maior do que o do ano passado, mesmo com o estresse na (BR-163)&#8221;, explicou Denilson Alves, gerente operacional do terminal.<\/p>\n<p>A operadora faz a log\u00edstica de escoamento de gr\u00e3os do terminal para as tradings Cargill, ADM e Glencore. Por dia, descarrega, em m\u00e9dia, 150 caminh\u00f5es. Antes de chegarem ao local, os ve\u00edculos passam, al\u00e9m das reten\u00e7\u00f5es na estrada, por uma triagem em \u00e1reas no entorno de Miritituba, onde \u00e9 feita a classifica\u00e7\u00e3o dos gr\u00e3os. O desembarque no terminal demora cerca de 15 minutos, mais um contraste com os dias perdidos na viagem.<\/p>\n<p>&#8220;T\u00e1 dif\u00edcil trabalhar, ningu\u00e9m olha para a gente&#8221;, disse Moacir Ot\u00e1vio Maronese. O caminhoneiro saiu exatamente do mesmo local da reportagem, em Sinop, e chegou no mesmo hor\u00e1rio. Mas viajou cinco dias para percorrer os mesmos 1 mil quil\u00f4metros feitos em dois dias pelo Broadcast Agro.<\/p>\n<p>O terminal de Miritituba tem capacidade de escoar 16,5 milh\u00f5es de toneladas de gr\u00e3os. Com o caos log\u00edstico do ano passado, 7 milh\u00f5es de toneladas foram embarcadas. Este ano, o volume crescer\u00e1 57%, para 11 milh\u00f5es de toneladas e a capacidade m\u00e1xima s\u00f3 deve ser atingida quando a BR-163 estiver transit\u00e1vel.<\/p>\n<p>No come\u00e7o do percurso, em Ita\u00faba (MT), perto de Sinop, o frentista A\u00edlton Eva Rodrigues, morador h\u00e1 mais de 40 anos da regi\u00e3o, resume o que se tornou a rodovia ap\u00f3s o in\u00edcio do escoamento da soja pelo terminal paraense e com a fiscaliza\u00e7\u00e3o mais r\u00edgida contra o desmatamento. &#8220;A BR-163 era uma estrada morta. Antes eram poucos caminh\u00f5es com madeira. Agora, 99% desses que voc\u00ea est\u00e1 vendo s\u00e3o carregados com soja&#8221;, disse. &#8220;A rodovia reviveu.&#8221;<\/p>\n<p>Fonte: Estad\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o 7h30. 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