{"id":24994,"date":"2017-10-10T00:24:29","date_gmt":"2017-10-10T03:24:29","guid":{"rendered":"http:\/\/sincomam.org.br\/?p=24994"},"modified":"2017-10-09T19:25:59","modified_gmt":"2017-10-09T22:25:59","slug":"por-dentro-do-setor-naval","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/por-dentro-do-setor-naval\/","title":{"rendered":"Por dentro do setor naval"},"content":{"rendered":"<p>Manuela Bar\u00e3o, 36 anos, \u00e9 descendente de japoneses. Ela morava em S\u00e3o Paulo, mas estava no Jap\u00e3o, em busca de emprego, quando soube da promessa de uma obra muito grande, com muitas encomendas de navios e que podia ser o seu passaporte de volta ao Brasil. Era o Estaleiro Atl\u00e2ntico Sul. \u201cQuando cheguei, vi que a realidade eram atrasos nas entregas, trocas de diretorias e a cada novo gestor, a equipe mudava. Numa dessas, fui demitida\u201d, conta a dekassegui, como se chamam os trabalhadores descendentes de japoneses que vieram do Jap\u00e3o para trabalhar na ind\u00fastria naval como m\u00e3o de obra qualificada.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cFiquei pouco mais de dois anos em Suape. Eu perdi tempo, porque estava crescendo no Jap\u00e3o, mas queria voltar para o meu Pa\u00eds\u201d, lamenta. Sem horizonte de empregos no Brasil, Manuela precisou voltar para o Jap\u00e3o, onde mora atualmente com dois filhos. L\u00e1, ela trabalha para o setor de siderurgia. \u201cNa \u00e9poca que trabalhei em Suape, tinha uns 150 dekasseguis, mas nossas expectativas foram frustradas\u201d, narra. Atualmente, n\u00e3o h\u00e1 mais dekasseguis no EAS.\u00a0<\/p>\n<p><strong>O representante do governo<\/strong><\/p>\n<p>\u201cMesmo com todas as dificuldades, os estaleiros est\u00e3o operando, isso j\u00e1 demonstra a import\u00e2ncia da diversifica\u00e7\u00e3o da economia estadual\u201d, defende o presidente do Complexo Industrial Portu\u00e1rio de Suape, Marcos Baptista. Atualmente, a ind\u00fastria de transforma\u00e7\u00e3o, na qual os empreendimentos navais est\u00e3o inseridos, j\u00e1 representa mais de 9% do Produto Interno Bruto de Pernambuco.<\/p>\n<p>\u201cEm termos de emprego, entre 2016 e 2017, apenas o Atl\u00e2ntico Sul contratou mil funcion\u00e1rios. Mas, o perfil dos profissionais mudou tanto para eles, quanto para o Vard. Isso permitiu um ganho produtivo, que hoje j\u00e1 compete com estaleiros europeus\u201d, defende. Para o gestor, essa ind\u00fastria continua sendo estrat\u00e9gica para Suape.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cPernambuco investiu cerca de R$ 2 bilh\u00f5es em infraestrutura para receber os dois estaleiros, mas a manuten\u00e7\u00e3o desse polo naval envolve v\u00e1rios atores, incluindo a Petrobras e o Governo Federal\u201d, comenta. \u201cA gente n\u00e3o pode conceber um investimento desse volume se extinguir por falta de encomendas.As empresas precisam ter novos contratos\u201d, aponta.\u00a0<\/p>\n<p><strong>O sindicalista<\/strong><\/p>\n<p>A instala\u00e7\u00e3o da ind\u00fastria naval fez de Suape um celeiro de empregos, lembra o presidente do Sindicato dos Metal\u00fargicos de Pernambuco (Sindmetal-PE), Henrique Gomes. \u201cEra o sonho da carteira assinada e dos sal\u00e1rios altos. Possibilitou a qualifica\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra, gente que era da agricultura, que nunca tinha tido emprego formal. Isso mexeu com a economia, trouxe investimentos. Muitas pessoas montaram neg\u00f3cios para prestar servi\u00e7os aos estaleiros\u201d, lembra.\u00a0<\/p>\n<p>Por outro lado, a crise ceifou as oportunidades e tamb\u00e9m impactou na renda da popula\u00e7\u00e3o. \u201cS\u00e3o mais de 100 demiss\u00f5es todos os dias. O sal\u00e1rio inicial de um soldador, que j\u00e1 foi um posto muito disputado, caiu quase que pela metade. Hoje est\u00e1 em pouco mais de R$ 1,5 mil\u201d, diz. \u201cIsso afetou tamb\u00e9m a economia da regi\u00e3o, causando fechamento de lojas, que viviam da renda dos trabalhadores do polo\u201d, conta. \u201cEm crise, as empresas tamb\u00e9m querem reduzir os benef\u00edcios para quem ficou. Estamos lutando contra a perda dos direitos trabalhistas que adquirimos ao longo dos anos\u201d, argumenta.\u00a0<\/p>\n<p><strong>O especialista<\/strong><\/p>\n<p>Floriano Pires, professor do programa de Engenharia Oce\u00e2nica da Coppe UFRJ \u00e9 um dos maiores especialistas da \u00e1rea naval do Pa\u00eds. Na avalia\u00e7\u00e3o dele, a crise atual dos estaleiros pernambucanos e dos brasileiros n\u00e3o surpreende. \u201c\u00c9 o resultado de v\u00e1rios erros do passado que sempre estiveram evidentes. Primeiro, houve excesso de entusiasmo na hora da tomada de decis\u00e3o, que foram mais pol\u00edticas e pouco racionais\u201d, aponta.\u00a0<\/p>\n<p>O professor avalia a ind\u00fastria naval ter sido eleita como \u2018vetor de desenvolvimento\u2019 foi outro equ\u00edvoco. \u201cEsse tipo de ind\u00fastria n\u00e3o \u00e9 boa para isso, ela demanda investimentos altos, m\u00e3o de obra muito especializada e fornecedores internacionais. Outras opera\u00e7\u00f5es t\u00eam resultado melhor para dinamizar a economia\u201d, argumenta.\u00a0<\/p>\n<p>Por isso, para Pires, a decis\u00e3o de criar um novo polo naval em Pernambuco (fora do Rio de Janeiro, por exemplo) deveria ter sido acompanhada de uma concentra\u00e7\u00e3o de investimentos nos anos seguintes, a fim de fortalecer os empreendimentos. \u201cEm vez disso, o governo saiu prometendo estaleiros para outros estados. At\u00e9 chegou-se a cogitar a instala\u00e7\u00e3o do Vard no Cear\u00e1\u201d, lembra.\u00a0<\/p>\n<p><strong>Os desempregados<\/strong><\/p>\n<p>A ind\u00fastria naval saiu de dois mil empregos para mais de 82 mil de 2003 a 2014, segundo o Sindicato Nacional da Ind\u00fastria da Constru\u00e7\u00e3o Naval &#8211; Sinaval. Boa parte dessa explos\u00e3o de vagas se deu em Pernambuco, que j\u00e1 chegou a ter 17 mil pessoas trabalhando no setor e hoje tem menos de cinco mil. No Brasil, restaram pouco mais de 50 mil empregados.<\/p>\n<p>A onda de desemprego se intensificou a partir de 2014, quando a crise da Petrobras come\u00e7ou a corroer a carteira de encomendas dos estaleiros. O Sindicato dos Metal\u00fargicos do Estado contabiliza 200 mil demiss\u00f5es no setor desde ent\u00e3o, grande parte delas associada ao segmento naval.\u00a0<\/p>\n<p>Muitos desses profissionais permaneceram desempregados, co\u00admo Wemerson Souza pereira, 44 anos, contador e um dos ex-funcion\u00e1rios do Vard Promar. \u201cN\u00e3o consegui mais encontrar emprego\u201d, conta, dizendo que precisou se desfazer de um apartamento e um carro para manter dois filhos e a esposa.\u00a0<\/p>\n<p>Messias dos Santos (foto acima), 36 anos, ex-oper\u00e1rio da \u00e1rea de montagem do EAS, busca emprego desde julho deste ano, quando foi demitido. \u201cFui demitido doente, com uma h\u00e9rnia de disco\u201d, detalha.\u00a0<\/p>\n<p>\u201cO Vard tamb\u00e9m rescindiu o contrato do meu cunhado, que tamb\u00e9m est\u00e1 doente\u201d, acrescenta, dizendo que ambos levaram os casos \u00e0 Justi\u00e7a. \u201cA vida de desempregado \u00e9 dif\u00edcil, especialmente porque a minha esposa n\u00e3o trabalha, temos um filho de quatro anos e pagamos aluguel\u201d, acrescenta.\u00a0<\/p>\n<p>N\u00e3o apenas os estaleiros, mas a ind\u00fastria metalmec\u00e2nica tamb\u00e9m ficou \u00e0 deriva. Cada emprego no setor naval gera quatro a cinco empregos nas industrias e pelo menos 20 empresas do segmento fecharam por perdas de demanda com a crise dos estaleiros e desmobiliza\u00e7\u00e3o da refinaria Abreu e Lima. \u201cToda a ind\u00fastria sofreu pois as empresas precisaram investir em equipamentos para atender as demandas\u201d, pontuou o presidente da Fiepe, Ricardo Essinger.<\/p>\n<p>Fonte: Folha PE<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuela Bar\u00e3o, 36 anos, \u00e9 descendente de japoneses. 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