{"id":24873,"date":"2017-10-03T00:01:32","date_gmt":"2017-10-03T03:01:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sincomam.org.br\/?p=24873"},"modified":"2017-10-01T10:50:07","modified_gmt":"2017-10-01T13:50:07","slug":"as-invencoes-que-criaram-o-mundo-e-a-economia-de-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/as-invencoes-que-criaram-o-mundo-e-a-economia-de-hoje\/","title":{"rendered":"As inven\u00e7\u00f5es que criaram o mundo (e a economia) de hoje"},"content":{"rendered":"<p>Costumava haver duas maneiras de encarar o estudo da hist\u00f3ria humana. De um lado, os que consideram que a hist\u00f3ria \u00e9 produto dos feitos de homens e mulheres; de outro lado, os que consideram que os homens e mulheres s\u00e3o produto da hist\u00f3ria \u2013 ou seja, de seu tempo e das condi\u00e7\u00f5es que os cercam. A primeira vis\u00e3o \u00e9 heroica; pessoas especiais moldam as sociedades. Explica-se a independ\u00eancia do Brasil pela personalidade de Dom Pedro I, a Segunda Guerra Mundial pela mente patol\u00f3gica de Adolf Hitler e por a\u00ed vai. A segunda vis\u00e3o \u00e9 determinista: se Einstein n\u00e3o tivesse produzido a Teoria da Relatividade, outra pessoa o teria feito, mais ou menos na mesma \u00e9poca, porque as circunst\u00e2ncias apontavam para isso.Parece \u00f3bvio, pelo menos para quem n\u00e3o toma partido nesse debate, que as duas teses t\u00eam seu tanto de verdade \u2013 e seu tanto de problemas. A solu\u00e7\u00e3o, como dizia Arist\u00f3teles, pode estar no meio do caminho. Ou numa terceira tese. Neste s\u00e9culo 21, tem ganhado for\u00e7a uma corrente de pensadores que atribui o protagonismo da evolu\u00e7\u00e3o social n\u00e3o \u00e0s pessoas ou ao contexto hist\u00f3rico, mas \u00e0s inven\u00e7\u00f5es. Claro, toda inven\u00e7\u00e3o nasce da mente humana. Mas o argumento aqui \u00e9 que elas determinam novas possibilidades, inclusive de outras inven\u00e7\u00f5es, e por isso mais guiam a hist\u00f3ria do que s\u00e3o guiadas por ela. Como se fossem seres vivos \u2013 e n\u00f3s, suas realiza\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Um exemplo recente dessa linha \u00e9 o livro Para Onde Nos Leva a Tecnologia, de Kevin Kelly, fundador da revista\u00a0<i>Wired<\/i>. O t\u00edtulo em ingl\u00eas \u00e9 mais perempt\u00f3rio: what technology wants \u2013 o que a tecnologia quer. O conceito b\u00e1sico \u00e9 que a tecnologia \u00e9 uma tenta\u00e7\u00e3o e uma facilidade, e n\u00f3s seguimos esse caminho, mesmo se temos a cren\u00e7a de que o estamos construindo.<br \/>N\u00e3o h\u00e1 escassez de argumentos erguidos com essa premissa. Um deles \u00e9 que a informa\u00e7\u00e3o quer ser livre (um mantra de hackers pelo mundo afora), como se tivesse uma consci\u00eancia e uma vontade. Outro \u00e9 que a singularidade \u00e9 inevit\u00e1vel \u2013 a partir do momento em que os rob\u00f4s puderem construir rob\u00f4s mais inteligentes que eles pr\u00f3prios, esse processo vai torn\u00e1-los senhores do mundo.<\/p>\n<p>Essa premissa de que a tecnologia determina seu pr\u00f3prio caminho est\u00e1 no cerne do novo livro do economista e jornalista Tim Harford,\u00a0<em>Fifty Inventions That Shaped the Modern Economy<\/em>\u00a0(50 inven\u00e7\u00f5es que moldaram a economia moderna).<\/p>\n<p>Harford \u00e9 autor da coluna\u00a0<em>The Undercover Economist<\/em>\u00a0(O economista disfar\u00e7ado) no jornal Financial Times e um dos maiores expoentes da voga dos explicadores da economia, junto com a dupla\u00a0<em>Freakonomics<\/em>. Ningu\u00e9m mais gabaritado que ele, portanto, para pin\u00e7ar 50 ideias marcantes da evolu\u00e7\u00e3o da sociedade e as expor com uma narrativa envolvente e instrutiva.<\/p>\n<p>De fato, \u00e9 isso o que ele faz, e muito bem feito \u2013 embora diga, nas primeiras p\u00e1ginas do livro, que n\u00e3o \u00e9 isso o que quer fazer.<\/p>\n<p><b>Vencedores e perdedores<\/b><\/p>\n<p>O problema \u00e9 que o que Harford quer fazer n\u00e3o fica muito claro. Ele n\u00e3o chega a defender a tese de que as inven\u00e7\u00f5es guiam o progresso. Ele apenas as usa para exemplificar os caminhos que o mundo tomou, e esgrime o incontest\u00e1vel argumento de que toda tecnologia traz mudan\u00e7as, e toda mudan\u00e7a tem vencedores e perdedores.<\/p>\n<p>Tome-se seu primeiro exemplo como exemplo: o arado. Para Harford, o arado ilustra v\u00e1rios dos temas de seu livro: \u201co modo como novas ideias com frequ\u00eancia mudam o equil\u00edbrio de poder econ\u00f4mico, criando novos vencedores e novos perdedores; como os impactos econ\u00f4micos podem ser atrelados a impactos no nosso modo de vida, tal como a mudan\u00e7a de rela\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres; e como uma inven\u00e7\u00e3o como o arado abre as possibilidades para outras inven\u00e7\u00f5es \u2013 a escrita, os direitos de propriedade, o fertilizante qu\u00edmico e muito mais\u201d.<\/p>\n<p>Segundo Harford, o arado elevou a efici\u00eancia da agricultura ao ponto de torn\u00e1-la irresist\u00edvel para a ra\u00e7a humana. A partir dele, as pessoas deixaram o modo de vida de ca\u00e7a e coleta e se fixaram em volta das planta\u00e7\u00f5es, o que deu origem \u00e0s cidades e, posteriormente, \u00e0 civiliza\u00e7\u00e3o como a conhecemos.<\/p>\n<p>Numa das primeiras notas deste cap\u00edtulo, Harford reconhece que h\u00e1 teorias concorrentes, como a de que as cidades nasceram primeiro, em fun\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio, e paulatinamente surgiram as tecnologias agr\u00edcolas, como o arado e a domestica\u00e7\u00e3o dos animais. Segundo ele, isso n\u00e3o tiraria o valor central do arado.<\/p>\n<p>Mas tira. Uma coisa \u00e9 a tecnologia dar origem a um novo modo de vida, como implica o t\u00edtulo do livro. Outra, bem diferente, \u00e9 ela ser consequ\u00eancia, ou produto, ou evolu\u00e7\u00e3o concomitante ao progresso social. No primeiro caso, os usu\u00e1rios de tecnologia s\u00e3o v\u00edtimas. No outro, s\u00e3o sujeitos.<\/p>\n<p><b>O valor das tecnologias<\/b><\/p>\n<p>Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, o fato de Harford montar um livro com uma base t\u00e3o fr\u00e1gil n\u00e3o o torna um livro ruim. Ao contr\u00e1rio. Por dois motivos.<br \/>O primeiro \u00e9, como dito acima, seu talento para escrever textos encantadores e instrutivos. O livro \u00e9 menos uma defesa de uma tese do que uma colet\u00e2nea de ensaios sobre economia \u2013 tanto que se origina de um podcast que produziu para a BBC, no ano passado.<\/p>\n<p>Melhor ainda, as escolhas de Harford em geral n\u00e3o s\u00e3o as \u00f3bvias. Sim, o iPhone est\u00e1 l\u00e1. Mas tamb\u00e9m est\u00e3o o arado, o arame farpado, o estado de bem-estar social, a p\u00edlula, as companhias de responsabilidade limitada, a pesquisa de mercado. At\u00e9 as consultorias estrat\u00e9gicas fazem parte da lista.<br \/>N\u00e3o s\u00e3o ensaios extensos sobre cada tecnologia, porque n\u00e3o caberiam grandes mergulhos em cada uma num livro de 321 p\u00e1ginas. Mas \u00e9 espa\u00e7o suficiente para provocar algumas surpresas.<\/p>\n<p>O ar-condicionado, por exemplo. Ele n\u00e3o apenas elevou a produtividade nos escrit\u00f3rios. N\u00e3o fosse por ele, \u00e9 poss\u00edvel que os cinemas n\u00e3o tivessem decolado. Nos anos 1920, as pessoas relutavam em entrar numa sala cheia de seres que transpiram, amontoados num ambiente abafado. O ar-condicionado trouxe o p\u00fablico. E contribuiu para outro fen\u00f4meno dos dias de hoje: o sucesso dos shopping centers. Ou tome-se o cont\u00eainer. Parece uma inven\u00e7\u00e3o \u00f3bvia. Mas a dificuldade, no caso, era a padroniza\u00e7\u00e3o. Sem ela, o carregamento de mercadorias era uma complica\u00e7\u00e3o log\u00edstica dif\u00edcil de ultrapassar. Quando o mesmo sistema trafega por navios, trens e caminh\u00f5es\u2026 facilita-se o com\u00e9rcio transnacional e cria-se a globaliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Est\u00e1 claro que Harford n\u00e3o acredita que o cont\u00eainer deu origem \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o. E a\u00ed est\u00e1 a segunda grande qualidade do livro. A tecnologia \u00e9 um chamariz para que ele comente o contexto que engendrou v\u00e1rios dos elementos da economia moderna.<\/p>\n<p>A pesquisa de mercado lhe permite falar sobre a passagem de uma economia liderada pela produ\u00e7\u00e3o para uma economia liderada pelo consumo.<\/p>\n<p>O jantar pr\u00e9-pronto lhe permite falar como a industrializa\u00e7\u00e3o da comida mudou nossas vidas \u201cem dois importantes aspectos: ela liberou as mulheres dos afazeres dom\u00e9sticos, removendo um grande obst\u00e1culo para a ado\u00e7\u00e3o de carreiras profissionais; mas ao tornar cada vez mais conveniente a ingest\u00e3o de calorias sem valor nutricional, ela tamb\u00e9m liberou nossas cinturas para se expandir\u201d.<\/p>\n<p>Ao longo de cada cap\u00edtulo, fica claro que, assim como as pessoas, nenhuma tecnologia \u00e9 uma ilha. \u00c9 at\u00e9 dif\u00edcil destacar onde uma inven\u00e7\u00e3o come\u00e7a, quem a produziu, quando ela pode ser considerada pronta.<br \/>Certamente, n\u00e3o foram apenas 50 inven\u00e7\u00f5es que nos trouxeram at\u00e9 aqui. Mas a ideia geral \u00e9 v\u00e1lida: tudo o que fazemos volta para n\u00f3s mesmos. \u00c0s vezes de formas inesperadas.<\/p>\n<p>Fonte: O Estado de SP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Costumava haver duas maneiras de encarar o estudo da hist\u00f3ria humana. 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