{"id":23290,"date":"2017-05-05T00:02:45","date_gmt":"2017-05-05T03:02:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sincomam.org.br\/?p=23290"},"modified":"2017-05-04T11:24:08","modified_gmt":"2017-05-04T14:24:08","slug":"o-bndes-mudou-e-quem-dependia-do-credito-teve-de-se-cocar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/o-bndes-mudou-e-quem-dependia-do-credito-teve-de-se-cocar\/","title":{"rendered":"O BNDES mudou e quem dependia do cr\u00e9dito teve de \u201cse co\u00e7ar\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Os executivos da montadora de caminh\u00f5es americana DAF aguardam ansiosos a autoriza\u00e7\u00e3o para a abertura de seu banco no pa\u00eds \u2014 o pedido j\u00e1 foi feito e em 30 dias o plano de neg\u00f3cios ser\u00e1 apresentado ao Banco Central. Assim como faz em outros mercados, o banco da montadora, parte do grupo Paccar, com receita global de 17 bilh\u00f5es de d\u00f3lares, vai ajudar a financiar os clientes na aquisi\u00e7\u00e3o de ve\u00edculos.<\/p>\n<p>Por aqui, essa n\u00e3o era uma necessidade urgente quando a empresa chegou, em 2011, e investiu 1 bilh\u00e3o de reais na constru\u00e7\u00e3o de uma f\u00e1brica na cidade de Ponta Grossa, no Paran\u00e1, com capacidade para produzir 10\u2009000 unidades por ano. Na \u00e9poca, a economia brasileira crescia 4% ao ano, a venda de caminh\u00f5es batia recorde e o cr\u00e9dito era farto e barato. Passados alguns anos, j\u00e1 com a f\u00e1brica em opera\u00e7\u00e3o, o cen\u00e1rio \u00e9 outro. A economia encolheu e os clientes cortaram as encomendas.<\/p>\n<p>Como se n\u00e3o bastasse, desde 2015 o acesso ao cr\u00e9dito ficou mais dif\u00edcil. O Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social, que chegou a oferecer 77% do dinheiro para a compra de caminh\u00f5es no pa\u00eds a uma taxa de juro de 2,5% ao ano, mudou de estrat\u00e9gia. O BNDES passou a financiar uma fatia menor do valor dos ve\u00edculos. E quem dependia do cr\u00e9dito tamb\u00e9m teve de mudar.<\/p>\n<p>Com seu banco, a DAF espera vender mais caminh\u00f5es \u2014 hoje s\u00e3o 1\u2009500 por ano. \u201cQueremos estar com nosso banco pronto para quando o mercado reagir\u201d, diz Luis Gambim, diretor comercial da DAF. Nos c\u00e1lculos da DAF, em 2022 os recursos do BNDES v\u00e3o representar metade do valor usado na compra de caminh\u00f5es no pa\u00eds, abrindo espa\u00e7o para o banco da montadora gradualmente crescer nos empr\u00e9stimos \u2014 parte com repasses do BNDES, parte com capital pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi s\u00f3 a DAF que teve de encontrar uma sa\u00edda diante do recuo do BNDES. Empresas dos setores de energia, m\u00e1quinas, autope\u00e7as e outros est\u00e3o convivendo com o fato de o banco n\u00e3o ser mais aquela fonte abundante de distribui\u00e7\u00e3o de dinheiro p\u00fablico a taxas camaradas. A ideia do governo \u00e9 afastar o BNDES da orienta\u00e7\u00e3o refor\u00e7ada em 2009, ap\u00f3s a crise econ\u00f4mica mundial, de anabolizar o setor produtivo.<\/p>\n<p>De 2007 a 2014, a carteira do banco cresceu mais de quatro vezes, atingindo 11% do produto interno bruto e um quinto do cr\u00e9dito do pa\u00eds. Para um grupo seleto de empresas, as chamadas \u201ccampe\u00e3s nacionais\u201d, foram destinados 40 bilh\u00f5es de reais, em cr\u00e9dito e em participa\u00e7\u00e3o acion\u00e1ria. O objetivo era que elas crescessem e representassem o Brasil pelo mundo. O avan\u00e7o s\u00f3 foi poss\u00edvel porque o Tesouro Nacional aportou mais de 400 bilh\u00f5es de reais no banco, em opera\u00e7\u00f5es que embutiam subs\u00eddios tamb\u00e9m bilion\u00e1rios.<\/p>\n<p>O fluxo de dinheiro era tanto que o BNDES chegou a financiar anualmente um valor tr\u00eas vezes maior do que o do Banco Mundial \u2014 organiza\u00e7\u00e3o multilateral que atende dezenas de pa\u00edses de renda m\u00e9dia e baixa. Com a nomea\u00e7\u00e3o da economista Maria Silvia Bastos Marques para a presid\u00eancia do BNDES em junho de 2016, o governo Michel Temer deu um basta ao crescimento exponencial que contribuiu para ampliar o rombo das contas p\u00fablicas e n\u00e3o elevou o n\u00edvel de investimento no pa\u00eds. \u201cA mudan\u00e7a \u00e9 positiva porque a pol\u00edtica anterior trazia problemas fiscais e n\u00e3o se sustentaria no m\u00e9dio prazo\u201d, diz Ricardo Carvalho, diretor da ag\u00eancia de classifica\u00e7\u00e3o de risco Fitch.<\/p>\n<p>De fato, n\u00e3o tinha como durar muito. Por isso, a pol\u00edtica do BNDES come\u00e7ou a ser revista j\u00e1 em 2015, quando o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy decidiu fechar a torneira. A recess\u00e3o tamb\u00e9m foi determinante para reduzir a demanda por empr\u00e9stimos subsidiados. Por fim, o avan\u00e7o da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, que colocou no olho do furac\u00e3o muitos dos grandes clientes do banco, ajudou a encolher ainda mais a atua\u00e7\u00e3o do BNDES \u2014 aos poucos, as dela\u00e7\u00f5es de executivos da Odebrecht\u00a0levantaram suspeitas de favorecimento envolvendo o banco durante os anos PT.<\/p>\n<p>No come\u00e7o de abril, Em\u00edlio Odebrecht, principal acionista do grupo, narrou que pediu ao ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva para \u201cprestigiar\u201d e evitar \u201cdificuldades\u201d na extens\u00e3o do valor de uma linha de cr\u00e9dito do BNDES para um servi\u00e7o da empreiteira em Angola. O ex-presidente Marcelo Odebrecht e o ex-diretor de infraestrutura da construtora Jo\u00e3o Nogueira contaram que a empreiteira pagou 12 milh\u00f5es de reais \u00e0 empresa DM Desenvolvimento de Neg\u00f3cios Internacionais, indicada pelo ex-assessor do Minist\u00e9rio da Fazenda Luiz Eduardo Melin, para que ela ajudasse o grupo com informa\u00e7\u00f5es nas demandas de financiamento para obras no exterior.<\/p>\n<p>Em nota p\u00fablica, o BNDES informou que instaurou uma comiss\u00e3o interna para apurar o caso. \u00c9 fato, de todo modo, que o banco financiou quase 10 bilh\u00f5es de d\u00f3lares de empreitadas internacionais da Odebrecht, sobretudo na Am\u00e9rica Latina. Um dos exemplos foi o cr\u00e9dito de 682 milh\u00f5es concedido \u00e0 Odebrecht para a constru\u00e7\u00e3o do porto de Mariel, em Cuba. No Peru, as investiga\u00e7\u00f5es apontam que a distribui\u00e7\u00e3o de propina da Odebrecht envolve tr\u00eas ex-presidentes da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p>Independentemente de novos enroscos que o banco tenha ter de apurar no futuro, sob o comando de Maria Silvia foi colocada em curso uma nova pol\u00edtica operacional que limita o acesso a dinheiro barato. O BNDES estipulou que sua participa\u00e7\u00e3o nos empr\u00e9stimos com taxas subsidiadas ser\u00e1 de, no m\u00e1ximo, 80% do valor do projeto ou do bem a ser adquirido. H\u00e1 grada\u00e7\u00f5es, dependendo do neg\u00f3cio \u2014 esse m\u00e1ximo \u00e9 para projetos considerados de bom retorno social ou ambiental.<\/p>\n<p>O restante ter\u00e1 de ser bancado pelo tomador ou por outras fontes de financiamento. \u201cDaremos \u00eanfase a uma atua\u00e7\u00e3o focada em projetos, e n\u00e3o mais em setores\u201d, respondeu Maria Silvia a EXAME por e-mail. A taxa de longo prazo cobrada pelo banco, principal instrumento para financiamentos desse tipo no pa\u00eds, tamb\u00e9m vai mudar. At\u00e9 dezembro, continuar\u00e1 valendo a Taxa de Juro de Longo Prazo (TJLP), que \u00e9 fixada pelo Conselho Monet\u00e1rio Nacional e hoje est\u00e1 em 7% ao ano.<\/p>\n<p>Segundo o economista Roberto Castello Branco, diretor do centro de estudos Crescimento &amp; Desenvolvimento da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas, a TJLP foi concebida para flutuar ao longo do tempo, mas foi alterada apenas nove vezes de 2007 a 2016. Em quase todo esse per\u00edodo, ela ficou muito abaixo da taxa b\u00e1sica da economia \u2014 e da\u00ed surgia um subs\u00eddio impl\u00edcito do governo nessas opera\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que o Tesouro captava os recursos a uma taxa superior \u00e0quela que era cobrada ao emprestar.<\/p>\n<p>Em seu lugar, entrar\u00e1 gradualmente nos pr\u00f3ximos cinco anos a nova taxa de longo prazo, a TLP, que seguir\u00e1 um t\u00edtulo p\u00fablico com prazo de cinco anos que rende um juro fixo mais a taxa de infla\u00e7\u00e3o. Um estudo feito pela economista Adriana Dupita, do banco Santander, mostra que, ao final dos cinco anos de transi\u00e7\u00e3o da regra, a TLP dever\u00e1 estar em 8,5% ao ano, acima da taxa b\u00e1sica de juro.<\/p>\n<p>Por isso, muitas companhias j\u00e1 come\u00e7aram a se movimentar diante das novas pol\u00edticas. No ano passado, pela primeira vez em uma d\u00e9cada, o mercado de capitais superou o banco de desenvolvimento como fonte de financiamento das empresas, segundo o Centro de Estudos do Instituto Ibmec. Dados da consultoria Inter.B mostram que, no financiamento \u00e0 infraestrutura, a participa\u00e7\u00e3o do BNDES caiu de 73%, em 2014, para 62%, em 2016 \u2014 j\u00e1 a emiss\u00e3o de t\u00edtulos de d\u00edvida para financiar a infraestrutura subiu de 11% para 15% no per\u00edodo.<\/p>\n<p>\u201cH\u00e1 muito tempo as emiss\u00f5es no mercado de capitais como um todo est\u00e3o no patamar de 100 bilh\u00f5es de reais\u201d, diz Jos\u00e9 Eduardo Laloni, diretor da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais. \u201cCom as mudan\u00e7as no BNDES, os investidores podem ter mais apetite para financiar projetos de longo prazo.\u201d<\/p>\n<p>Um exemplo ocorreu nos leil\u00f5es recentes de infraestrutura. A empresa espanhola Arteris venceu no final de abril a disputa para administrar os 720 quil\u00f4metros da rodovia dos Cal\u00e7ados, entre as cidades de Itaporanga e Franca, no interior de S\u00e3o Paulo. A concess\u00e3o do governo paulista prev\u00ea investimentos de 5 bilh\u00f5es de reais em 30 anos. Num projeto desse, no passado, o BNDES chegava a financiar 70% do valor com taxas subsidiadas. Agora, a fatia \u00e9 de at\u00e9 50%.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, bancos internacionais se interessaram pelo projeto. Isso porque foi criada uma regra que permite ao concession\u00e1rio abater a varia\u00e7\u00e3o cambial do valor da outorga devida, numa esp\u00e9cie de prote\u00e7\u00e3o cambial. O International Finance Corporation, uma institui\u00e7\u00e3o do Banco Mundial, ofereceu 400 milh\u00f5es de d\u00f3lares \u00e0 concession\u00e1ria. \u201cTemos mais alternativas e estamos avaliando todas as possibilidades\u201d, afirma David D\u00edaz, presidente da Arteris.<\/p>\n<p>Com menos dinheiro barato do BNDES, as concession\u00e1rias ter\u00e3o de acessar fontes de cr\u00e9dito mais custosas, e o efeito ser\u00e1 um ped\u00e1gio mais caro. Estudos acad\u00eamicos mostram que a retirada da TJLP poderia encarecer 20% as tarifas \u2014 e isso tem sido uma das cr\u00edticas em rela\u00e7\u00e3o ao recuo do BNDES. \u201cO problema maior \u00e9 que antes eram criadas tarifas artificialmente baixas, mas toda a sociedade pagava a conta dos subs\u00eddios do BNDES\u201d, diz Diogo Berger, chefe da \u00e1rea de projetos de infraestrutura do Santander.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que muita gente aproveitou os tempos de dinheiro f\u00e1cil para atualizar e ampliar sua estrutura. A fabricante ga\u00facha de carrocerias para caminh\u00f5es Randon investiu nos \u00faltimos anos para expandir a capacidade de produ\u00e7\u00e3o para 26\u2009000 semirreboques por ano em suas tr\u00eas f\u00e1bricas. No entanto, as vendas anuais da empresa est\u00e3o em 10\u2009000 unidades. \u201cNossa capacidade seria suficiente para abastecer todo o mercado brasileiro de semirreboques hoje\u201d, afirma Geraldo Santa Catharina, diretor financeiro da Randon. \u201cOlhando no retrovisor, houve um exagero.\u201d<\/p>\n<p>Apesar de reconhecer a necessidade de mudan\u00e7as, os empres\u00e1rios reclamam da velocidade, do formato e da dose das mudan\u00e7as em curso. Com o BNDES no futuro oferecendo juros de mercado, parte da ind\u00fastria argumenta que as margens, j\u00e1 apertadas, ser\u00e3o ainda mais espremidas. A Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de S\u00e3o Paulo elaborou um estudo em que mostra que, com a ado\u00e7\u00e3o da nova modalidade de juros, os financiamentos com recursos do BNDES ficar\u00e3o mais caros a ponto de fazer cair em 0,5 ponto do PIB o investimento m\u00e9dio anual das empresas no pa\u00eds. Com isso, deixariam de ser criados 500 000 empregos, sempre segundo a Fiesp.<\/p>\n<p>\u201cSem a participa\u00e7\u00e3o do BNDES, a vida ser\u00e1 muito mais dif\u00edcil e a retomada da produ\u00e7\u00e3o industrial para n\u00edveis sustent\u00e1veis n\u00e3o acontecer\u00e1\u201d, diz Alcides Braga, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Fabricantes de Implementos Rodovi\u00e1rios. No setor de infraestrutura, h\u00e1 reclama\u00e7\u00f5es sobre a alta exig\u00eancia de garantias por parte do banco, deixando pouco para os demais financiadores do projeto. Em resposta, o BNDES diz que est\u00e1 em est\u00e1gio avan\u00e7ado de negocia\u00e7\u00e3o com os bancos para compartilhar garantias.<\/p>\n<h3>Lentid\u00e3o nos empr\u00e9stimos<\/h3>\n<p>Outra frente de insatisfa\u00e7\u00e3o \u00e9 a demora na libera\u00e7\u00e3o dos empr\u00e9stimos, o que obriga os empres\u00e1rios a buscar recursos tempor\u00e1rios nos bancos privados, pagando juros altos. \u201cA morosidade do BNDES aumentou nos \u00faltimos dois anos\u201d, diz Eduardo Sattamini, presidente da geradora de energia Engie. \u201cTemos casos em que recebemos os recursos juntamente com a entrada em opera\u00e7\u00e3o comercial.\u201d<\/p>\n<p>No Complexo E\u00f3lico Santa M\u00f4nica, um projeto de 460 milh\u00f5es de reais da Engie no munic\u00edpio de Trairi, no Cear\u00e1, a entrada em funcionamento se deu no segundo semestre do ano passado, mas os recursos do BNDES s\u00f3 chegaram em fevereiro deste ano. Um levantamento feito pelo pr\u00f3prio BNDES mostra que, nas opera\u00e7\u00f5es n\u00e3o autom\u00e1ticas (o que exclui as feitas por agentes financeiros e de at\u00e9 20 milh\u00f5es de reais), o prazo m\u00e9dio de libera\u00e7\u00e3o \u00e9 de 315 dias, podendo chegar a 2 518 dias. A meta do BNDES \u00e9 j\u00e1 neste ano fechar pelo menos metade das libera\u00e7\u00f5es em at\u00e9 180 dias, aprimorando os processos.<\/p>\n<p>Para que os planos de Maria Silvia de fato se concretizem, ela tem o desafio de convencer os pr\u00f3prios funcion\u00e1rios de carreira do banco das mudan\u00e7as que est\u00e3o sendo feitas. Segundo EXAME apurou, muitos t\u00e9cnicos reclamam da nova diretoria. Um exemplo da resist\u00eancia foi a mobiliza\u00e7\u00e3o de 600 funcion\u00e1rios contra a nova taxa de longo prazo, a TLP, em assembleia realizada em fevereiro.<\/p>\n<p>Na cultura do banco, a hierarquia sempre foi seguida \u00e0 risca e esse tipo de manifesta\u00e7\u00e3o \u00e9 considerado in\u00e9dito. \u201cSeja no setor p\u00fablico, seja no privado, \u00e9 natural que o que \u00e9 novo cause resist\u00eancia, principalmente nos funcion\u00e1rios mais antigos\u201d, diz Eliane Lustosa, diretora da \u00e1rea de mercado de capitais do BNDES. \u201cMas nossa avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 que o banco precisa discutir as melhores formas para que se torne mais eficiente.\u201d<\/p>\n<p>Os cr\u00edticos reclamam que n\u00e3o houve di\u00e1logo com os t\u00e9cnicos nem apresenta\u00e7\u00e3o de pesquisas que justifiquem a TLP. Dizem ainda que a nova diretoria teria alegado que a mudan\u00e7a seria feita via projeto de lei, garantindo uma discuss\u00e3o mais aprofundada sobre a nova metodologia. No dia 26 de abril, por\u00e9m, o presidente Michel Temer editou uma medida provis\u00f3ria instituindo a nova taxa, o que enfurece parte do corpo t\u00e9cnico do banco.<\/p>\n<p>Em nada melhora o clima entre os funcion\u00e1rios o fato de opera\u00e7\u00f5es consideradas nebulosas voltarem \u00e0 tona. Al\u00e9m das press\u00f5es que envolvem os novos desdobramentos da Lava-Jato (a rodada de depoimentos de executivos da empreiteira OAS deve ocorrer em breve), em abril, o Tribunal de Contas da Uni\u00e3o avan\u00e7ou em outro ponto sens\u00edvel: determinou que se investigue o empr\u00e9stimo de 750 milh\u00f5es de d\u00f3lares do BNDES \u00e0 JBS, uma das empresas eleitas da pol\u00edtica de campe\u00f5es nacionais, para a compra do frigor\u00edfico americano Swift em 2007.<\/p>\n<p>De acordo com o tribunal, h\u00e1 ind\u00edcios de favorecimento \u00e0 JBS na libera\u00e7\u00e3o do recurso. O banco alegou que ajuda nas investiga\u00e7\u00f5es. A JBS diz que as opera\u00e7\u00f5es foram feitas com lisura. As investiga\u00e7\u00f5es t\u00eam efeito dentro do BNDES: geram um temor de t\u00e9cnicos em assinar documentos, reduzindo a celeridade dos processos. Desde janeiro, quando a Justi\u00e7a Federal de Mato Grosso do Sul confirmou uma liminar de bloqueio de bens de 23 funcion\u00e1rios do BNDES, entre t\u00e9cnicos, diretores e at\u00e9 o ex-presidente Luciano Coutinho, no caso do financiamento \u00e0 Usina S\u00e3o Fernando, do pecuarista Jos\u00e9 Carlos Bumlai, h\u00e1 tens\u00e3o pelos corredores do banco.<\/p>\n<p>Que a vida ficou mais dura para quem depende do BNDES \u00e9 \u00f3bvio. Mas, no longo prazo, as mudan\u00e7as trar\u00e3o impactos positivos para a economia. Um desses benef\u00edcios est\u00e1 na pol\u00edtica de combate \u00e0 infla\u00e7\u00e3o. Economistas apontam que o cr\u00e9dito subsidiado torna a pol\u00edtica monet\u00e1ria menos eficiente. Metade do cr\u00e9dito no Brasil \u00e9 de alguma forma subsidiado, sendo 42% operados pelo BNDES. Isso exige que o Banco Central tenha de fazer movimentos mais fortes na taxa b\u00e1sica de juro para conseguir efeito sobre a outra metade do volume de cr\u00e9dito, que responde \u00e0 flutua\u00e7\u00e3o dos juros de mercado. O governo estima que a taxa Selic poder\u00e1 cair 1 ponto com uma nova postura do BNDES.<\/p>\n<p>\u201cMexer no juro cobrado pelo banco foi uma das maneiras encontradas de arrumar essa distor\u00e7\u00e3o na pol\u00edtica monet\u00e1ria e fazer o juro b\u00e1sico cair\u201d, diz um t\u00e9cnico da equipe econ\u00f4mica que participou da decis\u00e3o. Tamb\u00e9m h\u00e1 impactos na pol\u00edtica fiscal: o Tesouro Nacional economiza 5 bilh\u00f5es de reais a cada 1 ponto de redu\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a entre o juro do BNDES e a taxa b\u00e1sica da economia, segundo um estudo do banco Santander.<\/p>\n<p>Assim como em outros aspectos da economia, a mudan\u00e7a no BNDES exp\u00f5e as disfun\u00e7\u00f5es do pa\u00eds nos \u00faltimos anos. \u00c0 medida que o Banco Central puder reduzir mais o juro b\u00e1sico, investidores antes acomodados pelos retornos altos dos t\u00edtulos p\u00fablicos ter\u00e3o de buscar a rentabilidade no financiamento aos neg\u00f3cios. \u00c9 fato tamb\u00e9m que reduzir apenas a participa\u00e7\u00e3o do BNDES na economia n\u00e3o resolve todos os problemas da na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cSe o governo n\u00e3o fizesse nada do ponto de vista fiscal, encolher o BNDES seria negativo para a atividade\u201d, diz Solange Srour, economista-chefe da gestora de recursos ARX. \u201cPor isso, outras coisas precisam andar juntas. A agenda de reformas tamb\u00e9m precisa passar para reduzir o risco do pa\u00eds.\u201d Parece coerente que a pol\u00edtica fiscal e a monet\u00e1ria caminhem juntas, o que n\u00e3o aconteceu nos \u00faltimos anos. O novo BNDES \u00e9 apenas mais uma pe\u00e7a nesse processo de reorganiza\u00e7\u00e3o do Brasil.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os executivos da montadora de caminh\u00f5es americana DAF aguardam ansiosos a autoriza\u00e7\u00e3o para a abertura de seu banco no pa\u00eds \u2014 o pedido j\u00e1 foi&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1182,"featured_media":17897,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-23290","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23290","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1182"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23290"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23290\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":23291,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23290\/revisions\/23291"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/17897"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23290"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23290"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23290"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}