{"id":22194,"date":"2017-01-09T01:00:14","date_gmt":"2017-01-09T03:00:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sincomam.org.br\/?p=22194"},"modified":"2017-01-07T10:47:38","modified_gmt":"2017-01-07T12:47:38","slug":"a-corrupcao-e-a-farra-fiscal-sao-duas-faces-da-mesma-moeda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/a-corrupcao-e-a-farra-fiscal-sao-duas-faces-da-mesma-moeda\/","title":{"rendered":"A corrup\u00e7\u00e3o e a farra fiscal s\u00e3o duas faces da mesma moeda"},"content":{"rendered":"<p>O economista Gustavo Franco era o presidente do Banco Central em setembro de 1997. Um dos formuladores do Plano Real, Franco permaneceu no setor p\u00fablico, entre o Minist\u00e9rio da Fazenda e o BC, de 1993 a 99. Nesse per\u00edodo, foi alvo do humor voraz dos cartunistas. Hoje, essas hist\u00f3rias est\u00e3o espalhadas em sua casa e em seu escrit\u00f3rio, no Rio de Janeiro. \u201cCom tantas outras coisas para se irritar, as charges s\u00e3o um banho de bom humor\u201d, diz ele, que \u00e9 o respons\u00e1vel pela edi\u00e7\u00e3o brasileira do livro A gra\u00e7a do dinheiro \u2013 as melhores charges da New Yorker sobre economia em 90 anos (Zahar).\u00a0A partir de 2000, Franco criou a Rio Bravo Investimentos e passou a ser um cr\u00edtico da pol\u00edtica econ\u00f4mica. Nesta entrevista, ele volta no tempo para falar sobre a ado\u00e7\u00e3o do c\u00e2mbio fixo, uma de suas mais criticadas decis\u00f5es, analisa como a oposi\u00e7\u00e3o se beneficiou dos avan\u00e7os institucionais promovidos pelo governo Fernando Henrique Cardoso e lamenta os erros de gest\u00e3o econ\u00f4mica cometidos a partir de 2009, que levaram o Brasil \u00e0 pior recess\u00e3o de sua hist\u00f3ria. \u201cTudo fazia crer que o Pa\u00eds tinha convergido em torno de algumas ideias b\u00e1sicas de macroeconomia, que tinham acabado as eras da feiti\u00e7aria e do invencionismo. Mas resolvemos recuar, infelizmente\u201d, diz ele.<\/p>\n<p><strong>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds diferente do de 20 anos atr\u00e1s?<br \/>GUSTAVO FRANCO \u2013<\/strong>\u00a0Comecei no Minist\u00e9rio da Fazenda, em maio de 1993, numa \u00e9poca em que a infla\u00e7\u00e3o estava em 30% ao m\u00eas e n\u00e3o havia a esperan\u00e7a de melhoria concreta no horizonte. O Fernando Henrique Cardoso era o quarto ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco e essa \u00e9 uma li\u00e7\u00e3o interessante para come\u00e7ar, pois o nevoeiro era muito espesso, tal como \u00e9 hoje. A pol\u00edtica era uma complica\u00e7\u00e3o e a economia, tamb\u00e9m. Est\u00e1 longe de ser a primeira vez que a gente olha para a conjuntura e n\u00e3o v\u00ea a porta de sa\u00edda. Ali, em 1993, tem um milh\u00e3o de semelhan\u00e7as com a situa\u00e7\u00e3o de agora: era tamb\u00e9m um vice-presidente iniciando os trabalhos num momento de fraqueza, de incapacidade de formular coisas que satisfizessem os anseios da popula\u00e7\u00e3o e, devagarzinho, um diz depois do outro, um ministro da Fazenda traz a mistura correta de ingredientes e solu\u00e7\u00f5es. Ele sai do minist\u00e9rio da Fazenda 320 dias depois para disputar a elei\u00e7\u00e3o presidencial e ganhar no primeiro turno. Ou seja, foi poss\u00edvel fazer em menos de um ano uma bela arruma\u00e7\u00e3o da casa, que foi interpretada pela popula\u00e7\u00e3o como um novo projeto econ\u00f4mico que, inclusive, resultou vitorioso nas urnas. As possibilidades est\u00e3o abertas e tudo pode acontecer, inclusive a gente dar certo.<\/p>\n<p><strong>Em retrospectiva, quais foram os acertos e os erros do Brasil, nos \u00faltimos 20 anos?<br \/>FRANCO \u2013\u00a0<\/strong>As coisas v\u00eam sempre dentro de um conjunto e acho que acertamos muito mais do que erramos. Erros s\u00e3o o pre\u00e7o que se paga pelos acertos, n\u00e3o daria para ter evitado certas decis\u00f5es dif\u00edceis e pol\u00eamicas, como foi a pol\u00edtica cambial, e tudo ter acontecido igualzinho. A pol\u00edtica cambial substituiu a capacidade de fazer o ajuste fiscal no devido momento, ent\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil falar que deveria ter sido diferente para evitar o problema. Mas a\u00ed tamb\u00e9m o Plano Real n\u00e3o teria dado certo do jeito que deu e a vida teria sido muito diferente. Tem de olhar o conjunto das estrat\u00e9gias e n\u00e3o d\u00e1 para dizer que n\u00e3o foi um sucesso extraordin\u00e1rio. O Brasil venceu a hiperinfla\u00e7\u00e3o, deixou para tr\u00e1s uma cultura de infla\u00e7\u00e3o alta que vinha de v\u00e1rias d\u00e9cadas, fez uma rearruma\u00e7\u00e3o institucional, al\u00e9m de reformas que tiveram a sua import\u00e2ncia no setor real da economia e no setor social. Isso tudo colocou o Pa\u00eds num patamar totalmente diferente de possibilidades de crescimento, com inclus\u00e3o. Isso foi o que fez o Plano Real.<\/p>\n<p><strong>O que foi feito ali permitiu uma continuidade nos anos seguintes?<br \/>FRANCO \u2013\u00a0<\/strong>Houve um vislumbre bacana de ver a oposi\u00e7\u00e3o no poder, n\u00e3o atacando, mas adotando como seu o receitu\u00e1rio que antigamente criticava como ortodoxo e neoliberal. Entre 1998 e 2009, tivemos 11 anos de austeridade e super\u00e1vit prim\u00e1rio de 3,5% do PIB, em m\u00e9dia. Durante esse per\u00edodo, tivemos crescimento, melhoria da distribui\u00e7\u00e3o de renda e acumula\u00e7\u00e3o de reservas, o que normalmente n\u00e3o acontece ao mesmo tempo. Fomos ajudados pelas commodities e pelos fatores externos, sobretudo na segunda metade da d\u00e9cada. Mas tudo fazia crer que o Brasil tinha convergido em torno de algumas ideias b\u00e1sicas de macroeconomia, que tinham acabado as eras da feiti\u00e7aria e do invencionismo. Com a crise de 2008, resolvemos recuar, infelizmente.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o as causas desse recuo?\u00a0<br \/>FRANCO \u2013\u00a0<\/strong>S\u00e3o v\u00e1rias causas. Dilma Rousseff, infelizmente, n\u00e3o estava no mesmo n\u00edvel das lideran\u00e7as pol\u00edticas que o Brasil tradicionalmente teve na presid\u00eancia. Havia uma sensa\u00e7\u00e3o de sucesso e autossufici\u00eancia provocada, talvez, pelos 10 anos de bom desempenho da economia mais a turbinada pela descoberta do pr\u00e9-sal, que parecia colocar o Brasil na posi\u00e7\u00e3o de Venezuela ou de membro da Opep (organiza\u00e7\u00e3o dos exportadores de petr\u00f3leo). Tudo isso combinado produziu uma guinada, na dire\u00e7\u00e3o errada, que foi se acentuando e teve a Petrobras como centro, vamos dizer assim, da nova orienta\u00e7\u00e3o. Era uma matriz Macro e uma nova orienta\u00e7\u00e3o Micro. A nova matriz Macro produziu, anos depois, a pior depress\u00e3o da nossa hist\u00f3ria e a nova matriz Micro terminou em Curitiba.<\/p>\n<p><strong>Com o nevoeiro atual na pol\u00edtica, \u00e9 poss\u00edvel avan\u00e7ar no curto prazo?<br \/>FRANCO \u2013\u00a0<\/strong>Sim. A experi\u00eancia de 1993 \u00e9 educativa porque era igual. A pol\u00edtica estava uma confus\u00e3o, tinha uma CPI sobre o or\u00e7amento no Congresso, que paralisava os trabalhos parlamentares, e o presidente (Itamar Franco) n\u00e3o tinha lideran\u00e7a. Todos os problemas que hoje estamos enfrentando estavam l\u00e1. E deu certo. A f\u00f3rmula foi segregar a economia e conduzir um programa que se tornasse um foco de legitimidade e interesse da sociedade que, ent\u00e3o, passou a acompanhar esses assuntos econ\u00f4micos que se desenrolaram de maneira mais ou menos independente do que se desenrolava na pol\u00edtica. N\u00e3o se espera que a economia seja feita para ajudar a pol\u00edtica, nem que a pol\u00edtica necessariamente tenha de ajudar a economia. A pol\u00edtica econ\u00f4mica tem que desenvolver o seu trajeto. E a\u00ed se torna uma coisa que, dando certo, carrega todo o resto.<\/p>\n<p><strong>\u00a0Mas, hoje parece imposs\u00edvel ver algum ajuste ocorrer em um ano.\u00a0<br \/>FRANCO \u2013\u00a0<\/strong>Deixa eu lembrar aqui uns n\u00fameros fiscais daquela \u00e9poca que as pessoas \u00e0s vezes n\u00e3o se d\u00e3o conta. Enquanto a infla\u00e7\u00e3o era muito alta, as contas fiscais tinham resultado positivo. O governo ganhava junto com a infla\u00e7\u00e3o. Depois que a infla\u00e7\u00e3o acabou, de 1995 em diante, a gente n\u00e3o teve super\u00e1vit positivo at\u00e9 o \u00faltimo trimestre de 1998, depois do acordo com o Fundo Monet\u00e1rio Internacional. Muitos historiadores estrangeiros chegam aqui para conversar sobre o Plano Real e perguntam: como voc\u00eas conseguiram estabilizar sem fazer um pacote fiscal que exibisse resultados contundentes na partida? \u00c9 uma pergunta interessante e a resposta tem que ver com o que as autoridades fizeram e que a popula\u00e7\u00e3o compreendeu como solu\u00e7\u00e3o para grandes problemas fiscais, ainda que n\u00e3o tivesse impacto de caixa imediato.<\/p>\n<p><strong>Quais s\u00e3o eles?\u00a0<br \/>FRANCO \u2013<\/strong>\u00a0Programas como a privatiza\u00e7\u00e3o, a arruma\u00e7\u00e3o dos bancos estaduais e dos federais, todas essas a\u00e7\u00f5es foram, como a gente dizia na \u00e9poca, de baixo da linha, resolvendo problemas patrimoniais, grandes d\u00edvidas e grandes esqueletos do governo. As pessoas entenderam como provid\u00eancias essenciais para o ajuste fiscal. Claro que em algum momento a empresa tinha de voltar para o azul, mas n\u00e3o foi nos primeiros dois ou tr\u00eas anos. Agora, \u00e9 preciso fazer as pessoas acreditaram que se est\u00e1 fazendo as coisas importantes consistentemente, com um plano e uma vis\u00e3o de longo prazo. Ali, a gente conseguiu, felizmente, conquistar os cora\u00e7\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de princ\u00edpios simples. Espero que, agora, a economia possa seguir essa mesma receita, convencer a popula\u00e7\u00e3o a viver um dia de cada vez, a fazer as coisas certinhas, numa sequencia racional, ter um plano de longo prazo, saber onde se quer chegar e n\u00e3o ficar limitado ao fato de ter um mandato de um ano, que daqui a pouco vai acabar. N\u00e3o tem nada disso. Quem est\u00e1 respons\u00e1vel pela economia tem de ser ambicioso e sempre ter uma vis\u00e3o para onde o Brasil vai nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. \u00c9 preciso conquistar a confian\u00e7a das pessoas com o seu plano de v\u00f4o.<br \/><strong><br \/>A Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato n\u00e3o quebra esse elo de confian\u00e7a?<br \/>FRANCO \u2013\u00a0<\/strong>O pessoal da \u00e1rea econ\u00f4mica precisaria aproveitar a experi\u00eancia da Lava Jato para associar-se a ela. A Lava Jato n\u00e3o atrapalha a economia. O combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o tem a mesma natureza do combate ao d\u00e9ficit p\u00fablico. Tudo \u00e9 respeito ao dinheiro p\u00fablico. \u00c9 preciso convencer as pessoas que estamos do mesmo lado, entendeu? A corrup\u00e7\u00e3o e a farra fiscal s\u00e3o duas faces da mesma moeda. Arrumar as contas fiscais e arrumar a corrup\u00e7\u00e3o muitas vezes tem a ver com as mesmas medidas. Essa conex\u00e3o est\u00e1 falhando. As pessoas n\u00e3o est\u00e3o entendendo que \u00e9 parte da mesma coisa e que talvez as medidas fiscais, como a PEC do teto dos gastos, se encaixam com as medidas de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o propostas pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico. Agora, a oposi\u00e7\u00e3o se empenha em fazer parecer que a pauta do ajuste fiscal \u00e9 negativa, de extin\u00e7\u00e3o de direitos, de ideologia. N\u00e3o \u00e9 nada ideol\u00f3gico. O Brasil tem de fechar as contas. Se n\u00e3o fecha as contas e \u00e9 um governo irrespons\u00e1vel, de algum jeito vai ter corrup\u00e7\u00e3o, vai ter roubo, enfim, botar a casa em ordem inclui as contas fecharem e n\u00e3o ter gente metendo a m\u00e3o naquilo que n\u00e3o lhe pertence.<br \/><strong><br \/>A cultura de d\u00e9cadas de infla\u00e7\u00e3o ficou para tr\u00e1s?<br \/>FRANCO \u2013<\/strong>\u00a0Em primeiro lugar, a infla\u00e7\u00e3o de hoje n\u00e3o tem compara\u00e7\u00e3o com a que tivemos antes de 1994. Infla\u00e7\u00e3o de 10% era a de um feriad\u00e3o, naquele tempo. Hoje, uma infla\u00e7\u00e3o de 10% por um ano \u00e9 considerado um n\u00famero absurdo. O que \u00e9 muito bom! Portanto, sim, estamos numa cultura completamente diferente. O Brasil, como qualquer pa\u00eds que viveu uma experi\u00eancia inflacion\u00e1ria complexa e sofrida, jamais vai esquecer a infla\u00e7\u00e3o e a indexa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de seguro contra os males que a infla\u00e7\u00e3o provoca nas pessoas. A indexa\u00e7\u00e3o est\u00e1 na mente das pessoas. Elas n\u00e3o t\u00eam o que os economistas chamam de ilus\u00e3o monet\u00e1ria, que \u00e9 confundir os valores nominais com os reais. Isso n\u00e3o existe. A indexa\u00e7\u00e3o \u00e9 parte do nosso DNA. Na verdade, \u00e9 parte da racionalidade econ\u00f4mica de qualquer pa\u00eds que enfrentou infla\u00e7\u00e3o elevada. Isso, em si, n\u00e3o provoca infla\u00e7\u00e3o tampouco alavanca.<br \/><strong><br \/>Mas indexa\u00e7\u00e3o n\u00e3o causa infla\u00e7\u00e3o?<br \/>FRANCO \u2013\u00a0<\/strong>Ficou da \u00e9poca da infla\u00e7\u00e3o elevada uma m\u00edstica, um mito, que a indexa\u00e7\u00e3o \u00e9 a causa da infla\u00e7\u00e3o. O que est\u00e1 errado, mas vem de uma \u00e9poca em que as pessoas n\u00e3o queriam olhar as verdadeiras causas da infla\u00e7\u00e3o e inventavam essa hist\u00f3ria de que a infla\u00e7\u00e3o \u00e9 causada pela corre\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria. Gra\u00e7as a essa bobagem n\u00f3s fizemos a\u00ed cinco congelamentos de pre\u00e7os e outras tantas heterodoxias doidas que n\u00e3o deram certo em nenhum momento e que serviram para comprovar que n\u00e3o \u00e9 assim. Infla\u00e7\u00e3o \u00e9 causada por outro tipo de coisa. As pessoas sempre v\u00e3o se comportar de maneira defensiva e racional com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 infla\u00e7\u00e3o, sobretudo aquelas que t\u00eam que ter rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas de longo prazo, como os concession\u00e1rios de servi\u00e7os p\u00fablicos. A indexa\u00e7\u00e3o \u00e9 simplesmente o fato de que elas l\u00eaem jornal e sabem os efeitos que a infla\u00e7\u00e3o t\u00eam sobre o poder de compra do dinheiro que recebem. E funciona muito bem para os dois lados. N\u00e3o vejo, no nosso caso, nada que seja danoso no comportamento das pessoas com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 infla\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, elas est\u00e3o conscientes, sabem se defender da infla\u00e7\u00e3o. Aonde o aprendizado n\u00e3o foi completo foi dos pol\u00edticos. No mundo fiscal, permanecem concep\u00e7\u00f5es absolutamente equivocadas entre contas fiscais e infla\u00e7\u00e3o. N\u00f3s, infelizmente, refizemos todos os erros antigos, no terreno fiscal. Uma evid\u00eancia de como as coisas mudaram, ao fazer tudo errado no terreno fiscal, \u00e9 que ao inv\u00e9s de a infla\u00e7\u00e3o voltar, o que observamos foi a maior recess\u00e3o da hist\u00f3ria do Brasil. Em si, esta recess\u00e3o, deste tamanho, desafia as explica\u00e7\u00f5es. A minha explica\u00e7\u00e3o \u00e9 que as defesas institucionais que hoje existem para a infla\u00e7\u00e3o disparar funcionaram. Agora, o custo da imprevid\u00eancia e da irresponsabilidade fiscal se transformou em recess\u00e3o e n\u00e3o em infla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Por isso a dificuldade maior em realizar o ajuste fiscal?<br \/>FRANCO \u2013<\/strong>\u00a0Fica mais dif\u00edcil, porque a cada dia que passa a d\u00edvida p\u00fablica aumenta com a taxa de juros, que est\u00e1 elevada. O endividamento p\u00fablico hoje \u00e9 muito maior do que foi em 2009, quando chegamos a ter uma d\u00edvida l\u00edquida de 30% do PIB. Agora, est\u00e1 cima de 50%. Toda essa d\u00edvida acumulada custa juros e vai demorar para conseguirmos um super\u00e1vit prim\u00e1rio. N\u00e3o tem milagre. Assim como uma empresa endividada tem de ter gera\u00e7\u00e3o de caixa, o setor p\u00fablico brasileiro precisa ter gera\u00e7\u00e3o de caixa positiva. Hoje, \u00e9 negativa e s\u00f3 aumenta. Est\u00e1 ruim e, do jeito que est\u00e1, \u00e9 insustent\u00e1vel. \u00c9 preciso recobrar a sanidade das contas p\u00fablicas.<\/p>\n<p><strong>Qual \u00e9 o desafio do Brasil?<br \/>FRANCO \u2013<\/strong>\u00a0Agora, \u00e9 voltar a 2009, em mat\u00e9ria de contas p\u00fablicas, d\u00edvida e tudo mais. N\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o distante assim, n\u00e3o \u00e9 para resolver 400 anos de atraso; \u00e9 s\u00f3 para voltar a 2009. O que quer que a gente tenha feito de l\u00e1 para c\u00e1, d\u00e1 para desfazer. N\u00e3o teve uma reforma constitucional em 2009. N\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel, mas o tipo de deteriora\u00e7\u00e3o decis\u00f3ria e organizacional de dentro do governo \u00e9 muito grande. Reconstruir isso leva um certo tempo. Colocar pessoas certas no lugar certo, desaparelhar, desideologizar, come\u00e7ar uma condu\u00e7\u00e3o racional e n\u00e3o de forma partid\u00e1ria ou pol\u00edtica, sobretudo nas \u00e1reas de impacto econ\u00f4mico, isso tudo leva um certo tempo para fazer. Mas n\u00e3o tem nada imposs\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>O presidente Temer deveria gastar a impopularidade para conseguir aprovar as reformas que o Pa\u00eds precisa?\u00a0<br \/>FRANCO \u2013\u00a0<\/strong>Existem v\u00e1rios n\u00edveis de reforma e de provid\u00eancia. No n\u00edvel constitucional, a discuss\u00e3o previdenci\u00e1ria ser\u00e1 bacana e profunda. Ela precisa existir e come\u00e7a bem. Isso ocupa boa parte das agendas parlamentares e pol\u00edticas, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. A pol\u00edtica econ\u00f4mica vai bem al\u00e9m da emenda do teto dos gastos e da reforma da Previd\u00eancia. \u00c9 preciso ter uma vis\u00e3o macro para onde a gente quer ir e tratar muitas outras coisas, que s\u00e3o medidas provis\u00f3rias e n\u00e3o requerem nem passagem pelo Congresso. Toda a agenda de melhoria do ambiente de neg\u00f3cios, a maior parte dela, n\u00e3o tem nada de constitucional, ent\u00e3o \u00e9 relativamente f\u00e1cil de fazer. A dificuldade geral reside em ser interdisciplinar, pois precisa juntar diferentes n\u00edveis de governo ou diferentes esferas de governo, que n\u00e3o se falam direito. S\u00e3o coisas como o tempo para abrir uma empresa ou o tempo que as pessoas levam para cumprir suas obriga\u00e7\u00f5es tribut\u00e1rias. Muito pode ser feito sem reforma da Constitui\u00e7\u00e3o, desde que haja um programa amplo de provid\u00eancia, que tenha os grupos e o envolvimento da sociedade civil e do setor privado em discutir a moderniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Mas as for\u00e7as contr\u00e1rias parecem ser mais fortes que o avan\u00e7o, n\u00e3o?<br \/>FRANCO \u2013<\/strong>\u00a0Todo mundo \u00e9 a favor da moderniza\u00e7\u00e3o. Mobilizar as pessoas nesse tipo de empreendimento \u00e9 um dever da lideran\u00e7a econ\u00f4mica. Isso, idealmente, precisa ser feito fora da esfera pol\u00edtica, inclusive para n\u00e3o contaminar. Isso precisa acontecer o mais r\u00e1pido poss\u00edvel para que as pessoas comecem a enxergar que o assunto da pol\u00edtica econ\u00f4mica n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 contas fiscais, \u00e9 o crescimento. Vamos come\u00e7ar a pensar nisso, remover obst\u00e1culos e modernizar a economia. Tem um desafio de produtividade imenso que o Brasil precisa enfrentar. Tudo isso precisa ser colocado. Quanto mais as pessoas sentirem firmeza no longo prazo, mais o curto prazo parece transit\u00f3rio, ainda que desconfort\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Que Pa\u00eds o sr. gostaria de encontrar em 20 anos?<br \/>FRANCO \u2013<\/strong>\u00a0Falando de contas fiscais, eu gostaria de ver, daqui a 20 anos, um Brasil igual ao Chile, quando se trata de endividamento p\u00fablico. A d\u00edvida l\u00edquida do setor p\u00fablico no Chile, hoje, \u00e9 igual a zero. A nossa \u00e9 alguma coisa superior a 50% do PIB. Se conseguirmos chegar, em 20 anos, aonde o Chile est\u00e1, vamos economizar no pagamento de juros. Imagina o que pode ser a taxa de juros daqui a 20 anos e como ser\u00e1 f\u00e1cil empreender, se alavancar. Como ser\u00e1 f\u00e1cil a vida econ\u00f4mica da empresa ou da pessoa f\u00edsica num pa\u00eds onde o custo do dinheiro \u00e9 muito pequenininho, portanto o futuro est\u00e1 ao alcance da sua m\u00e3o se ao menos voc\u00ea tiver o esp\u00edrito empreendedor para dele se apropriar. Esse \u00e9 o Brasil que eu gostaria de ver em 20 anos, olhando exclusivamente nesse \u00e2ngulo dos termos de troca entre presente e futuro. Esse \u00e9 o nosso grande desafio daqui para l\u00e1 e temos tudo para vencer.<\/p>\n<p>Fonte: Revista Isto \u00c9 Dinheiro<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O economista Gustavo Franco era o presidente do Banco Central em setembro de 1997. Um dos formuladores do Plano Real, Franco permaneceu no setor p\u00fablico,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1182,"featured_media":18718,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-22194","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22194","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1182"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22194"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22194\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22195,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22194\/revisions\/22195"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/18718"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22194"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22194"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22194"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}