{"id":21207,"date":"2016-10-10T02:00:40","date_gmt":"2016-10-10T05:00:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sincomam.org.br\/?p=21207"},"modified":"2016-10-09T22:16:43","modified_gmt":"2016-10-10T01:16:43","slug":"navios-e-marinheiros-abandonados-viram-cenario-comum-nos-portos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/navios-e-marinheiros-abandonados-viram-cenario-comum-nos-portos\/","title":{"rendered":"Navios e marinheiros abandonados viram cen\u00e1rio comum nos portos"},"content":{"rendered":"<p>Numa tarde ensolarada de junho, o advogado Elayyan Aladdin conseguiu chegar ao navio Chem Violet, ancorado na cidade de Maca\u00e9 (RJ), ap\u00f3s um p\u00e9riplo de quatro horas entre bloqueios, trajetos de barco e subidas em escadas de at\u00e9 20 metros.<\/p>\n<p>&#8220;Voc\u00eas teriam \u00e1gua?&#8221;, foi a pergunta do advogado que causou constrangimento a seus clientes, marinheiros turcos que o chamaram ao navio de transporte de \u00f3leo para a Petrobras.<\/p>\n<p>Uma garrafa chegou a Aladdin com a informa\u00e7\u00e3o que o consternou:&#8221;\u00c9 a \u00faltima, doutor&#8221;.<\/p>\n<p>Os 12 tripulantes estavam h\u00e1 tr\u00eas semanas sem receber suprimento, convivendo com lixo e insetos, doentes e com o risco de pane no navio com 1 milh\u00e3o de litros de \u00f3leo.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio passou a ser comum no mercado de navega\u00e7\u00e3o mundial: o abandono de marinheiros que prestam servi\u00e7os a grandes empresas de transporte.<\/p>\n<p>At\u00e9 a crise de 2008, o setor vivia um boom, impulsionado pelas promessas de crescimento do com\u00e9rcio global. Mas acordos de livre-com\u00e9rcio e pre\u00e7o das commodities em alta n\u00e3o se consolidaram. O resultado \u00e9 que a supercapacidade dos navios jogou os pre\u00e7os de frete no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Quando um navio atraca num pa\u00eds, \u00e9 recebido por empresas prestadoras de servi\u00e7os de fornecimento de combust\u00edvel, comida, entre outras necessidades. Se o dono do navio n\u00e3o pagar esses benef\u00edcios, as empresas param de fornecer. H\u00e1 casos de navios arrestados por d\u00edvidas, e as contas s\u00e3o bloqueadas.<\/p>\n<p>No caso dos turcos do Chem Violet, em maio eles tiveram que alugar por R$ 100 um barco para lev\u00e1-los \u00e0 cidade e, com R$ 400 que conseguiram juntar na tripula\u00e7\u00e3o, precisaram comprar o que fosse poss\u00edvel para suprir 12 tripulantes. Quando o advogado chegou, havia apenas as garrafas de \u00e1gua.<\/p>\n<p>&#8220;Era um vulc\u00e3o prestes a explodir&#8221;, conta um dos marinheiros que conversou por e-mail.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s medida judicial, Alladin conseguiu que o fornecimento de alimentos fosse retomado pela Petrobras, que gastou R$ 42 mil em uma compra. A estatal fretou o navio da Ecoships, que seria a respons\u00e1vel pelo pagamento.<\/p>\n<p>Segundo o advogado, a estatal queria trocar o suprimento de comida pela entrega do \u00f3leo, retido pelos tripulantes para garantir a sobreviv\u00eancia deles.<\/p>\n<p>Diante das condi\u00e7\u00f5es relatadas, Cl\u00e1udio de Castro Freitas, juiz da Vara do Trabalho de Maca\u00e9, foi inspecionar o navio. L\u00e1, os marinheiros relataram que, al\u00e9m de fome, passavam a humilha\u00e7\u00e3o de n\u00e3o receber sal\u00e1rios por at\u00e9 oito meses, deixando suas fam\u00edlias sem assist\u00eancia, algumas despejadas de suas casas.<\/p>\n<p>&#8220;O capit\u00e3o tem vergonha de falar com sua esposa&#8221;, relatou um dos marinheiros, levando o juiz a decidir pela repatria\u00e7\u00e3o dos turcos -com despesas e dois sal\u00e1rios pagos pela Petrobras.<\/p>\n<p><b>PESCA<\/b><\/p>\n<p>Em Fortaleza (CE), o navio Varada B\u00fazios estava ancorado com filipinos e ucranianos sem sal\u00e1rios em dia e alimenta\u00e7\u00e3o. Sob a condi\u00e7\u00e3o de anonimato, um marinheiro contou que precisaram pescar para obter comida.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, s\u00f3 tinham combust\u00edvel para usar o aquecimento durante 14 horas do dia. No restante, desligavam tudo para ter a certeza de que teriam condi\u00e7\u00f5es de fazer a comida depois.<\/p>\n<p>A manuten\u00e7\u00e3o do navio n\u00e3o era feita corretamente, segundo ele, por falta de pe\u00e7a. Sem manuten\u00e7\u00e3o adequada, navios com produtos perigosos, podem, por exemplo, deixar vazar combust\u00edvel.<\/p>\n<p>&#8220;Se quebrar o ar-condicionado, tem de canibalizar um outro que est\u00e1 parado, porque n\u00e3o tem pe\u00e7a&#8221;, diz um marinheiro brasileiro que est\u00e1 no Varada Santos, que presta servi\u00e7os na bacia de Campos (RJ).<\/p>\n<p>Segundo ele, os navios Varada, da empresa Neyah Ship, trabalham para a Petrobras, mas n\u00e3o cumprem as regras da estatal. Estabelecem condi\u00e7\u00f5es desumanas de trabalho. Ele diz que a comida s\u00f3 \u00e9 suficiente para metade do tempo. Meses atr\u00e1s, a \u00e1gua acabou e a tripula\u00e7\u00e3o bebeu o que coletaram das chuvas.<\/p>\n<p><b>OUTRO LADO<\/b><\/p>\n<p>A Petrobras informou que &#8220;exige elevado padr\u00e3o de qualidade t\u00e9cnica das embarca\u00e7\u00f5es e dos sistemas de gest\u00e3o das empresas que os operam&#8221;.<\/p>\n<p>A empresa reconheceu que o armador &#8220;deixou de cumprir suas obriga\u00e7\u00f5es&#8221; no caso do Chem Violet e que, por isso, a estatal &#8220;assumiu diretamente as provid\u00eancias de fornecer provis\u00f5es ao navio e providenciou o retorno da tripula\u00e7\u00e3o para seu pa\u00eds de origem&#8221;.<\/p>\n<p>A estatal havia fretado o navio da Ecoships, que seria usado para o transporte de combust\u00edvel.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao Varada Santos, a empresa afirma que cobrou da prestadora de servi\u00e7os &#8220;evid\u00eancias do abastecimento das embarca\u00e7\u00f5es, tendo recebido o hist\u00f3rico dos pedidos e entregas com quantidades compat\u00edveis com a tripula\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Nesse caso, o navio prestou servi\u00e7os para a companhia estatal brasileira na regi\u00e3o da bacia de Campos, no litoral fluminense.<\/p>\n<p>A Antaq (Ag\u00eancia Nacional de Transporte Aquavi\u00e1rio) n\u00e3o respondeu as perguntas da reportagem sobre se havia fiscalizado as condi\u00e7\u00f5es dos navios.<\/p>\n<p>Sobre a falta de normas para fiscalizar estrangeiros, a ag\u00eancia informou que em reuni\u00e3o vai deliberar sobre um texto que vai ser colocado em audi\u00eancia p\u00fablica e que encomendou estudos sobre regula\u00e7\u00e3o de mercados e competi\u00e7\u00e3o com a Universidade de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p><b>ASSIST\u00caNCIA<\/b><\/p>\n<p>A Ecoships informou que n\u00e3o gostaria de estar numa situa\u00e7\u00e3o como a que ocorreu no Chem Violet, que ficou parado em Maca\u00e9, e diz que prestou assist\u00eancia \u00e0 tripula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>De acordo com a companhia, o problema ocorreu devido ao banco que arrestou os recursos pagos pela Petrobras pelo contrato. Ela afirmou ter sido a maior prejudicada pelos problemas.<\/p>\n<p>A Varada do Brasil, respons\u00e1vel pelos navios da Neyah, informou que cumpre normas brasileiras e condi\u00e7\u00f5es de contrato com a Petrobras. Segundo a empresa, as embarca\u00e7\u00f5es s\u00e3o vistoriadas e qualquer n\u00e3o conformidade \u00e9 corrigida imediatamente.<\/p>\n<p>A empresa tamb\u00e9m nega atrasos de sal\u00e1rios ou falta de condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade e alimenta\u00e7\u00e3o a bordo.<\/p>\n<p>&#8220;Nosso sucesso depende das habilidades e dedica\u00e7\u00e3o de nossos colaboradores. Valorizamos a lealdade, a honestidade e a integridade e tratamos uns aos outros com respeito&#8221;, informa em nota.<\/p>\n<p>Fonte: Folha de SP<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Numa tarde ensolarada de junho, o advogado Elayyan Aladdin conseguiu chegar ao navio Chem Violet, ancorado na cidade de Maca\u00e9 (RJ), ap\u00f3s um p\u00e9riplo de&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1182,"featured_media":21208,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-21207","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21207","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1182"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21207"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21207\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21209,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21207\/revisions\/21209"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21208"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21207"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21207"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21207"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}