{"id":20415,"date":"2016-08-08T07:39:16","date_gmt":"2016-08-08T10:39:16","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sincomam.org.br\/?p=20415"},"modified":"2016-08-08T07:39:16","modified_gmt":"2016-08-08T10:39:16","slug":"trabalhadores-trazidos-do-japao-perdem-emprego-em-suape","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/trabalhadores-trazidos-do-japao-perdem-emprego-em-suape\/","title":{"rendered":"Trabalhadores trazidos do Jap\u00e3o perdem emprego em Suape"},"content":{"rendered":"<p>Um fuso hor\u00e1rio de doze horas e o Oceano Pac\u00edfico separam Marcos Paulo Miotto da fam\u00edlia descendente de japoneses. Faz tr\u00eas anos que ele precisou voltar ao Jap\u00e3o para sustentar a fam\u00edlia, que permaneceu no Brasil. H\u00e1 cerca de sete anos, Miotto fez o movimento inverso &#8211; deixou o territ\u00f3rio nip\u00f4nico e assumiu um cargo no Estaleiro Atl\u00e2ntico Sul (EAS).<\/p>\n<p>Mas o sonho de ganhar a vida no seu pa\u00eds de origem naufragou, junto \u00e0 crise que sufocou a ind\u00fastria naval em Pernambuco. Hoje, Miotto \u00e9 um entre os aproximadamente 200 dekasseguis &#8211; palavra que define os brasileiros, descendentes de japoneses, que migraram para longe em busca de trabalho &#8211; trazidos pelo EAS, que perderam seus empregos poucos anos depois com a crise do empreendimento.<\/p>\n<p>Esses dekasseguis viram nas vagas a oportunidade de voltar para junto de suas fam\u00edlias no Brasil. Para o EAS, eles representavam uma valiosa m\u00e3o de obra, capaz de refor\u00e7ar a produ\u00e7\u00e3o do empreendimento milion\u00e1rio.<\/p>\n<p>O contexto econ\u00f4mico no Jap\u00e3o tamb\u00e9m favoreceu o retorno dos trabalhadores. Em 2008, em plena crise mundial, o governo Japon\u00eas concedeu incentivos aos brasileiros que quisessem ser repatriados. \u201cCerca de 20 mil chefes de fam\u00edlia brasileiros receberam 30 mil Ienes (pr\u00f3ximo a US$ 3 mil) e, os demais membros da fam\u00edlia, 200 mil Ienes (US$ 2 mil), com a condicionante de que eles n\u00e3o retornassem ao Jap\u00e3o durante, pelo menos, quatro anos e meio\u201d, contextualiza Masato Ninomiya, presidente do Centro de Informa\u00e7\u00e3o e Apoio ao Trabalhador no Exterior da Embaixada Japonesa no Brasil. Esse fluxo de retorno, contudo, vem se invertendo nos \u00faltimos meses pelo agravamento da recess\u00e3o econ\u00f4mica no Brasil.<\/p>\n<p>O dekassegui Miotto n\u00e3o chegou a aceitar o benef\u00edcio porque temia ser proibido de retornar \u00e0 \u00c1sia, mas a possibilidade de crescimento profissional no seu pa\u00eds, benef\u00edcios e um aux\u00edlio moradia de R$ 800 &#8211; o que seria \u2018dinheiro suficiente\u2019 para morar bem em Pernambuco, segundo os recrutadores &#8211; o convenceram. \u201cQuando cheguei em Suape, em 2010, encontrei outra realidade. Liderava uma equipe sem receber por isso e o aux\u00edlio moradia n\u00e3o dava para quase nada\u201d, relembra o profissional, que foi demitido em 2012 por cortes de quadro. Atualmente, ele aguarda a conclus\u00e3o de um processo na Justi\u00e7a, no qual pede indeniza\u00e7\u00e3o por desvio de fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Manuela Bar\u00e3o, natural de S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m largou uma vida confort\u00e1vel na cidade de Chiba para refazer a vida em Suape, em 2010. A maior motiva\u00e7\u00e3o na \u00e9poca era a promessa de um projeto de longo prazo do setor naval no Brasil. \u201cFalavam que era uma obra grande, algo duradouro. Quando chegamos, percebemos que, naquela \u00e9poca, j\u00e1 havia crise e pedidos atrasados\u201d, detalha.<\/p>\n<p>No Brasil, ela ganhava R$ 3,5 mil\/m\u00eas. No exterior, o ganho era por hora. Em 2012, foi demitida por consequ\u00eancia dos desarranjos do empreendimento, que j\u00e1 encerrou mais de tr\u00eas mil vagas. \u201cDos 200, sobraram pouco mais de 10 dekasseguis no estaleiro. Eu, que j\u00e1 tinha um cargo alto aqui, precisei recome\u00e7ar do zero\u201d, narra.<\/p>\n<p>Na volta ao Jap\u00e3o, sete meses atr\u00e1s, ela ainda tinha o intuito de um dia voltar ao Brasil. \u201cEssa \u00e9 uma possibilidade cada vez mais distante\u201d, pondera.<\/p>\n<p>Neto de japoneses, Fl\u00e1vio Date nasceu no Paran\u00e1 e aprendeu, durante 20 anos, as avan\u00e7adas t\u00e9cnicas de solda da terra do sol nascente, onde o alto investimento do governo em estruturas met\u00e1licas previne os danos com constantes terremotos. Em 2008, ele resolveu embarcar em uma nova tentativa de fincar ra\u00edzes na Na\u00e7\u00e3o. \u201cEu s\u00f3 conhecia Pernambuco pela m\u00eddia, por\u00e9m estava animado com a nova vida\u201d. Nos dois anos de trabalho no EAS, Date morou com a esposa e dois filhos no bairro de Candeias. O sal\u00e1rio de \u2018R$ 3 mil e poucos\u2019 era uma entre outras frustra\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cHavia muita disputa entre os cargos, n\u00e3o t\u00ednhamos planejamento de produtividade, m\u00e1quinas e ferramentas adequadas. Embora os dekasseguis tivessem a experi\u00eancia adquirida em estaleiros de alta tecnologia, est\u00e1vamos de m\u00e3os atadas\u201d, revela com pesar, lembrando que participou do lan\u00e7amento do primeiro navio petroleiro de Pernambuco, o Jo\u00e3o C\u00e2ndido. \u201cA embarca\u00e7\u00e3o demorou aproximadamente tr\u00eas anos para ficar pronta. No Jap\u00e3o, constru\u00edamos de oito a dez navios por ano\u201d, diz.<\/p>\n<p>Em 2013, Date deixou o Brasil com a sua fam\u00edlia, depois de precisar abandonar o sonho do estaleiro. Preferiu se virar como aut\u00f4nomo na \u00e1rea de solda em Fukunoi. Mas a terra do sol nascente n\u00e3o era mais a mesma. \u201cAntigamente, tinha emprego at\u00e9 para quem n\u00e3o falava a l\u00edngua local\u201d, reclama.<\/p>\n<p>O Estaleiro Atl\u00e2ntico Sul preferiu n\u00e3o se manifestar sobre o assunto.<\/p>\n<p>Entre os poucos dekasseguis que permaneceram em Pernambuco depois de serem demitidos em Suape est\u00e3o M\u00e1rio Azevedo e M\u00e1rcio Rodrigues.<\/p>\n<p>A duras penas, M\u00e1rio Azevedo, criado no Recife e casado com uma filha de japoneses, tenta se reerguer do baque.\u201cVoltei para c\u00e1 ap\u00f3s nove anos no Jap\u00e3o, onde trabalhei em empresas navais como a Kanasashi. Sa\u00ed do EAS cinco anos atr\u00e1s, junto com muita gente, depois de 18 meses de trabalho. Na \u00e9poca, n\u00e3o deram nem justificativa\u201d, recorda.<\/p>\n<p>Encontrar outro emprego formal, que pagasse pr\u00f3ximo ao ordenado de R$ 4,2 mil do EAS, n\u00e3o era f\u00e1cil, por isso ele decidiu usar a experi\u00eancia em obras de engenharia e na ind\u00fastria naval para abrir o pr\u00f3prio neg\u00f3cio. A empresa prosperou durante certo tempo at\u00e9 ser atingida pela retra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. \u201cSe as coisas n\u00e3o melhorarem daqui at\u00e9 o fim do m\u00eas, arrumo minhas malas e volto pro Jap\u00e3o\u201d, sentencia.<\/p>\n<p>Aos 22 anos, M\u00e1rcio Rodrigues, da fam\u00edlia Yoshida, foi se aventurar no pa\u00eds dos seus antepassados. Depois de 20 anos longe da fam\u00edlia, para ele, que \u00e9 do interior de S\u00e3o Paulo, Suape significava uma chance de retorno para casa. \u201cVoltei em 2009, como encarregado de solda e, posteriormente, supervisor. Foi assim at\u00e9 2013, quando decidi deixar a empresa por causa do estresse alto e do sal\u00e1rio baixo. Aqui, ganhava R$ 3,6 mil\/m\u00eas, enquanto no estaleiro IHI (do grupo que j\u00e1 foi s\u00f3cio do EAS) a faixa era de US$ 7 a US$ 8 mil\u201d, compara.<\/p>\n<p>Por sorte, em pouco tempo ele conseguiu organizar uma empresa de passeios tur\u00edsticos, a Catamar\u00e3 \u00c1gua Viva. Atualmente, Rodrigues mora no Cabo de Santo Agostinho com a esposa e os quatro filhos. \u201cN\u00e3o penso em sair daqui porque os neg\u00f3cios v\u00e3o bem, mas por minha esposa j\u00e1 t\u00ednhamos voltado pra S\u00e3o Paulo, por causa da viol\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFaltavam blocos dentro do navio Jo\u00e3o C\u00e2ndido no dia do seu lan\u00e7amento\u201d, revela o dekassegui Fl\u00e1vio Date. \u201cA qualidade da produ\u00e7\u00e3o dos navios era p\u00e9ssima, feitos de retalhos de pe\u00e7as de a\u00e7o\u201d, relata Marcos Miotto. Quando o Estaleiro Atl\u00e2ntico Sul come\u00e7ou a operar, em agosto de 2008, a retomada da ind\u00fastria naval, depois da crise do setor nos anos 90, era uma grande esperan\u00e7a de empregos no Pa\u00eds.<\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e3o de obra para o empreendimento foi tamanha que retirou profissionais de atividades como a agricultura, os quais passaram a ganhar sal\u00e1rios altos nas atividades navais, cuja especificidade \u00e9 \u00fanica. Suape era um mundo e o estaleiro um grande pa\u00eds de dimens\u00f5es fara\u00f4nicas, por onde transitavam trabalhadores de v\u00e1rias nacionalidades.<\/p>\n<p>Apoiado nas encomendas do Programa de Moderniza\u00e7\u00e3o e Expans\u00e3o da Frota (Promef) da Transpetro &#8211; subsidi\u00e1ria da Petrobras, o empreendimento prosperou por alguns anos. Ele detinha 22 dos 49 navios petroleiros encomendados pelo programa, o suficiente para garantir a opera\u00e7\u00e3o por longos anos, at\u00e9 atingir sua maturidade operacional e conquistar novas encomendas.<\/p>\n<p>Dez anos ap\u00f3s a sua cria\u00e7\u00e3o, em 2005, entretanto, o estaleiro ainda tinha sua carteira de encomendas centralizada na Petrobras e foi duramente atingido pela crise da petrol\u00edfera. Em 2015, sete sondas de perfura\u00e7\u00e3o encomendas pela Sete Brasil foram canceladas e sete das suas 22 encomendas da Transpetro cortadas, agravando a crise.<\/p>\n<p>\u201cO polo naval foi criado com dois importantes estaleiros em Pernambuco. Tinha a inten\u00e7\u00e3o de trazer outros, mas mudamos de planos, pois entendemos que n\u00e3o vai haver uma expans\u00e3o da ind\u00fastria naval aqui\u201d, pondera o secret\u00e1rio de Desenvolvimento Econ\u00f4mico de Pernambuco e presidente de Suape, Thiago Nor\u00f5es. O gestor ressaltou a evolu\u00e7\u00e3o da planta naval. \u201cEles come\u00e7aram com uma m\u00e9dia de produtividade de 200 homem-hora (uma hora de trabalho realizada por um homem) por tonelada, quando, no Jap\u00e3o, a m\u00e9dia \u00e9 de 30 homem\/hora. Hoje, essa m\u00e9dia \u00e9 bem menor\u201d, defende, acrescentando que o Estado interviu para renegociar as perdas de encomendas do empreendimento, amenizadas pela Petrobras, e continua atuando para apoiar a conquista de novas encomendas, dada a relev\u00e2ncia do empreendimento para a gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda local. \u201cA ind\u00fastria naval em Pernambuco n\u00e3o morreu. Ela passou por maus bocados, em virtude dos problemas da Petrobr\u00e1s e pol\u00edticos do Governo Federal\u201d, diz.<\/p>\n<p>O coordenador do curso de Engenharia Naval da UFPE, Silvio Melo, concorda que a depend\u00eancia da Petrobras, junto a alguns erros de administra\u00e7\u00e3o, foram prejudiciais. \u201cAs grandes empresas do Pa\u00eds que se apoiavam na estatal foram duramente impactadas pelos problemas da companhia\u201d, pontua. Para ele, o EAS ainda est\u00e1 em sua curva de aprendizado, ou seja, em um momento de aumento de produtividade. \u201cN\u00e3o podemos ser comparados ao Jap\u00e3o, com seus 100 anos de tradi\u00e7\u00e3o na ind\u00fastria naval initerruptos. Temos ao nosso favor os navios de boa qualidade e estamos ganhando em produtividade\u201d, defende.<\/p>\n<p>O professor do programa de Engenharia Oce\u00e2nica da da UFRJ, Floriano Pires, avalia que o Promef foi relevante para garantir a viabilidade do empreendimento, mas precisava ter sido considerado como uma partida. \u201cEra imprescind\u00edvel ter atingido um n\u00edvel de competitividade internacional para sustentar a empresa, contudo, depois de todos esses anos ainda n\u00e3o avan\u00e7amos o suficiente\u201d.<\/p>\n<p>Fonte: Folha de Pernambuco<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Um fuso hor\u00e1rio de doze horas e o Oceano Pac\u00edfico separam Marcos Paulo Miotto da fam\u00edlia descendente de japoneses. 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