{"id":19909,"date":"2016-06-21T09:08:34","date_gmt":"2016-06-21T12:08:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sincomam.org.br\/?p=19909"},"modified":"2016-06-21T09:08:34","modified_gmt":"2016-06-21T12:08:34","slug":"raiva-do-brasileiro-fica-evidente-na-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/raiva-do-brasileiro-fica-evidente-na-crise\/","title":{"rendered":"Raiva do brasileiro fica evidente na crise"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Eu era considerada uma traidora da minha p\u00e1tria, uma anti-revolucion\u00e1ria&#8221;, diz Maria Faguaga, uma cubana refugiada\u00a0no Brasil desde 2014. Faguaga sempre gostou de pensar fora da caixinha, de expressar seus pensamentos e de dividir novas ideias. Todos essas qualidades n\u00e3o eram apreciadas por uma revolu\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou pregando liberdade.\u00a0<\/p>\n<p>&#8220;\u00c9 exatamente ao contr\u00e1rio. Em Cuba, liberdade \u00e9 palavra proibida&#8221;, comenta Faguaga. &#8220;Mas o problema \u00e9 que eu n\u00e3o calo a minha boca.&#8221;<\/p>\n<p>Faguaga \u00e9 jornalista, antrop\u00f3loga e historiadora. Sempre trabalhou com temas relacionados aos direitos humanos, imigra\u00e7\u00f5es, racismo e cultura afro-cubana. &#8220;Todas as pesquisas que eu realizava tinham um conte\u00fado pol\u00edtico, que tentava expressar um pouco da realidade cubana e que era desconhecida pelo mundo&#8221;, explica Faguaga. &#8220;Todas elas foram censuradas pelo governo do meu pa\u00eds sem nenhuma justificativa.&#8221;<\/p>\n<p>A jornalista era refer\u00eancia para ve\u00edculos estrangeiros que buscavam informa\u00e7\u00f5es sobre Cuba nos \u00faltimos anos. Apurava mat\u00e9rias, fazia an\u00e1lises pol\u00edticas e participa\u00e7\u00f5es especiais em canais de televis\u00e3o internacionais. Durante dois anos, trabalhou de forma ilegal para uma r\u00e1dio americana conhecida como R\u00e1dio \u00danica, que tinha sede em Miami, na Fl\u00f3rida. &#8220;A cada participa\u00e7\u00e3o, a cada mat\u00e9ria que divulgava, minha situa\u00e7\u00e3o [em Cuba] ficava cada vez mais desconfort\u00e1vel.&#8221;<\/p>\n<p>A gota d&#8217;\u00e1gua na rela\u00e7\u00e3o entre Faguaga e a ditadura cubana foi a tentativa de remontar o movimento negro que existia em Cuba no come\u00e7o da d\u00e9cada de 50, antes de o Movimento 26 de Julho \u2014 liderado por Fidel Castro \u2014 destituir o ditador Fulgencio Batista. &#8220;A partir desse dia, misteriosamente algu\u00e9m conseguiu entrar na minha casa e levar meu computador&#8221;, conta.<\/p>\n<p>Faguaga come\u00e7ou a ser monitorada dentro de Havana pela pol\u00edcia pol\u00edtica de Cuba. Foi impedida de trabalhar, n\u00e3o podia dar mais aulas ou palestras e todos os telefones foram grampeados. &#8220;A pol\u00edcia me dizia que n\u00e3o iria me matar, mas me deixariam em uma cadeira de rodas. Nunca tinha pensado que a revolu\u00e7\u00e3o poderia ser t\u00e3o sinistra&#8221;, lamenta.<\/p>\n<p>Faguaga conseguiu sua \u00faltima libera\u00e7\u00e3o para sair do pa\u00eds por motivos acad\u00eamicos. O destino era o Brasil, e ela n\u00e3o desperdi\u00e7ou aquela oportunidade. &#8220;Eu cheguei ao Brasil destru\u00edda psicol\u00f3gica e emocionalmente&#8221;, diz a jornalista. Ela estava disposta a ficar os seis meses em S\u00e3o Paulo e tentar recome\u00e7ar sua carreira de pesquisadora em solo brasileiro.<\/p>\n<p>O governo brasileiro decidiu n\u00e3o estender o visto de turista, e a jornalista optou pelo pedido de ref\u00fagio pol\u00edtico. &#8220;Senti que minha conex\u00e3o com Cuba acabava nesse momento. Enquanto os Castros estiverem no poder, n\u00e3o posso mais pisar o meu pa\u00eds&#8221;, afirma.<\/p>\n<p>No Brasil, Faguaga continua inquieta e sem travas na l\u00edngua. Escreve como uma forma de catarse, mas ainda n\u00e3o teve oportunidade de publicar seus artigos. Recentemente participou do projeto Vidas Refugiadas, que conta a hist\u00f3ria de mulheres migrantes aqui no Brasil. Para sobreviver, ela \u00e9 professora de espanhol em uma escola de professores refugiados em S\u00e3o Paulo. &#8220;Tento passar aos meus alunos o qu\u00e3o importante \u00e9 ser livre, o qu\u00e3o importante \u00e9 se expressar. Aprender l\u00ednguas \u00e9 uma forma de voc\u00ea ampliar esse leque de pensamentos&#8221;, diz.<\/p>\n<p>Fora da sala de aula e do c\u00edrculo de amizades, Faguaga conhece o Brasil sem m\u00e1scaras e sem prote\u00e7\u00e3o e enfrenta o preconceito na pele: &#8220;Quando escutam meu sotaque em portugu\u00eas, a raiva do brasileiro em tempos de crise fica evidenciada&#8221;, afirma. &#8220;Me atacaram, dizendo coisas como &#8216;estrangeira, voc\u00eas roubam nossos trabalhos&#8217;.&#8221;<\/p>\n<p>A xenofobia, no entanto, n\u00e3o surge apenas do desconhecido. Para Faguaga, ela est\u00e1 presente at\u00e9 mesmo de quem se diz &#8220;disposto a ajudar&#8221;. \u00c9 o preconceito velado, introduzido pela frase &#8220;n\u00e3o foi isso que quis dizer&#8221;. &#8220;Algumas pessoas que se diziam amigas chegaram a afirmar que eu deveria esquecer minha carreira porque aqui no Brasil s\u00f3 servia para trabalhar como faxineira&#8221;, conta. &#8220;Isso d\u00f3i muito mais, isso fica marcado&#8221;, desabafa.<\/p>\n<p>Assim como fez em Cuba, Faguaga quer quebrar paradigmas. Ela quer ser ouvida, como mulher e como refugiada. &#8220;Sou uma mulher e sou uma mulher negra, com uma carreira e hist\u00f3ria. O imagin\u00e1rio do brasileiro n\u00e3o espera isso&#8221;, afirma. &#8220;Cabe a mim e aos meus semelhantes quebrar essa imposi\u00e7\u00e3o.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Eu era considerada uma traidora da minha p\u00e1tria, uma anti-revolucion\u00e1ria&#8221;, diz Maria Faguaga, uma cubana refugiada\u00a0no Brasil desde 2014. 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