{"id":18819,"date":"2016-03-21T00:25:17","date_gmt":"2016-03-21T03:25:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sincomam.org.br\/?p=18819"},"modified":"2016-03-20T22:09:30","modified_gmt":"2016-03-21T01:09:30","slug":"suspensao-de-obras-da-petrobras-em-mg-e-ms-traz-desalento","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/suspensao-de-obras-da-petrobras-em-mg-e-ms-traz-desalento\/","title":{"rendered":"Suspens\u00e3o de obras da Petrobras em MG e MS traz desalento"},"content":{"rendered":"<p>At\u00e9 dois anos atr\u00e1s, a cidade de Tr\u00eas Lagoas era o endere\u00e7o certo para ganhar dinheiro. Donos de restaurantes, hot\u00e9is, lavanderias, de pequenas empreiteiras, de mec\u00e2nicas e de praticamente todo tipo de neg\u00f3cio viam sua clientela crescer a cada m\u00eas. O valor dos alugu\u00e9is estava nas alturas e algumas fam\u00edlias chegaram a deixar suas casas para alug\u00e1-las para os visitantes que estavam enriquecendo a cidade. O boom da economia tinha um nome: Petrobras. A empresa estava em vias de inaugurar uma grande f\u00e1brica de fertilizantes, a Unidade 3 de Fertilizantes Nitrogenados (UFN3), e as obras viraram o motor da cidade.<\/p>\n<p>Uma onda de otimismo semelhante chegou na mesma \u00e9poca \u00e0 Uberaba, no oeste de Minas. A Petrobras come\u00e7ava as obras de um f\u00e1brica do mesmo tipo, a UFN5. &#8220;O clima criado aqui foi de esperan\u00e7a. O Sebrae treinou v\u00e1rias empresas para serem fornecedoras do novo empreendimento. Muita gente de outras cidades se mudou para c\u00e1 por causa de emprego e oportunidade&#8221;, diz o prefeito, Paulo Piau (PMDB).<\/p>\n<p>Mas ent\u00e3o, tudo mudou. Em Tr\u00eas Lagoas, a Petrobras rescindiu, no fim de 2014, o contrato com as duas construtoras respons\u00e1veis pela obra. Segundo a estatal, mais de 80% do projeto estava pronto. Em Uberaba, a paralisa\u00e7\u00e3o ocorreu um pouco depois, com as obras ainda numa fase inicial. Desde ent\u00e3o, os projetos viraram canteiros de obra fantasmas com alguns funcion\u00e1rios tentando impedir uma degrada\u00e7\u00e3o acelerada de estruturas, m\u00e1quinas e equipamentos.<\/p>\n<p>Sem caixa e com um plano de desinvestimento em curso, a Petrobras n\u00e3o sabe ainda o que fazer com o que j\u00e1 foi investido em Tr\u00eas Lagoas e em Uberaba. Na primeira, teriam sido cerca de R$ 3 bilh\u00f5es; na segunda, cerca de R$ 1 bilh\u00e3o.<\/p>\n<p>&#8220;A companhia vem buscando outras estruturas de neg\u00f3cios que viabilizem a finaliza\u00e7\u00e3o desta obra&#8221;, disse a Petrobras ao Valor em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 unidade de Tr\u00eas Lagoas. &#8220;Sobre a F\u00e1brica de Fertilizantes Nitrogenados-V (UFN5), em Uberaba (MG), a Petrobras esclarece que avalia eventuais oportunidades para retomar uma nova concep\u00e7\u00e3o para o projeto.&#8221;<\/p>\n<p>As duas unidades j\u00e1 teriam despertado interesse de grupos estrangeiros. Pessoas que acompanham o desenrolar do caso no Mato Grosso do Sul e em Minas disseram ao Valor que a Sinopec Petroleum, da China, tem interesse em discutir algum acordo sobre as duas. Um eventual cons\u00f3rcio entre TransGas, dos EUA, e o grupo alem\u00e3o ThyssenKrupp tamb\u00e9m teria manifestado interesse em avaliar o de Tr\u00eas Lagoas.<\/p>\n<p>A Thyssenkrupp afirmou que &#8220;n\u00e3o h\u00e1 nenhuma negocia\u00e7\u00e3o em andamento relativa \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o de opera\u00e7\u00f5es de fertilizantes da Petrobras&#8221;. N\u00e3o foi encontrado porta-voz da Sinopec no Brasil. E a TransGas n\u00e3o retornou contato.<\/p>\n<p>Uma solu\u00e7\u00e3o alternativa para Tr\u00eas Lagoas poderia tamb\u00e9m envolver a Bol\u00edvia. &#8220;Recentemente, houve um documento assinado pelos dois pa\u00edses que fala em sinergias entre a UFN3 e uma UFN boliviana&#8221;, diz o secret\u00e1rio de Desenvolvimento Econ\u00f4mico do Mato Grosso do Sul, Jaime Verruck.<\/p>\n<p>Ao menos quatro grupos s\u00e3o citados por interlocutores da Petrobras: o japon\u00eas Mitsui, a pr\u00f3pria Sinopec, uma empresa do Paquist\u00e3o (que teria demonstrado interesse) e uma saudita. A Mitsui disse que &#8220;n\u00e3o comenta especula\u00e7\u00f5es de mercado&#8221;.<\/p>\n<p>Produzir fertilizantes nitrogenados no Brasil \u00e9 um neg\u00f3cio com potencial de demanda garantida. Nos \u00faltimos tr\u00eas anos, o pa\u00eds consumiu a m\u00e9dia de 3,6 milh\u00f5es de toneladas de nitrog\u00eanio ao ano, segundo Reginaldo Minar\u00e9, consultor da Confedera\u00e7\u00e3o da Agricultura e Pecu\u00e1ria do Brasil (CNA). O pa\u00eds depende fortemente da importa\u00e7\u00e3o. Em m\u00e9dia, 78% do consumo nacional \u00e9 importado e 22%, produzido aqui, diz ele.<\/p>\n<p>&#8220;Apesar de possuir as condi\u00e7\u00f5es essenciais de clima, terra ar\u00e1vel e \u00e1gua para o cultivo, os solos brasileiros s\u00e3o pobre em nutrientes. Assim, os macronutrientes nitrog\u00eanio; f\u00f3sforo e pot\u00e1ssio, s\u00e3o fundamentais para a agricultura&#8221;, diz Minar\u00e9. Mas, acrescenta, o Brasil ainda carece de pol\u00edticas que tornem mais competitivas a produ\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p>A Petrobras j\u00e1 tem tr\u00eas f\u00e1bricas de fertilizantes nitrogenados (Cama\u00e7ari, BA, Laranjeiras, SE, e Arauc\u00e1ria, PR). S\u00e3o f\u00e1bricas que come\u00e7aram a operar nos anos 70 e 80. As unidades de Tr\u00eas Lagoas e Uberaba dariam um novo e mais moderno f\u00f4lego \u00e0 produ\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n<p>Estatal busca grupos estrangeiros, entre eles da China, Alemanha e EUA, para concluir os dois empreendimentos<\/p>\n<p>Em maio de 2014, a presidente Dilma Rousseff foi at\u00e9 Uberaba e participou do lan\u00e7amento da pedra fundamental da UFN5. Num palco armado sob uma grande tenda branca no terreno onde come\u00e7avam as obras, Dilma fez um discurso otimista. &#8220;Quanto mais a nossa agricultura tiver insumos de qualidade produzidos com nossas riquezas, mais riqueza vamos gerar. Da\u00ed a import\u00e2ncia dessa f\u00e1brica de nitrogenados, a import\u00e2ncia da gente olhar para \u00e1rea de fertilizante&#8221;, disse Dilma.<\/p>\n<p>Uberaba teria como abastecer facilmente \u00e1reas rurais em Minas, S\u00e3o Paulo e Goi\u00e1s. Tr\u00eas Lagoas abasteceria Mato Grosso do Sul e o polo do agroneg\u00f3cio brasileiro, Mato Grosso; al\u00e9m de Goi\u00e1s, parte de S\u00e3o Paulo e Paran\u00e1.<\/p>\n<p>Nos meses seguintes \u00e0 visita de Dilma, as obras avan\u00e7aram em Uberaba. A construtora Toyo Setal, encarregada pelo projeto, fez as funda\u00e7\u00f5es, alocou equipamentos, segundo informa\u00e7\u00e3o da prefeitura. A empresa n\u00e3o quis fazer coment\u00e1rios sobre o assunto.<\/p>\n<p>A estimativa era que a UFN5 ficasse pronta em 2016 e entrasse em opera\u00e7\u00e3o em 2017 tendo capacidade de produzir 519 mil toneladas de am\u00f4nia por ano. O investimento previsto era de R$ 1,95 bilh\u00e3o. A planta deveria gerar 3 mil empregos diretos.<\/p>\n<p>&#8220;Eu costumava dizer que essa unidade seria o pr\u00e9-sal de Uberaba&#8221;, lembra Nagib Facury, presidente se\u00e7\u00e3o da Federa\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) no Vale do Rio Grande.<\/p>\n<p>Em Tr\u00eas Lagoas &#8211; que fica bem na divisa entre Mato Grosso do Sul e S\u00e3o Paulo &#8211; a constru\u00e7\u00e3o come\u00e7ou no segundo semestre de 2011 e a previs\u00e3o era que em 2014 a f\u00e1brica estivesse em atividade. Com investimentos previstos de R$ 3,1 bilh\u00f5es, a unidade teria capacidade de produzir 1,2 milh\u00e3o de toneladas de ureia e 70 mil de toneladas de am\u00f4nia.<\/p>\n<p>Com 108 mil habitantes, as obras da UFN 3 atra\u00edram, no \u00e1pice, cerca de 10 mil pessoas. Hoje, segundo relatos de petroleiros e de pessoas que estiveram recentemente na obra, seriam cerca de 30 funcion\u00e1rios encarregados de fiscaliza\u00e7\u00e3o e manuten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As obras eram tocadas por um cons\u00f3rcio das construtoras Galv\u00e3o Engenharia e a chinesa Sinopec &#8211; a mesma que agora teria apetite para adquirir as duas usinas inconclusas. O cons\u00f3rcio, por sua vez, contratava fornecedores locais de produtos e servi\u00e7os.<\/p>\n<p>As dificuldades come\u00e7aram a surgir quando as empreiteiras passaram a dizer na cidade que a Petrobras estava atrasando seus pagamentos e por isso teriam de atrasar tamb\u00e9m os dos fornecedores. Ent\u00e3o, em meados de dezembro, a Petrobras rescindiu o contrato. A empresa alegou &#8220;descumprimento do contrato por parte do cons\u00f3rcio&#8221;. As construtoras rebateram e o caso foi para a Justi\u00e7a e ainda est\u00e1 tramitando em tribunais do Rio. Naquele momento, a Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato j\u00e1 apertava o cerco \u00e0s maiores empreiteiras do pa\u00eds e a Galv\u00e3o era um dos alvos das investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Para Tr\u00eas Lagoas, foi um susto. &#8220;A gente ligava para o cons\u00f3rcio e l\u00e1 eles diziam que a Petrobras n\u00e3o estava pagando. Na Petrobras, diziam que a d\u00edvida n\u00e3o era deles&#8221;, lembra Sayuri Baez, de 44 anos, foi contratada logo no in\u00edcio da obra para fazer placas de sinaliza\u00e7\u00e3o, mas que depois investiu para construir alojamentos para abrigar funcion\u00e1rias das obras. &#8220;Para mim, era um oportunidade atender a um empreendimento desse tamanho e no fim das contas, tinha a Petrobras por tr\u00e1s.&#8221;<\/p>\n<p>Ademir Gon\u00e7alves, outro empres\u00e1rio local, se recorda: &#8220;Teve um amea\u00e7a de quebra-quebra na cidade. Eu tive de demitir funcion\u00e1rios e buscar dinheiro no mercado financeiro para cobrir um cr\u00e9dito de mais R$ 1 milh\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p>Gon\u00e7alves vendia ferramentas, cabos, a\u00e7o e outros materiais para a obra. A Justi\u00e7a do Estado penhorou R$ 36 milh\u00f5es do caixa da Petrobras para saldas as d\u00edvidas da obra em Tr\u00eas Lagoas.<\/p>\n<p>No caso de Uberaba, os trabalhos pararam no ano passado e a Petrobras n\u00e3o informou a raz\u00e3o. A Toyo-Setal, segundo a prefeitura, informou que houve um &#8220;distrato&#8221; com a estatal. Desde que as obras foram interrompidas, integrantes dos governos de Minas e do Mato Grosso do Sul e as prefeituras de Tr\u00eas Lagoas e Uberaba tentam atuado para destravar os projetos.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio Jaime Verruck, do Mato Grosso do Sul, disse que uma dificuldade seria o g\u00e1s, insumo b\u00e1sico das f\u00e1bricas de nitrogenados. &#8220;Quem vier a comprar a UFN3, precisar\u00e1 de um contrato de longo prazo de fornecimento de g\u00e1s. Esse \u00e9 o grande gargalo&#8221;, afirmou.<\/p>\n<p>O contrato entre Brasil e Bol\u00edvia &#8211; cujo gasoduto passa pr\u00f3ximo \u00e0s obras &#8211; se encerra em 2019, podendo ir at\u00e9 2021. Mas e depois, a que pre\u00e7o o combust\u00edvel chegar\u00e1 ao Brasil? &#8220;Alguns investidores que conversaram com o governo cogitaram a possibilidade de eles importarem diretamente da Bol\u00edvia. Outra op\u00e7\u00e3o seria importar g\u00e1s liquefeito&#8221;, disse Verruck.<\/p>\n<p>Em Minas Gerais, o governo se comprometeu a levar g\u00e1s construindo um gasoduto que sairia de Queluzito (MG) e iria at\u00e9 Uberaba. O projeto, por\u00e9m, foi engavetado porque a Petrobras suspendeu a constru\u00e7\u00e3o da planta.<\/p>\n<p>A paralisa\u00e7\u00e3o das duas obras tem ainda um custo dif\u00edcil de ser mensurado. &#8220;Tudo est\u00e1 se depreciando l\u00e1 dentro&#8221;, diz Jos\u00e9 Maria Castilho Filho, s\u00f3cio de uma empresa em Tr\u00eas Lagoas de loca\u00e7\u00e3o de equipamentos e que at\u00e9 janeiro fez alguns servi\u00e7os de manuten\u00e7\u00e3o na UFN3. &#8220;Tem estruturas met\u00e1licas, equipamentos grandes, tubula\u00e7\u00f5es, v\u00e1rios pr\u00e9dios, as unidades semiprontas. Tudo abandonado.&#8221;<\/p>\n<p>A Petrobras negou pedido do Valor para visitar os locais das obras de Tr\u00eas Lagoas e Uberaba.<\/p>\n<p>Fonte: Valor Econ\u00f4mico\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>At\u00e9 dois anos atr\u00e1s, a cidade de Tr\u00eas Lagoas era o endere\u00e7o certo para ganhar dinheiro. 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