{"id":12659,"date":"2015-06-08T12:37:42","date_gmt":"2015-06-08T15:37:42","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sincomam.org.br\/?p=12659"},"modified":"2015-06-08T12:37:42","modified_gmt":"2015-06-08T15:37:42","slug":"paralisacao-de-estaleiro-provoca-demissoes-na-bahia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/paralisacao-de-estaleiro-provoca-demissoes-na-bahia\/","title":{"rendered":"Paralisa\u00e7\u00e3o de estaleiro provoca demiss\u00f5es na Bahia"},"content":{"rendered":"<p>A rotina dos moradores do pequeno distrito de S\u00e3o Roque do Paragua\u00e7u, em Maragojipe, no Rec\u00f4ncavo Baiano, sofreu um duro golpe nos \u00faltimos meses. Em menos de dois anos, a popula\u00e7\u00e3o local saiu da abund\u00e2ncia de emprego ao s\u00fabito desemprego, com a paralisa\u00e7\u00e3o das obras e opera\u00e7\u00e3o do estaleiro Enseada Ind\u00fastria Naval &#8211; o \u00fanico grande empreendimento da regi\u00e3o. O projeto foi afetado pela Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, da Pol\u00edcia Federal, e est\u00e1 parado. Hoje, menos de 200 pessoas trabalham no local apenas para manter os equipamentos em ordem.<\/p>\n<p>No auge da obra, em mar\u00e7o do ano passado, 7.360 funcion\u00e1rios estavam empregados no estaleiro, sendo que 87% da m\u00e3o de obra morava na regi\u00e3o. S\u00f3 no distrito de S\u00e3o Roque eram mais de mil empregos numa popula\u00e7\u00e3o total de 6 mil pessoas. Quando as demiss\u00f5es em massa come\u00e7aram, em novembro do ano passado, os moradores locais sentiram em cheio a revers\u00e3o do cen\u00e1rio. Muitos tinham se endividado para comprar carros, construir ou reformar a casa e agora est\u00e3o com o nome sujo na pra\u00e7a. Outros investiram todas as economias em neg\u00f3cios pr\u00f3prios que nem puderam ser inaugurados.<\/p>\n<p>A paralisa\u00e7\u00e3o do estaleiro chegou antes de os pequenos empres\u00e1rios abrirem as portas dos novos estabelecimentos. Sem perspectiva, a popula\u00e7\u00e3o local busca respostas: a principal delas \u00e9 se o empreendimento voltar\u00e1 \u00e0 ativa e se os empregos ser\u00e3o retomados. O questionamento, no entanto, est\u00e1 longe de uma solu\u00e7\u00e3o. Para voltar ao normal, o estaleiro, que tem tr\u00eas s\u00f3cios envolvidos na Lava Jato (Odebrecht, OAS e UTC), depende de dois fatores: da libera\u00e7\u00e3o do financiamento restante de R$ 600 milh\u00f5es do Banco do Brasil e Caixa e da retomada dos pagamentos da Sete Brasil (empresa criada para intermediar a constru\u00e7\u00e3o de sondas da Petrobr\u00e1s para explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal), que somam cerca de R$ 900 milh\u00f5es.<\/p>\n<p>No total, o Enseada construiria seis navios-sonda at\u00e9 2020, num contrato de US$ 4,8 bilh\u00f5es com a Sete Brasil, que vive intensa crise financeira desde que a Lava Jato foi deflagrada. &#8220;Estamos buscando uma solu\u00e7\u00e3o alternativa de equacionamento financeiro com a Kawasaki (s\u00f3cia do estaleiro) no mercado japon\u00eas, mas ainda \u00e9 muito cedo para saber o resultado. No momento, o melhor seria a Sete Brasil ratificar o contrato&#8221;, diz o diretor de Rela\u00e7\u00f5es Institucionais e de Sustentabilidade do Enseada, Humberto Rangel.<\/p>\n<p><strong>Efeito cascata<\/strong><\/p>\n<p>Segundo ele, de novembro pra c\u00e1, mais de 6,6 mil pessoas foram demitidas do empreendimento. Isso significou R$ 120 milh\u00f5es de sal\u00e1rios que deixaram de irrigar a economia local no per\u00edodo. Com as fam\u00edlias desempregadas e menos funcion\u00e1rios de fora da regi\u00e3o, o com\u00e9rcio sucumbiu ao baixo movimento. Muitos j\u00e1 fecharam as portas e outros n\u00e3o sabem at\u00e9 quando aguentam arcar com as despesas. Sem demanda, eles tamb\u00e9m desempregam e provocam um efeito cascata. &#8220;T\u00ednhamos 25 vans e 25 pais de fam\u00edlia trabalhando com a gente. Hoje tenho cinco carros e cinco funcion\u00e1rios&#8221;, diz o s\u00f3cio da Jurere Tur, Luiz Pereira.<\/p>\n<p>Ele conta que, da mesma forma que a chegada do estaleiro turbinou os neg\u00f3cios, a paralisia das obras devastou as finan\u00e7as da empresa, que dependia quase que 100% da opera\u00e7\u00e3o do empreendimento. Com a queda nos servi\u00e7os, a transportadora teve de vender os ve\u00edculos para pagar a rescis\u00e3o dos funcion\u00e1rios e quitar sua d\u00edvida no banco. &#8220;N\u00e3o temos economia para suportar essa crise. Tudo que ganhamos reinvestimos no aumento da frota. Agora que \u00edamos come\u00e7ar a lucrar, a obra parou&#8221;, diz Pereira, que nasceu em S\u00e3o Roque do Paragua\u00e7u e sempre trabalhou com transportes.<\/p>\n<p>O vaiv\u00e9m das pessoas no Rio Paragua\u00e7u, entre o estaleiro e a comunidade, tamb\u00e9m ati\u00e7ou o esp\u00edrito empreendedor de Ant\u00f4nio Severino Santos, de 66 anos. H\u00e1 um ano ele, juntou o dinheiro de uma vida toda e comprou um barco por R$ 11,1 mil. Em apenas um dia, chegava a ganhar R$ 200 com as travessias de trabalhadores e visitantes. Agora consegue, no m\u00e1ximo, R$ 20 por dia.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria de Jo\u00e3o dos Santos Dias envolve perdas maiores. Ex-comerciante do ramo de supermercado e vestu\u00e1rio, decidiu apostar na \u00e1rea de hotelaria para capturar os ganhos que o estaleiro traria para a regi\u00e3o. Come\u00e7ou com uma pousada: conforme o estaleiro crescia, ele ampliava o n\u00famero de apartamentos. Chegou a ter 325 quartos, todos ocupados. A grande empreitada, por\u00e9m, foi construir um clube de 19 mil metros quadrados, com 55 apartamentos, churrasqueira, duas piscinas, campo de futebol, estacionamento e \u00e1rea de eventos.<\/p>\n<p>Tinha um pr\u00e9-acordo com uma grande empresa para alugar os quartos para os funcion\u00e1rios, mas n\u00e3o deu tempo de inaugurar. O empreendimento est\u00e1 parado e a pousada, fechada. Para diminuir o preju\u00edzo, \u00e0s vezes ele abre o clube aos domingos para a popula\u00e7\u00e3o local e cobra R$ 10 por pessoa. &#8220;Ganhei muito dinheiro, mas gastei tudo em novos empreendimentos&#8221;, diz Santos Dias, empres\u00e1rio conhecido na regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A mesma aposta fez o dono da Pousada Ponto Dez, que hoje tem 30 quartos dispon\u00edveis e, no m\u00e1ximo, quatro ocupados. A expans\u00e3o do estabelecimento estava no meio do caminho quando a crise estourou. A constru\u00e7\u00e3o do pr\u00e9dio, de quatro andares e 70 quartos, foi interrompida e os equipamentos, guardados. Num quarto da pousada, que resiste ao escasso movimento de visitantes, foram armazenados todos os aparelhos de ar-condicionado. At\u00e9 um elevador foi comprado e n\u00e3o tem onde ser colocado, conta um funcion\u00e1rio.<\/p>\n<p>No empreendimento de Giod\u00e1sio Jos\u00e9 Santos, os equipamentos chegaram e foram instalados. Mas ele tamb\u00e9m n\u00e3o teve tempo de inaugurar o restaurante, sonho antigo da mulher Ivonete Antonia de Souza Santos. Durante tr\u00eas anos, os dois vendiam refei\u00e7\u00f5es para funcion\u00e1rios e visitantes do estaleiro. No in\u00edcio, a comida era servida na varanda da resid\u00eancia do casal. Em pouco tempo, o espa\u00e7o ficou pequeno e foi necess\u00e1rio investir em um novo local para servir as refei\u00e7\u00f5es. O restaurante foi constru\u00eddo no fundo da pra\u00e7a da comunidade Enseada do Paragua\u00e7u, pertencente a S\u00e3o Roque. Ali, durante meses, eles n\u00e3o davam conta de tanta demanda. &#8220;Serv\u00edamos 70 almo\u00e7os por dia. Na sexta-feira, at\u00e9 faltava comida para todo mundo&#8221;, lembra Santos.<\/p>\n<p>Diante do sucesso do neg\u00f3cio e da promessa de que o estaleiro teria vida longa, o casal juntou todas as economias e ampliou o estabelecimento. Quando a obra chegou ao fim, no entanto, veio a not\u00edcia da paralisa\u00e7\u00e3o do estaleiro. &#8220;Hoje, vendo uma ou duas refei\u00e7\u00f5es por dia. Tudo que ganhamos reinvestimos pensando que o projeto duraria uns 15, 20 anos. Agora, acumulo contas atrasadas. Foi muito bom enquanto durou.&#8221;<\/p>\n<p>Se para os empres\u00e1rios de S\u00e3o Roque do Paragua\u00e7u a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 complicada, para os ex-funcion\u00e1rios do estaleiro a crise representa a interrup\u00e7\u00e3o de um sonho e o in\u00edcio de um grande problema. &#8220;Acordei de um sonho e estou vivendo um pesadelo&#8221;, afirma a t\u00e9cnica de seguran\u00e7a do trabalho Viviane Rocha de Jesus, de 30 anos, que trabalhou um ano e meio no empreendimento. Durante esse tempo, endividou-se para reformar a casa da m\u00e3e, comprou material de constru\u00e7\u00e3o, contratou pedreiro e iniciou as obras. Mas n\u00e3o teve tempo e nem dinheiro para conclu\u00ed-las.<\/p>\n<p>Com as obras inacabadas e infiltra\u00e7\u00f5es que se alastram pela casa por causa da interrup\u00e7\u00e3o, ela ainda tem de conviver com outro drama: est\u00e1 inadimplente na pra\u00e7a. &#8220;Fiz d\u00edvida no banco para financiar a reforma da casa de minha m\u00e3e acreditando que esse empreendimento seria para d\u00e9cadas. Foi isso que prometeram para todos n\u00f3s. Hoje, estamos sem perspectiva.&#8221; Na casa de Viviane, todos trabalhavam no estaleiro e est\u00e3o desempregados. Quem mant\u00e9m a casa \u00e9 a m\u00e3e, Maria de Lourdes Rocha, que faz faxina e lava roupa para fora.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, Viviane tem gasto tempo e dinheiro &#8211; que n\u00e3o tem &#8211; em busca de emprego na regi\u00e3o, especialmente nas constru\u00e7\u00f5es do metr\u00f4 da capital. Mesmo caminho seguiu Leia Concei\u00e7\u00e3o Batista, outra ex-funcion\u00e1ria do estaleiro.<\/p>\n<p>Separada e m\u00e3e de duas filhas, ela tem vivido os \u00faltimos meses da aposentadoria da m\u00e3e e da venda de balas, pirulitos e geladinhos. De vez em quando, consegue uma faxina e fatura cerca de R$ 40 por dia. H\u00e1 alguns meses, a situa\u00e7\u00e3o era bem diferente. &#8220;Trabalhei durante um ano e cinco meses no estaleiro. Dei muitas alegrias para as minhas filhas, comprei v\u00e1rios presentes.&#8221; Hoje, diz ela, \u00e9 o sal\u00e1rio m\u00ednimo da m\u00e3e que salva o dia a dia da fam\u00edlia. &#8220;N\u00e3o tenho nada. Tudo que ganhei j\u00e1 foi embora.&#8221; No momento, seu principal objetivo \u00e9 ir embora de S\u00e3o Roque. Para isso, tem distribu\u00eddo curr\u00edculos por todos os cantos de Salvador e regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo o vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Constru\u00e7\u00e3o Pesada da Bahia (Sintepav\/PA), Irailson Warneaux, menos de 10% das pessoas que foram demitidas do estaleiro est\u00e3o trabalhando, ainda assim em obras r\u00e1pidas. Em S\u00e3o Roque, uma das alternativas para quem continua desempregado tem sido voltar para a pesca, pr\u00e1tica que vinha sendo abandonada com as novas oportunidades. Foi o que ocorreu com Ant\u00f4nio Pedro dos Santos, 30 anos, e Henrique da Concei\u00e7\u00e3o Cruz, de 55 anos.<\/p>\n<p>No lugar do uniforme e dos equipamentos de prote\u00e7\u00e3o, agora eles usam uma canoa e redes para pescar. Todos os dias, saem de casa \u00e0s 5 horas da manh\u00e3 e s\u00f3 voltam depois das 15 horas, com alguns quilos de peixes. O problema \u00e9 que, com a renda mais curta da popula\u00e7\u00e3o desempregada e com a crise econ\u00f4mica do Pa\u00eds, eles tamb\u00e9m t\u00eam tido dificuldade para vender o pescado.<\/p>\n<p>Nessa troca, do estaleiro para o rio, a renda de Santos encolheu 90%. As contas s\u00f3 n\u00e3o est\u00e3o atrasadas porque tem usado o dinheiro da indeniza\u00e7\u00e3o por tempo de trabalho e tamb\u00e9m por causa dos cortes no or\u00e7amento familiar. Um deles foi tirar o filho da escola paga e coloc\u00e1-lo de volta na escola p\u00fablica. Na casa de Cruz, a sa\u00edda tem sido cortar as regalias conquistadas com a seguran\u00e7a da carteira assinada. &#8220;Estamos cortando carne, iogurte e chocolates para diminuir as despesas. As crian\u00e7as reclamam, mas n\u00e3o temos o que fazer. Pedimos a Deus que a obra retorne.&#8221;<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio \u00e9 de desola\u00e7\u00e3o, diz Arilson Brito, de 46 anos, ex-eletricista do estaleiro, que trabalha no setor naval desde 1998. &#8220;A ind\u00fastria parou e o com\u00e9rcio diminuiu. N\u00e3o tem emprego para ningu\u00e9m.&#8221; O dinheiro que tem conseguido para pagar as despesas da fam\u00edlia vem de um t\u00e1xi que comprou durante os anos de carteira assinada. Mesmo assim, a vida n\u00e3o est\u00e1 f\u00e1cil. &#8220;O movimento caiu entre 80% e 90%. Adiamos um sonho de melhoria de vida.&#8221; As informa\u00e7\u00f5es s\u00e3o do jornal<\/p>\n<p>Fonte: Ag\u00eancia Estado\/O Estado de S. Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A rotina dos moradores do pequeno distrito de S\u00e3o Roque do Paragua\u00e7u, em Maragojipe, no Rec\u00f4ncavo Baiano, sofreu um duro golpe nos \u00faltimos meses. 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