{"id":12341,"date":"2015-05-21T10:30:30","date_gmt":"2015-05-21T13:30:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.sincomam.org.br\/?p=12341"},"modified":"2015-05-21T10:30:30","modified_gmt":"2015-05-21T13:30:30","slug":"estaleiro-paraguacu-restam-pouco-mais-de-300-empregados-no-vazio-da-enseada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.sincomam.org.br\/index.php\/estaleiro-paraguacu-restam-pouco-mais-de-300-empregados-no-vazio-da-enseada\/","title":{"rendered":"Estaleiro Paragua\u00e7u: Restam pouco mais de 300 empregados no vazio da Enseada"},"content":{"rendered":"<p>O gigante de 140 metros pode ser visto da Cidade Baixa, em Salvador. Inativo, aparenta ser apenas uma imensa trave de ferro. Mas deveria ser o cora\u00e7\u00e3o da Enseada Ind\u00fastria Naval, em Maragojipe, no Rec\u00f4ncavo. Apesar de estar de p\u00e9, o Goliath, mais alto guindaste da Am\u00e9rica Latina e um dos mais fortes do mundo, mant\u00eam-se parado como o s\u00edmbolo mais triste e fiel do atual momento de crise da ind\u00fastria naval baiana.\u00a0<\/p>\n<p>Sem 6,7 mil funcion\u00e1rios, demitidos ap\u00f3s a crise financeira intensificada com a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato, da Pol\u00edcia Federal, o canteiro da Enseada \u00e9 hoje um imenso vazio de 1,6 milh\u00e3o de metros quadrados. Encontrar um dos pouco mais de 300 trabalhadores que ainda restam no empreendimento, que tem 82% de suas obras conclu\u00eddas, \u00e9 tarefa dif\u00edcil.\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Autorizado pela dire\u00e7\u00e3o, o CORREIO entrou na empresa para ver de perto quem s\u00e3o os \u00faltimos \u201cgolias\u201d a carregar nas costas um investimento que atingiu R$ 2,7 bilh\u00f5es e que deveria chegar a R$ 3,2 bilh\u00f5es. Boa parte desses funcion\u00e1rios atua justamente na manuten\u00e7\u00e3o do Goliath Crane (Guindaste Golias, em ingl\u00eas). \u201cTemos hoje 50 funcion\u00e1rios para a preserva\u00e7\u00e3o constante do Goliath. Ele \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o do Estaleiro\u201d, confirma M\u00e1rio Moura, gerente industrial da Enseada.<\/p>\n<p>Do tamanho de um pr\u00e9dio de 50 andares, trata-se de um dos poucos guindastes no mundo a conseguir i\u00e7ar os chamados megablocos, que formam os m\u00f3dulos que comp\u00f5em os navios sonda, capazes de explorar o pr\u00e9-sal. \u201cO Goliath \u00e9 uma obra de constru\u00e7\u00e3o civil pesada de alta complexidade\u201d, explica Moura.\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Quem ainda trabalha na manuten\u00e7\u00e3o do equipamento, mesmo ap\u00f3s as demiss\u00f5es, se sente privilegiado. Apesar disso, contam como fora da empresa o sentimento \u00e9 de tristeza e impot\u00eancia. \u201cA verdade \u00e9 que estamos trabalhando em clima de enterro. Como vamos trabalhar bem sabendo que nossos companheiros est\u00e3o sem emprego?\u201d, afirma o t\u00e9cnico de estruturas Claudionor Santana, 42, morador de S\u00e3o Roque do Paragua\u00e7u, casado e pai de tr\u00eas filhos. \u201cDevo o sustento da minha fam\u00edlia ao Goliath\u201d, diz.\u00a0<\/p>\n<p>Para colocar completamente de p\u00e9 o Goliath, a Enseada precisou de quase um ano &#8211; entre maio de 2014 e fevereiro de 2015. Um trabalho que envolveu 300 pessoas de cinco nacionalidades. Quatro navios trouxeram as pe\u00e7as do gigante. Na semana em que as suas duas pernas seriam unidas ao corpo, um document\u00e1rio foi produzido para registrar o momento mais importante da constru\u00e7\u00e3o do Estaleiro.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o era t\u00e3o complexa que tr\u00eas esta\u00e7\u00f5es meteorol\u00f3gicas foram instaladas para prever tempo e for\u00e7a dos ventos. \u201cFoi ali puxando na ra\u00e7a, foi indo, indo&#8230; entrou perfeito\u201d, comemorou, quase chorando, Jacques Raigorodsky, engenheiro que coordenou a montagem. \u201cVai trazer muito emprego para muita gente\u201d, previu, sem saber o que estava por vir.<\/p>\n<p>Ontem, Jacques mantinha o otimismo. \u201cPessoalmente, creio que as autoridades conseguir\u00e3o reequacionar e replanejar a explora\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal\u201d. \u00c9 que, para quem botou o Goliath de p\u00e9, a crise \u00e9 super\u00e1vel. \u201cNossa esperan\u00e7a est\u00e1 aqui na nossa frente. Nossa esperan\u00e7a \u00e9 o Goliath\u201d, explica o engenheiro Damon Oliveira.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p><strong>Cursos<\/strong><\/p>\n<p>Mas a Enseada n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o Goliath. Os galp\u00f5es onde foram instaladas as oficinas ficam ainda maiores quando vazias. \u201cTudo aqui \u00e9 pequenininho, n\u00e9\u201d, brinca o engenheiro. Muitos dos funcion\u00e1rios demitidos chegaram a fazer cursos no Jap\u00e3o, fruto de uma parceria com a Kawasaki, uma das acionistas da Enseada, com 30% das a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Um total de 78 trabalhadores recebeu qualifica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Se tornaram mestres. Um deles, Jailson Pedreira, 34, de Salinas da Margarida, ainda est\u00e1 empregado. Sozinho na Oficina-6, um galp\u00e3o de 40 metros de p\u00e9-direito onde se d\u00e1 o in\u00edcio do processo fabril dos navios, ele d\u00e1 gra\u00e7as por ter ficado, j\u00e1 que a mulher est\u00e1 gr\u00e1vida. \u201cMas a gente fica triste pelos colegas\u201d, comenta Jailson, que opera as m\u00e1quinas de corte das chapas.\u00a0\u00a0<\/p>\n<p>Ainda sem a ajuda do Goliath, que vai passar pela fase de testes, a Enseada Ind\u00fastria Naval conseguiu produzir os \u201ctop sides\u201d (os m\u00f3dulos que formam a parte de cima da embarca\u00e7\u00e3o e toda a tecnologia) de dois navios. Eles foram batizados de Ondina e Pituba. Os cascos vieram da China. Equipada com pontes rolantes automatizadas por onde caminham as chapas de a\u00e7o, a Enseada conseguiria produzir navios como se montasse brinquedos.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 como o Lego. Mas cada chapa dessa tem muita tecnologia envolvida\u201d, diz o engenheiro. Os 18% que ainda n\u00e3o est\u00e3o prontos no Estaleiro dizem respeito \u00e0 finaliza\u00e7\u00e3o de algumas oficinas, a instala\u00e7\u00e3o de equipamentos, a finaliza\u00e7\u00e3o do dique-seco e o comissionamento do Goliath.<\/p>\n<p><strong>1 &#8211; Com\u00e9rcio e hot\u00e9is parados<\/strong><\/p>\n<p>Em Maragojipe, os comerciantes calculam uma queda de 80% nas vendas. Assim como em Salinas. Em Nazar\u00e9, pelo menos 40%. Um casal que \u00e9 dono de lojas de m\u00f3veis, roupas e cal\u00e7ados chegou a construir um hotel s\u00f3 para receber funcion\u00e1rios do estaleiro em Maragojipe. Os mais de 60 quartos tinham ocupa\u00e7\u00e3o de 90% o ano inteiro. Hoje, n\u00e3o chega a 10%.<\/p>\n<p><strong>2 &#8211; Pousadas fechadas<\/strong><\/p>\n<p>Pousadas e hot\u00e9is, antes com 100% de ocupa\u00e7\u00e3o, fecharam as portas em S\u00e3o Roque, ao lado da Enseada. O propriet\u00e1rio da Pousada Ponto 10 investiu R$ 1,5 milh\u00e3o na amplia\u00e7\u00e3o do estabelecimento em mais de 70 quartos. Quando soube das demiss\u00f5es, Manoel dos Santos, o Bira, teve um infarto. Sobreviveu.<\/p>\n<p><strong>3 &#8211; Obras desaceleram em Nazar\u00e9<\/strong><\/p>\n<p>Com a vinda do Estaleiro para Enseada, um grupo espanhol resolveu investir R$ 10 milh\u00f5es na regi\u00e3o. A construtora G3 iniciou a constru\u00e7\u00e3o em Nazar\u00e9 de um condom\u00ednio de luxo. Parte das 1,6 mil casas seria para os executivos da ind\u00fastria. \u201cTivemos que desacelerar\u201d, diz Leonam Torres, diretor de rela\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. O projeto inclui 100 mil metros de \u00e1rea verde e at\u00e9 um shopping.\u00a0<\/p>\n<p><strong>4 &#8211; Microempres\u00e1rio construiu clube<\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo um clube visando os \u2018s\u00f3cios\u2019 da Enseada foi erguido bem pr\u00f3ximo ao povoado de S\u00e3o Roque. Dono de uma pousada com 255 quartos, Jo\u00e3o M\u00e1rio Dias, o Coscoba, investiu R$ 8 milh\u00f5es no lazer dos trabalhadores. O Clube Palmeiras, com piscina, campo de futebol e churrascaria chegou a encher nos finais de semana. Hoje, vive vazio e se afunda em d\u00edvidas. A pousada Coscoba teve que fechar.<\/p>\n<p><strong>5 &#8211; At\u00e9 prost\u00edbulo encerrou atividades<\/strong><\/p>\n<p>Nem o bordel resistiu ao arrefecimento da economia local. As garotas de programa simplesmente sumiram do \u201cBrega Skol\u201d, como os locais chamavam o estabelecimento. Muitos funcion\u00e1rios do Estaleiro frequentavam o lugar. \u201cAt\u00e9 os coreanos gostavam. De noite, as prostitutas s\u00f3 queriam saber deles. A gente nativo tinha que ir l\u00e1 de dia para conseguir alguma coisa\u201d, afirmou um morador de S\u00e3o Roque, que preferiu n\u00e3o se identificar.<\/p>\n<p>Fonte: Correio da Bahia\/Alexandre Lyrio<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O gigante de 140 metros pode ser visto da Cidade Baixa, em Salvador. Inativo, aparenta ser apenas uma imensa trave de ferro. 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