Só Brasil e Turquia têm inflação, juros e desemprego de dois dígitos entre as grandes economias
O Brasil é um caso raro de país com taxas de dois dígitos de inflação, juros e desemprego. Entre as grandes economias do mundo, apenas a Turquia vive tal situação, aponta levantamento feito para o g1 pela agência de classificação de risco Austin Rating.
A Argentina e Rússia também estão no topo dos rankings das maiores taxas de inflação e de juros básicos do mundo, mas mantêm um desemprego abaixo de dois dígitos. Já a África do Sul e a Espanha possuem desemprego superior ao do Brasil, mas inflação e juros bem menores.
Inflação
Já são 8 meses seguidos com a inflação anual acima dois dígitos o Brasil, segundo mostrou a prévia da inflação de abril divulgada pelo IBGE. A Selic superou os 10% em fevereiro e foi elevada na última quarta-feira (4) para 12,75% ao ano – maior patamar desde 2017. Já a taxa de desemprego ficou em 11,1% no 1º trimestre e se mantém em dois dígitos desde o final de 2015.
O que explica essa ‘tríplice coroa’
Mais do que indicar uma situação econômica bastante ruim no Brasil, a conjunção de taxas de dois dígitos de inflação, juros e desemprego escancara os efeitos das sucessivas crises dos últimos anos e dos problemas estruturais da economia brasileira, que há anos vem registrando baixo crescimento.
O economista explica que, embora a inflação tenha se tornado um problema global, puxada principalmente pela disparada dos preços da energia e de commodities, em países como os Estados Unidos ela também tem sido alimentada pela situação de praticamente pleno emprego.
“Nos Estados Unidos, há renda para absorver a alta da inflação. Então é natural que se tenha um juro também maior. Já no Brasil, a gente não tem um mercado de trabalho para absorver essa inflação alta e o juros tem que subir para combater essa inflação de custos”, observa.
Para Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, essa tríplice coroa também é resultado da instabilidade política, da crise fiscal e da falta de avanço na agenda de reformas. Já são oito anos seguidos de contas do governo federal no vermelho.
Ele lembra que, em 2016, a aprovação de reformas e de medidas de ajuste fiscal como a criação do teto de gastos foram fatores que contribuíram para a queda do dólar frente ao real e para a inflação desacelerar abaixo dos dois dígitos.
Vale explica que o alto nível de endividamento do setor público é um dos fatores que tem mantido o dólar em patamar elevado no Brasil e obrigado a uma elevação da taxa básica de juros mais acelerada e acentuada no Brasil, que retomou a liderança do ranking mundial de juros reais.
Inflação persistente, juros ainda ladeira acima e estagnação
Apesar da perspectiva de desaceleração da inflação a partir dos próximos meses, as projeções para o IPCA fechado no ano seguem sendo revisadas para cima e o próprio Banco Central já admitiu que a meta de inflação deve superar pelo 2º ano seguido o teto da meta do governo, que tinha sido fixada em 3,5% para 2022.
O Itaú revisou nesta sexta-feira (6) sua projeção para o IPCA de 2022, de 7,5% para 8,5%, citando preços administrados como gasolina e energia elétrica mais elevados e desinflação mais lenta de bens no segundo semestre. A estimativa do banco para a Selic é de 13,75% ao ano, com uma extensão do ciclo de alta dos juros por mais dois meses. Já para a taxa de desemprego a previsão é de 12% ao final deste ano.
Para a Austin, porém, ainda há risco do Brasil terminar o ano com taxa de dois dígitos de inflação, juros e desemprego. Os analistas destacam, porém, que a pior consequência desta combinação é o impacto direto no emprego e renda, e no ritmo de recuperação da economia brasileira.
O mercado financeiro estima atualmente um crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) de 0,70% em 2022 e de 1% em 2023. O FMI faz uma projeção um pouco melhor, de avanço de 0,80% neste ano e de 1,4% no ano que vem. Ainda assim, a perspectiva para o Brasil segue bem abaixo da da média mundial e dos emergentes.
A Turquia, por exemplo, que está com uma inflação perto de 70% ao ano, tem previsão de crescimento do PIB de 2,7% em 2022 e de 3% em 2023.
Fonte: G1






