Queda do petróleo pode inviabilizar lucro de parte do pré-sal no Brasil
A derrocada do preço internacional do petróleo, com o brent – barril de referência nas bolsas internacionais – permanecendo abaixo de US$ 29 nos últimos dias, pode impactar no lucro do que foi celebrado pelo ex-presidente Lula como o “bilhete premiado do Brasil” em 2006: o pré-sal. Apesar de ser benéfica a alguns setores (como a agricultura, que usufrui de fretes mais baratos), a queda na cotação da commodity lança um ponto de interrogação sobre os investimentos com a exploração das camadas mais profundas de petróleo no Brasil.
Apenas a extração de recursos do pré-sal, cuja profundidade pode ultrapassar 7 mil metros, tem um custo de US$ 8,00 por barril, de acordo com a Petrobras. Especialistas explicam que o valor adicional que a companhia paga de royalties e participação ao governo federal é desconhecido. Com o brent avaliado em menos de US$ 30,00, alguns analistas acreditam que o lucro com novos investimentos na região deve ser menor do que o esperado, sendo “próximo ao negativo” em alguns blocos.
Em 2015, a companhia informou que “o break even (preço mínimo do barril a partir do qual a produção é economicamente viável) planejado no momento em que foram aprovados os projetos de produção do pré-sal, situava-se no entorno de US$ 45 por barril, incluída a tributação e sem considerar os gastos com infraestrutura de escoamento de gás. Ao considerá-los, esse valor pode aumentar entre US$ 5 e US$ 7 por barril”.
Para entender quanto custa o petróleo de modo geral, é preciso considerar que, além do custo de extração, a Petrobras ainda paga a participação ao governo, o que que resulta em um custo médio geral de US$ 16 por barril, segundo o estrategista-chefe da XP Investimentos, Celson Placido. Além disso, o produto brasileiro de áreas fora do pré-sal é considerado pesado, de menor valor no mercado internacional, porque exige um trabalho adicional de pós-processamento. Para compensar, no cálculo de exportação, é como se ele custasse ainda mais US$ 10 por barril.
“Com esses custos, diante do preço atual, alguns blocos não estão dando resultado. E como sabemos que o custo de extração do pré-sal é maior, por ele ser uma camada mais profunda, alguns blocos podem estar próximos ao negativo”, explica Placido. Há, entretanto, uma proporção entre o custo de extração e a produtividade de cada área que deve ser incluída na conta. A Petrobras comemora que a produtividade das áreas do pré-sal é alta, com uma média de 767 mil barris por dia em 2015, sendo que alguns poços produzem sozinhos 30 mil barris ao dia. Para Flavio Conde, sócio-diretor da WhatsCall Research, justamente por esse cálculo “não dá para afirmar categoricamente que o pré-sal esteja dando prejuízo”. É preciso lembrar, também, que os custos da indústria fornecedora de bens e serviços acompanham a queda do petróleo, portanto estão mais baixos.
“O petróleo baixo lança uma questão sobre os investimentos da Petrobras, principalmente no pré-sal, que tem custo de extração maior do que a Bacia de Campos. A gente não tem como estimar o custo real do pré-sal, só sabemos que ele é mais alto do que em outras áreas. Esse desembolso tem relação direta com a produtividade de cada poço, pode ter um que produza 10 mil barris por dia e outro 100 mil, por exemplo, então é preciso pesar essa proporcionalidade.”
Em 2015, a companhia informou que “o break even (preço mínimo do barril a partir do qual a produção é economicamente viável) planejado no momento em que foram aprovados os projetos de produção do pré-sal, situava-se no entorno de US$ 45 por barril, incluída a tributação e sem considerar os gastos com infraestrutura de escoamento de gás. Ao considerá-los, esse valor pode aumentar entre US$ 5 e US$ 7 por barril”.
A coordenadora de pesquisa da FGV Energia, Lavinia Hollanda, ressalta que as consequências da atual cotação serão sentidas em todas as companhias que trabalham com o combustível fóssil. “Todas as empresas estão disciplinando a redução de custos, que é o que a Petrobras deve fazer. Uma queda de preços que parecia pontual está durando muito mais do que o esperado. Há perspectiva de queda de 50% no lucro da Shell no último trimestre de 2015. O problema é que esse efeito vem em uma hora muito ruim para a Petrobras, que vive uma situação financeira delicada e problemas de corrupção que afetam sua capacidade de reagir”, diz.
Os atuais preços da gasolina e do diesel no país (mais caros do que no mercado externo, já que os valores, por serem controlados pela União, não acompanham a queda do petróleo) poderiam ser facilitadores ao caixa da Petrobras, não fosse a dívida bruta de R$ 506 bilhões da empresa, com 70% desta quantia sendo calculada em dólar. Flavio Conde diz acreditar em uma redução da ordem de 10% no preço da gasolina e do diesel ainda neste ano. A medida, segundo ele, seria motivada para forçar para baixo a inflação e aumentar a popularidade do governo Dilma Rousseff.
Problema Antigo
Na visão dos analistas, o imbróglio em torno das decisões, a partir de 2006, de como o Brasil poderia se beneficiar dos royalties e atuar no pré-sal, foi uma janela de tempo “preciosa” e irrecuperável. De 2010 a 2013, o petróleo estava entre US$ 100 e US$ 150, cotação atraente para o comércio na área. Para Lavinia Hollanda, da FGV, a movimentação vista durante a descoberta das camadas profundas do petróleo foi contrária a um modelo que estava fluindo: “A gente trazia mais operadores para o Brasil. Com o pré-sal, houve uma concentração na Petrobras, que gerou uma dependência de todo o setor. Foram em torno de cinco anos discutindo como seriam os royalites, perdemos uma janela de tempo que não volta mais”.
O analista da XP Investimentos destaca que o Brasil descobriu a camada de pré-sal em 2006 e solicitou um bloco apenas em 2010. “Se tivessem licitado na época, quando o barril estava na casa de US$ 100, estaríamos recebendo royalties e participações governamentais. As commodites são cíclicas, temos que aproveitar um momento de patamar elevado para vender concessões. Com o preço atual, o investimento estrangeiro é inibido”, afirma Placido.
Lei da Oferta e da Demanda
Além do brent abaixo de US$ 29, o contrato barril WTI [West Texas Intermediate] atingiu o menor nível em 12 anos nesta semana. O cenário é atribuído a três eventos principais, comandados pela lei da oferta e da demanda: 1) alta oferta de países da OPEP, liderada pela Arábia Saudita, e os Estados Unidos atuando como novo mercado exportador; 2) volta do Irã, detentor da quarta maior reserva do mundo, ao mercado após a revogação das sanções internacionais; e 3) baixa demanda, diante da desaceleração chinesa. Em suma, um superabastecimento.
“Tudo depende da Arábia Saudita, que a partir de 2014 criou um movimento de baixa para prejudicar os produtores de xisto dos Estados Unidos, que precisam de no mínimo US$ 80 por barril para ter rentabilidade. O país começou a aumentar a produção acima do nível da demanda”, afirma Conde, da WhatsCall.
A Agência Internacional de Energia (AIE) alarmou o mercado na terça-feira (19) ao afirmar que prevê novas quedas no preço dacommodity, que pode chegar à casa de US$ 10 por barril. A agência aponta que o mercado terá de absorver a produção extra do Irã, que deve aumentar em 300 mil barris por dia no final do primeiro trimestre. A projeção da AIE é que, pelo terceiro ano seguido, a oferta excederá a demanda em 1 milhão de barris ao dia.
A perspectiva de lucros no pré-sal pode inibir o investimento para produzir em novos campos da região. No entanto, nas áreas onde a produção já está em andamento, o custo é menor do que o previsto pela estatal, o que para Lavinia Hollanda, da FGV, é “uma boa notícia”. Em 2015, o Brasil produziu 2,1 milhões de barris por dia de petróleo, e os poços do pré-sal respondem por um quarto da produção total. Segundo a Petrobras, a extração de US$ 8 por barril é inferior à média das grandes petrolíferas mundiais. Lavinia lembra, no entanto, que o preço do petróleo segue um “passeio aleatório, errático, difícil de prever, e a queda de investimentos têm um impacto de longo prazo, são sentidos lá na frente”.
Fonte: Época






