Pressão dos EUA ameaça plano global de descarbonização do transporte marítimo
O setor marítimo global se aproxima de uma virada histórica. Em outubro, a IMO (Organização Marítima Internacional) deve formalizar o plano de descarbonização que prevê emissões líquidas zero até 2050. Mas o processo, que já mobiliza empresas brasileiras como a Transpetro, enfrenta forte resistência dos Estados Unidos, cujo governo ameaça retaliar países que apoiarem a medida.
As regras da IMO e os impactos no setor
A IMO aprovou em abril um acordo ambicioso para reduzir drasticamente as emissões do transporte marítimo internacional, responsável por cerca de 3% do total global de CO₂. O plano prevê a obrigatoriedade de padrões globais de combustível e a implementação de um mecanismo de precificação de gases de efeito estufa.
Entre as metas definidas está a exigência de que combustíveis com emissão zero ou quase zero representem ao menos 5% da energia usada pelo setor até 2030, com o objetivo de atingir 10%. As regras se aplicam a embarcações com arqueação bruta acima de 5.000 toneladas, que respondem por 85% das emissões do setor.
O plano deverá ser adotado formalmente em outubro e entrar em vigor em 2027, impondo desafios técnicos e financeiros à frota global. Entre as medidas necessárias estão retrofitting de embarcações existentes, uso de biocombustíveis e construção de novos navios com tecnologias mais eficientes.
Reações da indústria e adaptação brasileira
No Brasil, empresas já se movimentam para atender às exigências. A Transpetro, por exemplo, lançou em 2024 o programa TP 25, que prevê renovação e ampliação da frota do Sistema Petrobras com embarcações mais eficientes e preparadas para operar com combustíveis alternativos.
Em palestra recente na Fiesp, o gerente executivo Raildo Viana destacou que “a maior parte dos navios novos, entre cinco e nove anos de uso, não atende às normas da IMO”. Segundo ele, a solução passa por investimentos maciços, seja em modernização, seja na construção de novas embarcações já adaptadas às exigências.
Além da pressão regulatória, há também a pressão comercial. Grandes marcas globais, especialmente aquelas comprometidas com cadeias de suprimentos sustentáveis, já exigem de parceiros e fornecedores o uso de modais de transporte menos poluentes. Isso significa que, mesmo sem unanimidade na IMO, a adaptação se tornará inevitável para garantir competitividade no comércio internacional.
Pressão política e cenário internacional
Apesar do avanço técnico e da adesão de vários países, o cenário político ainda é incerto. O governo de Donald Trump já se posicionou contra o plano da IMO. Em carta assinada por secretários de Estado, Comércio, Energia e Transportes, Washington afirmou que as regras “beneficiariam a China” ao encarecer combustíveis e impor barreiras às frotas atuais.
Os EUA ameaçaram buscar apoio de outros países para bloquear a medida e não descartaram retaliações comerciais contra nações que a apoiarem. Essa postura abriu um impasse diplomático, embora analistas avaliem que a tendência é de aprovação do plano pela maioria dos membros da IMO.
O embate reflete um desafio maior: conciliar os compromissos ambientais de longo prazo com os interesses econômicos e estratégicos de potências globais. Enquanto isso, países como o Brasil se preparam para um futuro em que a sustentabilidade no transporte marítimo deixará de ser opcional para se tornar parte central das cadeias logísticas globais.
Fonte: Defesa em Foco






