Marinha testa novas tecnologias de guerra e cibersegurança na UNITAS 2025
Durante a UNITAS 2025, o maior exercício naval multinacional do mundo, a Marinha do Brasil colocou à prova sistemas avançados de armas e módulos de cibersegurança ao lado de 25 nações. Embarcada na Fragata Independência, com helicóptero Super Lynx e um destacamento de Mergulhadores de Combate, a tropa brasileira participou de testes reais de comunicações, ataques simulados e disparos com munição real, explorando novos padrões de defesa digital e interoperabilidade militar.
Com cerca de 8 mil militares reunidos, a Operação UNITAS reafirma o papel do Brasil como ator relevante na segurança marítima internacional e no avanço da ciberdefesa naval, tema que vem ganhando centralidade nas doutrinas de defesa contemporâneas.
Testes cibernéticos e sistemas de armas em operação real
A UNITAS 2025 foi realizada nas bases navais de Mayport (Flórida), Camp Lejeune (Carolina do Norte) e Norfolk (Virgínia), reunindo 18 navios, dois submarinos e o porta-aviões USS Harry S. Truman. Durante o exercício, a Marinha do Brasil concentrou esforços em dois eixos estratégicos: o aprimoramento da defesa cibernética e o emprego de armamentos em cenários de guerra simulada.
A bordo da Fragata Independência, a equipe brasileira executou simulações de guerra eletrônica, guerra antissubmarino e operações anfíbias, empregando sistemas de sensores e comunicações criptografadas. Foram conduzidos testes de resiliência de rede, bloqueio de interferências externas e integração de dados em tempo real entre unidades navais multinacionais.
De acordo com a Força, os resultados desses testes poderão ser replicados no futuro com tecnologia desenvolvida pela indústria nacional de defesa, contribuindo para autonomia estratégica e transferência tecnológica.
Ciberdefesa e o novo campo de batalha marítimo
A especialista em geopolítica e defesa Isadora Brizola (UFF) avalia que a inclusão de módulos de cibersegurança naval na UNITAS representa uma mudança estrutural na doutrina de defesa marítima.
Brizola observa que falhas cibernéticas podem ter impacto estratégico comparável à perda física de um navio, e que o domínio sobre técnicas de defesa digital e sistemas redundantes é agora tão importante quanto o poder de fogo convencional.
O desafio é multidimensional: além da complexidade técnica, há o vácuo jurídico sobre o que configura um “ataque digital armado” conforme a Carta da ONU. O Tallinn Manual 2.0, referência no tema, ainda não define com precisão se um ataque cibernético em ambiente marítimo pode ser enquadrado como uso da força, criando zonas cinzentas de responsabilidade e retaliação.
A UNITAS, nesse contexto, mostra que a próxima guerra naval pode começar com um clique — e não com um torpedo.
Alianças, riscos e autonomia estratégica
Além da dimensão técnica, a UNITAS 2025 reafirma o valor da cooperação internacional na segurança marítima. A presença de 25 países — entre eles Brasil, EUA, Colômbia, Chile, Peru e Espanha — demonstra o esforço de integração das Américas na defesa do Atlântico e na luta contra ameaças transnacionais, como pirataria, contrabando e pesca ilegal.
Mas a interoperabilidade também revela desafios diplomáticos e tecnológicos. Parte dos sistemas empregados nos exercícios é propriedade de fabricantes estrangeiros, o que cria dependência em relação a licenças de uso, treinamento e manutenção.
Especialistas em relações internacionais afirmam que o Brasil precisa equilibrar cooperação e autonomia: participar de exercícios multilaterais sem comprometer sua liberdade de decisão estratégica. Nesse sentido, a UNITAS é também um laboratório de diplomacia militar, onde se mede não apenas o poder de fogo, mas a capacidade de o país proteger seus próprios interesses em um ambiente de alianças assimétricas.
Importância da UNITAS 2025 para o Brasil
A UNITAS 2025 reafirma o papel do Brasil como protagonista no Atlântico Sul, consolidando a Marinha como uma das forças navais mais capacitadas do hemisfério sul. O aprendizado obtido vai além das manobras e da interoperabilidade: trata-se de um investimento em soberania tecnológica, em capacidade de dissuasão e em diplomacia de defesa.
Ao combinar tecnologia, treinamento conjunto e cibersegurança, o país avança na direção de um novo paradigma estratégico — onde o oceano digital se torna tão decisivo quanto o oceano real.
Fonte: Defesa em Foco






