Hospital de câncer no Rio tem calor, sujeira e falta de remédios e salários
Pacientes com câncer do Hospital Mário Kröeff, na Penha, Zona Norte do Rio, têm sofrido com a falta de medicamentos necessários ao tratamento e quimioterapia. Além disso, a unidade enfrenta falta de limpeza e greve de funcionários, que afirmam não receberam salário desde dezembro.Apenas o segundo andar da internação e a quimioterapia seguem funcionando – ainda assim com problemas.
Todos os pacientes estão internados no segundo andar, onde não há distinção entre aqueles que estão em processo pré ou pós-operatório, ou que estejam em tratamento contra alguma infecção. Em pleno verão carioca, o calor no corredor e nos quartos é sufocante. Só alguns ventiladores ligados amenizam a sensação contínua de incômodo.
A copeira Telma Cristina Santos da Rocha, de 73 anos, já tratou na unidade um câncer no seio. Ela voltou ao Mário Kröeff porque quebrou o fêmur. Internada dia 16 de janeiro, desde então a paciente espera por uma simples avaliação para receber tratamento, segundo ela.
Telma passa os dias deitada, com um travesseiro entre as pernas. Ela tem dificuldade para mudar de posição e não consegue ficar em pé. Para ela, o sofrimento maior é enfrentar as dores.
“As enfermeiras me dão injeções para melhorar a dor, mas eu ainda sinto muita dor. E não saio da mesma posição. Não dá para viver assim”, afirma. A idosa chora e reclama bastante cada vez que tem que se mexer.
A irmã de Telma, Tânia Regina Santos de Souza, é quem a acompanha na maior parte do tempo. Ela conta que a família já perdeu a oportunidade de transferir Telma para o Hospital Salgado Filho porque o Mário Kröeff teria alegado não ter um médico disponível para acompanhar a idosa durante o trajeto, nem ambulância disponível. Da janela do quarto, porém, é possível ver três ambulâncias nos fundos da unidade.
“Eles aqui não têm recurso e também não resolvem o problema dela para mandar para outro hospital. Ela fica a noite toda sentindo dor por causa do fêmur. Ela está com o corpo todo roxo de tanta injeção que recebe, mas não resolvem o problema”, afirmou Telma, enquanto banhava a irmã.
A situação também é dramática para Rosângela Fernandes dos Santos, que está no hospital há duas semanas acompanhando a sogra do filho. Maria de Fátima Rosário sofre de um câncer de mama em estágio avançado. A idosa precisa ser operada para a retirada dos dois seios, mas ainda não teria passado pela cirurgia por falta de equipe médica, ambulância e vaga para fazer o procedimento.
Com dificuldade de respirar, Maria de Fátima está com dois grandes buracos inflamados no seio e um outro na axila, ambos do lado esquerdo. Ela não consegue ir ao banheiro sozinha e usa fraldas. Apesar da dor e da dificuldade, a todo momento fala que quer lutar pela vida.
Rosângela conta que foi abordada por uma médica que pretendia dar alta a Maria. Segundo ela, outros pacientes, visivelmente enfermos, já foram liberados de outros setores do hospital.
“Os funcionários que ainda estão aqui nos tratam muito bem, apesar do lugar não ter condições. Acho que eles têm pena. Eu não durmo à noite porque não dão uma posição sobre possível transferência para um lugar onde ela possa fazer a cirurgia”, afirmou Rosângela.
Um familiar de outra paciente internada em decorrência de uma infecção, que optou por não se identificar, conta que prefere que ela seja liberada do que permanecer no Mário Kröeff. O acompanhante acredita que a situação pode se agravar devido à situação da unidade.
Ainda assim, os pacientes são unânimes em agradecer à equipe de enfermeiros e técnicos de enfermagem que ainda permanecem trabalhando. Eles ressaltam o profissionalismo dos funcionários.
Fonte: G1






