Cluster Naval de Águas Interiores do Brasil quer destravar navegação fluvial e modernizar hidrovias
Em um país que abriga cerca de 12% da água doce superficial do planeta, a navegação fluvial ainda é tratada, muitas vezes, como promessa que não chega ao tamanho do seu potencial.
Foi com esse diagnóstico que, nesta quinta-feira (26), na capital federal, nasceu oficialmente o Cluster Naval de Águas Interiores do Brasil, iniciativa inovadora no país ao buscar organizar, de forma estruturada, a cadeia produtiva e institucional ligada à chamada “Economia dos Rios”.
O objetivo declarado da entidade é ambicioso: transformar um modal subutilizado em vetor estratégico de desenvolvimento logístico, regional e ambiental, enfrentando entraves que vão de burocracia e insegurança regulatória até gargalos de infraestrutura, falta de mão de obra especializada e escassez de crédito.
Para o diretor-presidente da entidade, Almirante Flávio Augusto Viana Rocha, a proposta é enfrentar, de forma integrada, os gargalos regulatórios, ambientais, logísticos, educacionais e financeiros que hoje travam a navegação interior: “O Cluster dos Rios nasce para ser uma instância de convergência: colocar Estado, setor produtivo e academia na mesma mesa e transformar potencial hidroviário em agenda concreta de desenvolvimento.”
Criada para fomentar a interação organizada entre entes públicos e privados ligados à navegabilidade, à pesquisa, à ciência e tecnologia, à inovação, ao empreendedorismo e também à Economia de Defesa aplicada ao ambiente aquaviário interior, o Cluster dos Rios teve como fundadores três gigantes do mundo marítimo: Amazônia Azul Tecnologias de Defesa S.A; AcquaWay Tecnologia Ltda; e Sociedade Amigos da Marinha do Brasil, além de ter a Fundação de Estudos do Mar em seu Conselho Consultivo.
O material de apresentação da iniciativa faz um inventário dos principais obstáculos observados na navegação fluvial. A lista é conhecida de quem vive o setor, mas raramente aparece organizada no mesmo mapa: complexidade regulatória e burocrática, com sobreposição de competências e normas desatualizadas; pressões ambientais, como poluição e assoreamento (com impacto direto no calado das vias interiores navegáveis); infraestrutura insuficiente, incluindo terminais defasados, conexões intermodais precárias e dragagens atrasadas; além de déficit de qualificação profissional e dificuldade de acesso a financiamento para frota e obras.
Um ponto prático, destacado no material, é a deficiência de auxílios à navegação, como balizamento e sinais luminosos, que impede operações contínuas em muitos trechos: sem isso, há rios que “param” à noite, limitando produtividade e encarecendo a logística.
Ainda assim, a avaliação central do documento é de que o problema não está na ausência de rios com pré-requisitos à navegação, mas na falta de coordenação e prioridade. O Brasil, com bacias como a Amazônica, Paraná, São Francisco, Tocantins-Araguaia e as do Atlântico, tem uma malha natural que poderia sustentar cargas de grande volume com maior eficiência energética e menor emissão de CO₂ quando comparada a outros modais, como o rodoviário ou ferroviário.
O Cluster dos Rios nasce com uma agenda organizada e metas ambiciosas, divididas em pilares:
1. Diálogo governamental – A meta é ser uma voz qualificada junto a órgãos e instâncias públicas, atuando por simplificação regulatória, harmonização de normas e defesa de investimentos consistentes em infraestrutura hidroviária e portuária.
2. Promoção da inovação e sustentabilidade – O foco é fomentar P&D&I em engenharia naval e geociências, estimular soluções de propulsão mais limpa (incluindo alternativas híbridas/elétricas e biocombustíveis) e incentivar melhores práticas ambientais a bordo e em terminais.
3. Capacitação e desenvolvimento humano – O objetivo é atacar a carência de profissionais – de comandantes e mestres a engenheiros, operadores e técnicos – por meio de parcerias com universidades, escolas técnicas e o sistema “S”, com formação alinhada à demanda real do setor.
4. Fomento ao investimento e atração de recursos – A Associação prevê diálogo com bancos e instituições financeiras para criar linhas de crédito específicas, de longo prazo, e promover o setor como oportunidade de negócio com retorno social e ambiental.
5. Integração e sinergia setorial – A meta é formar um ecossistema de colaboração: fóruns, workshops e eventos para aproximar operadores, usuários, construtores navais, prestadores de serviço e empresas de tecnologia.
O foco da diretoria da entidade, em síntese, é construir uma estrutura permanente, não apenas para defender o setor em momentos de crise, mas para organizar uma agenda contínua de modernização das hidrovias, inovação tecnológica, qualificação profissional e atração de investimentos.
Fonte: Defesa Aero Naval






