Cancelamento de refinaria frustra expectativa no ‘Eldorado’ do Ceará

Cancelamento de refinaria frustra expectativa no ‘Eldorado’ do Ceará

Sem Premium II, preço de imóveis despenca e comércio começa a demitir

O cancelamento da Refinaria Premium II pela Petrobras frustrou as expectativas de moradores da região e empresários locais. O projeto, que teve sua pedra fundamental lançada pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em 2010, não sairá mais do papel diante do cenário de queda do preço de petróleo e de impacto da corrupção, investigada na Operação Lava-Jato, nos cofres da estatal. O cenário desfavorável levou a Petrobras a rever suas projeções de investimento.

A Premium II seria instalada no Complexo Industrial e Portuário do Pecém. O local era considerado uma espécie de novo Eldorado e vinha atraindo trabalhadores de todas as regiões do país. Com o anúncio do projeto, o fluxo de pessoas em busca de oportunidades cresceu significativamente, segundo o gerente da unidade do Sistema Nacional do Emprego (Sine/IDT) no Pecém, Francisco Carlos Pereira Costa. De acordo com ele, a previsão era que fossem criadas 90 mil vagas, o que gerou na unidade uma média de 300 atendimentos diários.

Ele conta que a frustração com o cancelamento do empreendimento da Petrobras na região atingiu tanto os trabalhadores quanto os investidores:

— Toda esta mão de obra que foi atraída para cá investiu em qualificação, que não é barata, principalmente na área de petróleo e gás. Já os investidores, muitos construíram pousadas, restaurantes, entre outros negócios.

Queda no faturamento

As expectativas frustradas são compartilhadas também por donos de imóveis, hotéis, restaurantes e comerciantes, que investiram e ampliaram seus estabelecimentos com a perspectiva de crescimento superior a 50% este ano. A realidade, porém, foi marcada por demissões e queda no faturamento.

O setor imobiliário é outro que teve que repensar suas ações para 2015. O gestor comercial da empresa FortCasa Loteamentos, Mauro Martins, de 38 anos, conta que deveriam ser lançados 2 mil lotes no Pecém, entretanto somente 500 unidades serão comercializadas.

— Temos uns quatro loteamentos grandes na região, um deles é o Paraíso do Pecém, que nós tivemos que adiar o lançamento por conta do cancelamento da Refinaria, o que reduz o nosso potencial de público — disse Martins.

Os cancelamentos foram feitos em janeiro último, sem aviso prévio.

Sobre a questão, o governo do estado afirma estar conversando com o governo federal, por meio da Petrobras, e ,ao mesmo tempo, também tem procurado investidores estrangeiros para a refinaria.

Os principais gastos com a refinaria foram ligados à infraestrutura. A área foi adquirida pelo governo do Estado, na gestão do ex-governador Cid Gomes, por R$ 126 milhões. Os terrenos ainda não foram devolvidos pela Petrobras, que, segundo fontes do governo, já sinalizou que iria devolver.

O projeto já teria custado R$ 657 milhões aos cofres do estado do Ceará, em obras de infraestrutura para a instalação da refinaria, no período de 2009 a 2014.

Procurada, a Petrobras disse que não iria se manifestar.

Na semana passada, o presidente da estatal, Aldemir Bendine, comentou o assunto durante audiência na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado. Segundo ele, ao menos nos próximos cinco anos a Petrobras não terá capacidade de fazer uma refinaria no Ceará e outra no Maranhão, local onde era prevista a instalação da Refinaria Premium I.

Segundo Bendine, uma das alternativas para compensar o estado do Ceará seria a transferência do parque de tancagem de combustíveis de Mucuripe, em Fortaleza, para o Pecém. Seria uma alternativa para aumentar a arrecadação e compensar o estado pelas perdas com o cancelamento do projeto.

Fonte: Thays Lavor / Especial para o Globo