Bahia: ‘Pânico de vir trabalhar’: funcionários do ferryboat relatam agressões e ameaças
Funcionários do sistema ferryboat reunidos em protesto no terminal São Joaquim nesta terça-feira (31) alegam estar sendo vítimas de ameaças constantes no modal por parte de passageiros e cambistas. “O sentimento do funcionário da Internacional Travessias [que administra o ferry] é que você trabalha coagido”, desabafou o comandante Reginaldo Zorante, um dos líderes do Sindicato dos Mestres de Cabotagem Arrais Regionais dos Estados Bahia e Sergipe (Sindmar-BA).
Segundo Zorante, que trabalha no ferryboat há oito anos, há muitos funcionários que tiveram que recorrer a medicamentos e sessões de psicoterapia devido a situações de medo. “Já estão tendo pânico de vir trabalhar. O cambista chega aqui, mostra a arma [aos atendentes nos guichês] e ainda diz: ‘Eu sei onde você mora e o ônibus que você vai pegar. Se você não me vender as passagens, eu te pego depois’”, contou o comandante.
“A bordo, diversas vezes, quando recebem alguma orientação de que devem estacionar seu carro em determinado lugar, por causa da estabilidade do navio, as pessoas mostram a arma”, relembrou ele. Para a categoria, os últimos casos, ocorridos no terminal Bom Despacho, foram a gota d’água: no domingo (29), dois passageiros derrubaram e chutaram um funcionário e, na segunda (30), um usuário teria ‘jogado’ o carro em cima de outro colaborador.
Procurada, a Polícia Civil afirmou que, para localizar as ocorrências, precisaria de mais informações, como número do boletim ou nome completo de algum envolvido, mas a reportagem não teve acesso a esses dados.
Caso a Internacional Travessias Salvador (ITS) não apresente uma medida para reforçar a segurança dos trabalhadores, haverá uma paralisação no dia 15, véspera do Carnaval. “Se eles [empresa] não vão investir em segurança e nós estamos sendo ameaçados de morte e agredidos, não tem como operar”, declarou Zorante.
Segurança própria
Em nota, a ITS informou que o sistema tem segurança própria nos terminais. “A empresa tem equipe de segurança que atua dentro das instalações. Ainda assim, devido ao número de pessoas em momentos de maior demanda, vem realizando esforços para ampliar a segurança nas áreas dos terminais, inclusive com solicitação formal à Polícia Militar, que nos atende, na medida das possibilidades, dentro da parceria existente”, diz um trecho da nota.
A concessionária declarou também que a agressão foi provocada por pessoas que estavam alcoolizadas, o que seria um caso ‘de polícia’. Além disso, a empresa afirmou ter solidariedade pelos trabalhadores da linha de frente e que atua para garantir a segurança dos profissionais. “Estamos em contato frequente com o sindicato, inclusive solicitando seu apoio, para entendimento e soluções que contemplem as questões aqui mencionadas.”
Ainda de acordo com Internacional Travessias, o funcionamento do sistema na manhã desta terça-feira (31) foi impactado pela manifestação dos funcionários e, adicionalmente, a operação conta hoje com três ferries. “Com esse número de embarcações, há atraso em algumas saídas e a viagem pode não ocorrer de forma pontual”, admitiu a ITS.
Os manifestantes, porém, negam que tenham contribuído para o referido atraso. “Eles receberam nove navios, e hoje só estão operando com três. Então, não tiveram navio pra fazer o horário das 7h”, relatou Reginaldo Zorante. A intenção dos trabalhadores, disse ele, era fazer uma paralisação às 8h, mas acabaram desistindo após pedidos de passageiros que já esperavam há horas pelo embarque para o terminal Bom Despacho.
“Como alguns usuários do sistema vieram até nós mostrando pessoas idosas e com deficiência que já estavam há muito tempo na fila e caminhões com perecíveis, nós achamos melhor liberar o horário das 8h”, justificou o líder sindical.
Agerba diz estar tomando providências
Procurada pela reportagem, a Agência Estadual de Regulação de Serviços Públicos de Energia, Transportes e Comunicações (Agerba) falou que fiscaliza permanentemente a prestação do serviço, tanto nos procedimentos administrativos como operacionais. “A Diretoria da Agência está tomando todas as medidas cabíveis para que a empresa operadora do sistema regularize a prestação dos serviços à população”, comunicou.
A nota diz ainda que a Agerba tem solicitado reforço no policiamento ostensivo no entorno dos terminais hidroviários e oficiado a Internacional Travessias Salvador, para que, em caráter de urgência, aumente o efetivo de segurança dentro dos terminais.
Em novembro último, a agência notificou a concessionária Internacional Travessias após usuários terem reclamado do não cumprimento de horários.
MP marca audiência para discutir descumprimentos contratuais
O Ministério Público estadual (MP) informou que uma audiência foi agendada para a segunda semana de fevereiro com o intuito de discutir, de forma consensual, descumprimentos contratuais, “que podem estar ensejando a superlotação e a má prestação dos serviços, e buscar soluções”, afirmou, por meio de nota, o MP-BA.
Também serão debatidas, na audiência, questões relacionadas ao cumprimento de recomendações feitas pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE-BA) à Agerba, como a elaboração de projeto e a execução dos serviços de reformas e requalificações das instalações e das edificações dos terminais Bom Despacho e São Joaquim.
Fonte: Correio






