Fragmentação da governança preocupada entes na privatização do canal de acesso de Santos, revelou consulta

Fragmentação da governança preocupada entes na privatização do canal de acesso de Santos, revelou consulta

Entre as principais preocupações dos participantes da audiência pública Antaq 02/2026 sobre a concessão do canal de acesso do Porto de Santos está a questão de como chegar à governança entre a autoridade portuária, o concessionário e os arrendatários de terminais.

A audiência pública foi realizada em 1º de setembro, na sede da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), em Brasília, e reuniu representantes da Antaq, da Autoridade Portuária de Santos, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Secretaria de Portos do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) além de participantes do setor.

Já a consulta pública sobre o tema foi novamente prorrogada até 29 de setembro e está prevista uma reunião participativa no dia 8 de outubro. Igor de Paula, secretário especial de concessões e licitações da Antaq, ressaltou que as sucessivas prorrogações da consulta pública visam aumentar a discussão sobre o projeto. “A sociedade vem exigindo mais prazo para discutir esse projeto, que é tão estratégico. Fizemos três prorrogações e entendemos que agora devemos concluir, para entrarmos na fase de revisão do projeto”, sugeriu o secretário da Antaq. Ele destacou a necessidade de aprofundar alguns pontos da modelagem do projeto de concessão.

“Há pontos que precisam ser mais bem elucidados como a necessidade do Guia Corrente que está como obrigações de estudo e avaliação se deveria ser transformado em obrigações de investimento, a taxa de assoreamento, e a questão da governança envolvendo a autorização de entrada e saída do canal, um ponto chave que precisa ser muito bem esclarecido no contrato. O princípio é o mesmo: manter com a autoridade portuária essa função estratégica e com a construção a função mais operacional”, resumiu de Paula.

Alexandre Florambel, diretor-relator da Antaq, abriu a audiência liberando que há muitas dúvidas devido ao fato de ser um projeto bastante complexo. “Há questionamentos quanto à modelagem econômico-financeira e aos aspectos técnicos. Isso é natural, dada a magnitude do projeto e a importância do Porto de Santos, gerando inquietações, receitas e expectativas”, resumiu o relator.

Bruno Neri, diretor de novas outorgas portuárias da Secretaria de Portos, destacou o caráter desafiador do projeto, que prevê a concessão por 25 anos do canal de acesso, dragagem e aprofundamento do calado para 17 metros. “Todos sabem da grandeza Porto de Santos para o Brasil e a América Latina. O projeto um contrato de 25 anos com a possibilidade de realizar estudos para até 18 metros. Entendemos que ele oferece mais previsibilidade para o Porto de Santos e vai desonerar a autoridade portuária. O projeto vem sendo planejado há muito tempo e a Secretaria se apresenta uma revisão no que for mais adequada, mas não podemos atrasar o projeto”, sinalizou Neri.

Cristina Szegedi assessora técnica da superintendência de engenharia da APS afirmou que o canal de acesso é o ativo mais crítico do porto por isso exige tanto zelo. Ela afirmou que há duas preocupações pontuais para a APS: a fragmentação da governança com a inclusão de mais um ente, a entrega do canal; e a questão dos investimentos.

“Trazer uma Parceria Pública Privada (PPP) é o caminho. O público e o privado não funcionam sozinhos, mas precisamos da união do melhor dos dois mundos. O modelo que defendemos é manter a governança do canal com a autoridade portuária pública e trazer do privado o que ele tem de melhor, que é a celeridade dos investimentos e a operação do serviço”, defendeu Szgedi. Ela observou ainda que a APS tem uma carteira de investimentos em dragagem que dá conforto para que a modelagem possa ser discutida sem pressa.

Ian Ramalho Guerriero, superintendente do BNDES, destacou a experiência do banco na estruturação de projetos de infraestrutura, ressaltando que o projeto de concessão foi consolidado e está em consulta pública. Eduardo Costa, chefe de departamento do BNDES, apresentou o projeto de concessão parcial da cana de acesso inicialmente de 25 anos podendo ser prorrogada por até 70 anos e prevendo investimentos de R$ 688,1 milhões em duas fases: R$ 391,9 milhões até o quinto ano e R$ 296,2 milhões do sexto ao 25º ano.

O contrato prevê dragagem de aprofundamento e de manutenção; sinalização náutica; levantamentos hidrográficos; implantação de VTMS; operação de tráfego; estudos para melhoria da infraestrutura; e gestão ambiental. O objetivo é melhorar a infraestrutura com investimentos voltados para a manutenção da profundidade operacional do canal, bacia de evolução e berços de atração pública.

Daniel Mota, professor da Poli-USP e coordenador de um grupo de pesquisa focado em infraestrutura, destacou à  Portos e Navios  que quando se privatiza o canal de acesso privatiza-se a porta de entrada do porto e há a preocupação sobre como será a gestão da governança. “Se houver investimento em dragagem em um berço, ele ficará inoperante? Alguém ouvirá o terminal? É preciso saber como será compartilhado o cronograma entre o ente privado e a autoridade portuária”, ressaltou Mota.

Há ainda questões relacionadas ao reequilíbrio financeiro, pois o volume arrastado previsto na licitação é bem inferior ao que a experiência se mostra como necessária para chegar aos 17 metros. “O que a Antaq e o BNDES esclareceram é que o alvo da dragagem não será volume, e sim, nível de serviço. Haverá etapas para garantir a entrada de navios maiores. A proposta é que primeiro se chegue a 15 metros para depois atingir 16 me, só depois, aos 17 m”, disse Mota.

Ele destaca que não adianta apenas arrastar, é preciso mexer na geometria do canal. Outra questão é o túnel em construção. É preciso conciliar os cronogramas. “A autoridade portuária já está fazendo um grande esforço para programar quando o canal fecha, qual o período de interrupção, quem será afetado, quais movimentações serão mantidas. Coloque isso nas mãos de um ente privado que está preocupado em maximizar a receita é complicada”, afirmou Mota.

Fonte: Portos e Navios