Mundo caminha para era do ‘hidrogênio mercantil’, aponta professor

Mundo caminha para era do ‘hidrogênio mercantil’, aponta professor

O mercado do hidrogênio (H2), que hoje basicamente é consumido nos locais onde o insumo é produzido, está em franca expansão global, caminhando para uma etapa de comercialização entre países e transporte de longas distâncias. A avaliação é do professor titular da Coppe/UFRJ e presidente da Associação Brasileira do Hidrogênio (ABH2), Paulo Emílio de Miranda, que ressalta que, há mais de 20 anos, o Brasil participa de iniciativas ligadas a essa indústria. Durante um debate na última semana, ele destacou que esse é um movimento relativamente novo e citou dois casos recentes no mundo envolvendo os produtos ligados a essa cadeia.

A empresa CF Industries, da Louisiana, nos Estados Unidos, exportou 28,5 quilotons de amônia para a Europa produzida a partir do gás natural com sequestro de carbono. A logística, feita no final de 2025, foi considerada o primeiro comércio internacional desse tipo já realizado até então e equivale a 5 quilotons de hidrogênio. No início de 2026, a Envision Energy, da China, exportou pela primeira vez amônia eletrolítica para Ulsan, na Coreia do Sul.

“Partimos agora para a época do hidrogênio mercantil, que será comercializado entre países. (…) Precisamos da amônia para processos industriais, para o setor agroindustrial, mas temos muitas outras opções”, disse Miranda, na última semana, no evento Orange Dialogues, no Rio de Janeiro (RJ), promovido pelo Consulado Geral dos Países Baixos no Rio de Janeiro.

Combustíveis sustentáveis
Miranda destacou que o Brasil já conta com uma produção de CO2 de altíssima qualidade a partir da indústria do etanol e de combustíveis sustentáveis. A avaliação é que esse CO2 pode ser usado para algo que vai além da amônia, que são outros combustíveis que o país pode produzir utilizando o hidrogênio.

A previsão feita pela Agência Internacional de Energia (AIE) é que, em 10 anos, o mundo deve aumentar em quatro vezes a produção de combustíveis sustentáveis, que incluem biocombustíveis líquidos, hidrogênio, biogases, amônia e os combustíveis sustentáveis.

Miranda observa que existem soluções sendo buscadas para transporte pesado, a fim de complementar a oportunidade para a amônia e combustíveis sustentáveis. Ele citou que em vários países, inclusive no Brasil, existem diferentes projetos em curso para caminhões, ônibus e trens movidos a hidrogênio.

O presidente da ABH2 acredita que a chave da questão é a neutralidade tecnológica, diversificando os caminhos para produção e utilização do hidrogênio. Ele percebe que a Europa está entendendo e caminhando nesse sentido, o que já vem sendo desenvolvido no Brasil há mais tempo. “Produzir hidrogênio no Brasil tem que ser por rotas variadas, buscando matérias-primas e fontes de energias locais melhores e que tragam condição melhor de custo, que é fator preponderante para o mercado”, analisou Miranda.

O professor considera que o protagonismo brasileiro nesse setor vem de algum tempo atrás, considerando as primeiras parcerias e estratégias lançadas no começo dos anos 2000, ao passo que o ‘boom’ de lançamento de estratégias nacionais para o hidrogênio no mundo ocorreu por volta de 2020.

Ele mencionou que, em 2003, o Brasil foi cofundador da IPHE (Partnership for Hydrogen and Fuel Cells in the Economy), parceria internacional que atualmente reúne 27 países e a União Europeia. Em 2005, o Brasil lançou sua primeira estratégia para o hidrogênio, que foi complementada recentemente com o programa nacional do hidrogênio e com as leis promulgadas em 2024.

Criada há 10 anos, a ABH2 tem mais de 100 empresas associadas de vários setores do Brasil, que já estão na área do hidrogênio ou que estão se direcionando para ela. Há cerca de dois anos, a associação realizou trabalho com o governo dos Países Baixos de mapeamento desse setor no Brasil.

Atualmente, finaliza um projeto de dois anos de duração para o governo do Reino Unido que começou no início de 2025. Segundo Miranda, os resultados estão chegando a resultados concretos. “Esses trabalhos têm trazido um aumento do conhecimento desse setor da indústria brasileira, não só tecnológico, mas da regulação dessa área”, ressaltou o presidente da ABH2.

Fonte: Portos e Navios.