Marinha celebra 40 anos da primeira invernada na Antártica
Há 40 anos, pesquisadores e militares da Marinha do Brasil (MB) permaneceram, pela primeira vez, na Estação Antártica Comandante Ferraz (EACF) durante todo o inverno antártico. Desde então, a presença brasileira no continente passou a incluir invernadas regulares, garantindo a continuidade das pesquisas científicas. Quatro décadas após aquela primeira permanência, marcada por temperaturas inferiores a 20 graus negativos e pelo isolamento da estação, uma comitiva retornou à Antártica nesta semana para celebrar o marco histórico da participação do Brasil no continente.
Em 1986, o então Capitão-Tenente (Fuzileiro Naval) José Henrique Salvi Elkfury, atualmente Contra-almirante (Fuzileiro Naval – Reserva) chefiou o Grupo-Base da primeira invernada brasileira na Antártica. Segundo ele, o maior obstáculo era desbravar o desconhecido de uma missão inédita para o País. “Essa preparação precisou ser muito bem-feita para que a execução ficasse mais fácil. E uma preparação em duas vertentes: logística de material e de pessoal”, recordou.
A presença, nesta semana, do Comandante da Marinha, Almirante de Esquadra Marcos Sampaio Olsen, do Contra-almirante (Fuzileiro Naval – Reserva) Elkfury e de representantes dos Ministérios da Defesa e da Ciência, Tecnologia e Inovação na Estação Comandante Ferraz, reforça a voz ativa do Brasil no continente. Sobre isso, a Secretária-Geral do Ministério da Defesa, Cinara Wagner Fredo, destacou que o Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR) representa um instrumento estratégico de inserção internacional.
Ele assegura uma presença qualificada do Brasil na governança da Antártica. Mais do que isso, é um investimento em pesquisa científica, especialmente nas questões climáticas, e reafirma o compromisso do País com o uso pacífico e sustentável de espaços estratégicos globais”, afirmou.
Desde que a EACF se transformou em um dos principais polos da ciência brasileira no exterior, o País também chancelou sua posição como membro consultivo do Tratado da Antártica, com direito a voz ativa nas decisões sobre o futuro do continente. Ao retornar à Estação, o Contra-Almirante Elkfury destacou a dimensão alcançada pelo Programa.
“Já passamos por momentos críticos, mas daquelas cinzas surgiu uma Fênix, que é essa estação maravilhosa. É emocionante perceber o quanto progredimos desde aquele início”, disse.
Sob a ótica da geopolítica, o Comandante da Marinha destacou que a presença brasileira no continente está alinhada à Estratégia Nacional de Defesa (END) e ao desenvolvimento científico nacional: “A END atribui como área prioritária de interesse do Estado brasileiro o entorno estratégico, que envolve a costa ocidental da África, a Antártica, o Caribe e a América do Sul. Mas há outras atribuições decorrentes de documentos de alto nível (…) em que a vertente de desenvolvimento científico-tecnológico é essencial, não só para uma maior autonomia na tecnologia de defesa, mas também para propiciar ao povo brasileiro melhores condições de prosperidade”, destacou o Almirante Olsen.
A visita das autoridades também reforça o caráter interministerial do PROANTAR, que integra Defesa, Ciência e Tecnologia em um esforço coordenado para produzir conhecimento estratégico. Para o Almirante de Esquadra Olsen, isso também motiva a mentalidade marítima nacional.
“Nós ainda temos uma sociedade pouco atenta para o uso do mar, e o Brasil é inviável sem o mar. As atividades marítimas têm se desenvolvido nos últimos anos de maneira exponencial, até pelo incentivo do Governo à construção naval e uma série de políticas públicas voltadas para o mar. Então, a presença das personalidades objetiva mais do que a Estação Antártica propriamente dita, permite ter um pouco da consciência marítima que estimo tão carente na sociedade brasileira”, analisou.
Ciência que navega: o protagonismo dos navios
Reconstruída e reinaugurada em 2020, após um incêndio em 2012, a estação abriga laboratórios modernos e infraestrutura para apoiar pesquisas de ponta em áreas que envolvam mudanças climáticas, oceanografia, biologia marinha, fisiologia, glaciologia e geociências. E se a EACF é o coração físico do PROANTAR, os navios da MB são suas artérias. Atualmente, o Programa conta com dois meios navais empregados no ambiente antártico: o Navio de Apoio Oceanográfico “Ary Rongel” e o Navio Polar “Almirante Maximiano”.
De acordo com o Comandante do Navio Polar “Almirante Maximiano”, Capitão de Mar e Guerra Carlos Eduardo Navazio de Oliveira da Silva, a atuação se divide em dois grandes eixos: logística e ciência.
Na área logística, somos responsáveis por prover a nossa Estação Antártica Comandante Ferraz de insumos de toda sorte, desde combustível a gêneros alimentícios, sobressalentes e maquinário, além de transportar para o Brasil equipamentos que necessitam de manutenção”, explicou.
Já no campo científico, os números demonstram a magnitude da contribuição naval: cerca de 40% da pesquisa científica brasileira realizada na Antártica ocorre a partir dos navios. “Especificamente, o ‘Almirante Maximiano’ concentra aproximadamente 80% dessa pesquisa embarcada”, destacou o Oficial.
Nos últimos dois anos, aproximadamente 300 pesquisadores passaram pelo navio polar, apoiando mais de 20 projetos científicos. A presença embarcada permite que a pesquisa brasileira ultrapasse os limites da estação e alcance áreas remotas do Oceano Austral, ampliando o alcance e a relevância dos estudos.
Por exemplo: durante a Operação que está em curso, o Navio cruzou o Círculo Polar Antártico e realizou pesquisas a mais de 400 milhas náuticas (cerca de 700km) da estação da Marinha.
Logística complexa em ambiente extremo
Operar na Antártica exige planejamento e confiabilidade. Entre abril e setembro, os navios passam por rigorosos períodos de manutenção preventiva e corretiva, garantindo elevado grau de prontidão antes do início da fase de verão das Operações Antárticas (OPERANTAR), realizada entre novembro e março. Além da robustez dos equipamentos — frequentemente em duplicidade para assegurar redundância —, os meios da Marinha são habilitados a navegar em áreas de gelo fragmentado, com espessura de até 40 centímetros, característica típica do verão antártico.
O ambiente, por si só, já traz um desafio enorme. É o continente dos extremos: o mais frio, mais seco e mais ventoso. Além disso, há grandes variações meteorológicas ao longo do mesmo dia”, ressaltou o Comandante Navazio.
Os períodos de permanência contínua no mar são longos. Na atual comissão, por exemplo, o “Almirante Maximiano” permaneceu, em determinada ocasião, por 47 dias ininterruptos no mar. Em outra, 44. Esse esforço logístico se soma à exigência psicológica imposta às tripulações, que atuam em ambiente confinado e inóspito por longos períodos.
Impacto para o Brasil
As pesquisas desenvolvidas no âmbito do PROANTAR têm impacto direto no território brasileiro. Estudos sobre circulação oceânica e atmosfera contribuem para o aprimoramento de modelos climáticos que influenciam previsões de eventos extremos no País. Pesquisas em biodiversidade e recursos marinhos ampliam o conhecimento sobre cadeias ecológicas que também afetam o Atlântico Sul.
Para o coordenador do Projeto COM-Antar, professor Ronaldo Adriano Christofoletti, a pesquisa realizada na Antártica tem reflexos diretos na economia e no bem-estar da população. “A ciência é a base da sociedade — da economia à saúde das pessoas. No Programa Antártico Brasileiro, estudamos como funciona a atmosfera em todos os seus níveis, as calotas polares, o oceano e a Amazônia Azul. A somatória dessas três coisas, por exemplo, regula o agronegócio brasileiro, as chuvas, e isso impacta na economia do País, assim como a economia impacta no bolso das pessoas. Se olharmos todas as áreas que uma sociedade necessita, a ciência está por trás. Ela salva vidas e traz qualidade de vida. Por isso devemos investir cada vez mais”, disse.
Já a coordenadora técnica do Programa de Pesquisa em Ciências Ambientais e do Mar do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) acredita que investir em pesquisa é ampliar a soberania do País. “Todo país que tem um sistema tecnológico avançado e pesquisa de qualidade consegue contribuir para o desenvolvimento de sua nação. Na medida em que desenvolvemos ciência e tecnologia de qualidade, deixamos de ser apenas consumidores de conhecimento e passamos a ser protagonistas no desenvolvimento nacional”, afirmou Margareth Alves Carvalho.
Assim, ao celebrar os 40 anos da primeira invernada, a Marinha não apenas rememora uma conquista histórica, mas reafirma o papel da Defesa como indutora do desenvolvimento científico nacional. A integração entre poder naval, comunidade acadêmica e ministérios consolida o PROANTAR como uma política de Estado — essencial para a soberania, a ciência e o futuro do Brasil.
Primeiro navio polar construído no Brasil
No ano passado, a MB realizou a tradicional cerimônia de batimento de quilha do Navio Polar (NPo) “Almirante Saldanha”, no Estaleiro Jurong Aracruz, no Espírito Santo — um marco simbólico que representa o início efetivo da construção da embarcação, posicionando um dos blocos principais que formam a “espinha dorsal” do navio e colocando uma moeda na estrutura correspondente à quilha, em uma tradição naval que simboliza sorte para o futuro da construção.
O NPo “Almirante Saldanha” será o primeiro navio polar construído no Brasil, com entrega prevista para 2026, e foi concebido para substituir o atual Navio de Apoio Oceanográfico “Ary Rongel” nas Operações Antárticas. A nova embarcação terá cerca de 103 metros de comprimento, autonomia de 70 dias e capacidade para 95 tripulantes, incluindo pesquisadores, além de tecnologias avançadas que permitirão maior segurança nas operações e mais eficiência no apoio logístico à Estação Antártica Comandante Ferraz.
A construção do navio já gerou cerca de 600 empregos diretos e 6 mil indiretos, além de trazer importantes ganhos para a indústria naval e a base tecnológica brasileira.
Fonte: Agência Marinha de Notícias






