Marinha do Brasil resgata mais de 690 vidas em operações de busca e salvamento em 2025
Era um dia de sol no Lago do Manso, em Mato Grosso. O cenário parecia ideal para um passeio em família, daqueles que começam sem pressa e trazem a promessa de tranquilidade. No entanto, com o aumento repentino da força do vento, que passou a formar ondas no lago, o que era lazer se transformou em uma luta pela sobrevivência. Após o naufrágio de uma embarcação, no final da tarde do dia 28 de dezembro de 2025, um pequeno herói de seis anos, Bernardo Mazzaron, que usava colete salva-vidas, conseguiu chegar sozinho a margem e pedir socorro, dando início a uma operação que salvou a mãe e o irmão, um bebê de apenas um ano.
Minutos após receberem a informação sobre o naufrágio, uma equipe composta por quatro militares da Capitania Fluvial de Mato Grosso, da Marinha do Brasil (MB), que realizava Inspeção Naval na região, iniciou as buscas, que se estenderam por mais de duas horas, adentrando na noite. Em meio à escuridão, agarrada a um pneu flutuante e com o bebê nos braços, Camila Porto Mazzaron, mãe de Bernardo, reuniu as últimas forças para gritar por socorro, até ser localizada e resgatada pelos militares da Capitania. “Foi um resgate emocionante, um verdadeiro milagre. O meu filho salvou a minha vida e a do irmão. Graças a Deus, os militares da Marinha estavam lá”, relembra, emocionada.
Histórias como essa ajudam a ilustrar o balanço de vidas salvas pela Marinha em 2025, ano em que a Força Naval resgatou 692 pessoas durante os 264 incidentes de Busca e Salvamento (SAR – do inglês, Search and Rescue) registrados em águas marítimas e interiores do País. Os dados são do Comando de Operações Marítimas e Proteção da Amazônia Azul (COMPAAz), órgão que supervisiona o Serviço de Busca e Salvamento da MB. Das ocorrências registradas, 81 foram casos de naufrágio, principal motivo dos acionamentos, e 74 envolveram situações em que pessoas caíram ao mar acidentalmente durante a navegação.
Para quem atua na linha de frente das operações de resgate, os dados representam muito mais que números abstratos. É o que destaca o Encarregado da Seção de Socorro e Salvamento da Marinha, Capitão de Mar e Guerra (Reserva) José Nelson Nonato de Oliveira Coutinho: “Cada vida representa um rosto, um nome, uma história que poderia ter sido interrompida. ‘Centenas de vidas’ é a soma de momentos decisivos, cujo preparo, coragem e humanidade se encontram. É o lembrete diário de que, apesar dos desafios, o trabalho desses militares vale cada sacrifício, pois todas as vidas importam”, reforça.
Missão: salvar vidas
Responsável por coordenar as operações de busca e salvamento de vidas humanas em perigo no mar e nas águas interiores navegáveis, o SALVAMAR Brasil é o órgão central do Serviço de Busca e Salvamento da MB. Sua estrutura garante que todo pedido de socorro recebido no País seja atendido com rapidez e eficiência, independentemente da localização da ocorrência.
De acordo com o Encarregado da Seção de Socorro e Salvamento, compete legalmente à Marinha prover esse serviço, conforme previsto na Lei nº 7.273/1984. “Além do SALVAMAR BRASIL, que atua como órgão central, foram estabelecidos os Centros de Coordenação de Salvamento (SALVAMAR Regionais) nos Comandos de cada Distrito Naval, que são os órgãos executores que atendem a todos os incidentes dessa natureza. As Organizações Militares (OM) do Sistema de Segurança do Tráfego Aquaviário (SSTA) complementam esta capilaridade, funcionando como subcentros de coordenação SAR”, explica o Capitão de Mar e Guerra Coutinho.
Na prática, a engrenagem que permite à Força atender prontamente às ocorrências envolve uma ampla rede de acionamento e resposta. Além do telefone 185, principal canal de emergências marítimas e fluviais da MB, os pedidos de socorro também podem ser enviados por meio do Sistema Global de Socorro e Segurança Marítima (GMDSS). O sistema utiliza tecnologias terrestres e satélites, assim como sistemas de rádio instalados a bordo dos navios, permitindo o alerta rápido e automático das autoridades responsáveis pela busca e salvamento e, em emergências marítimas, também das embarcações que navegam nas proximidades.
Além disso, há os sinais emitidos pelas embarcações de pesca nacionais ou afretadas que, em função do seu comprimento ou do tipo de pesca, estejam submetidas ao Programa Nacional de Rastreamento de Embarcações Pesqueiras por Satélite (PREPS). “Esses sinais, quando pedidos de socorro, são encaminhados automaticamente aos SALVAMAR Brasil/regionais”, destaca.
Para atender às ocorrências, a Marinha pode empregar uma grande variedade de meios navais e aeronavais, incluindo navios-patrulha, rebocadores, navios de apoio, navios-varredores, lanchas e esquadrões de helicópteros, somados ao apoio de navios mercantes, navios de guerra, embarcações de pesca e de esporte e recreio que estejam próximas ao local do incidente, que também contribuem para a localização e o resgate dos tripulantes. “Recentemente a MB recebeu duas novas Lanchas de Busca e Salvamento (LSAR), que ficarão baseadas no Rio de Janeiro e em Vitória, para atender exclusivamente a eventos SAR”, complementa o Comandante.
Durante os resgates, entre os desafios mais complexos enfrentados pelas equipes estão as condições meteorológicas severas, baixa visibilidade, naufrágios de grande porte, áreas remotas ou de difícil acesso, águas frias ou ambientes extremos, e situações de deriva, quando a posição exata das vítimas é incerta. Para atuar nesses contextos, os militares da Força passam por capacitação específica ao longo da carreira, com cursos voltados às operações SAR no sistema de ensino militar-naval.
“O mar não perdoa improvisos”
Para o Capitão de Mar e Guerra Coutinho, a melhor ocorrência é aquela que nunca acontece. Ele ressalta que, para quem utiliza o mar, rios e áreas costeiras – seja para lazer, pesca, esporte ou trabalho -, a prevenção é sempre o fator mais decisivo. “O mar não perdoa improvisos. Respeito e preparo salvam vidas. Não conte com a sorte e nem com o resgate. Conte com o seu preparo. Obedeça às normas de segurança e use os equipamentos de salvatagem adequados”, enfatiza.
Segundo ele, a maioria das ocorrências poderia ser evitada com algumas condutas fundamentais: planejamento e informação, uso correto de equipamentos de segurança, comportamento responsável, atenção constante ao ambiente, manutenção, preparo técnico e atitude preventiva.
Item obrigatório que salva vidas
Embora haja a sensação de tranquilidade e calmaria, assim como no mar, nas águas interiores é preciso ter as mesmas precauções. Esse é um dos pontos evidenciados pelo Capitão dos Portos de Mato Grosso, Capitão de Fragata Carlos Corrêa, ao comentar sobre o resgate de Camila Mazzaron e seu bebê no Lago do Manso, realizado pelos militares da capitania em dezembro.
“O uso do colete é imprescindível. O colete salva-vidas não tem esse nome à toa. A prova é que um menino de seis anos, por estar usando um colete, conseguiu chegar à praia e pedir por ajuda, o que permitiu que a Marinha pudesse ser acionada e resgatar a mãe e o irmão dele. Além do uso do colete, em caso de avaria, alteração das condições meteorológicas, o condutor da embarcação deve procurar um local abrigado, um porto seguro. No caso dos rios e lagos, aproximar-se da margem e aguardar que as condições meteorológicas fiquem favoráveis”, recomenda.
O Capitão de Fragata Carlos Corrêa ainda frisa que o comportamento do condutor, seja amador ou aquaviário, tem impacto direto na segurança da navegação. “O uso de bebidas alcoólicas pelos condutores, a falta de uso do colete salva-vidas e a condução de embarcações e moto aquáticas por pessoas não habilitadas, até mesmo por menores de idade, são os comportamentos que mais elevam os riscos de um acidente nos nossos rios e lagos”, pontua.
Ligue 185
Em caso de emergências marítimas e fluviais, o canal mais comum de notificação de incidentes SAR é o telefone 185, gratuito e disponível 24h por dia, sete dias por semana, em todo o território nacional. “Recebido um pedido de socorro, o SALVAMAR procede à abertura do incidente SAR e toma todas as providências para atender a emergência, coordenando as buscas e o resgate das pessoas em perigo”, explica o Capitão de Mar e Guerra Coutinho.
Aplicativo NAVSEG
A Marinha também recomenda aos condutores de embarcações, seja de pesca, de carga ou de turismo, o uso do aplicativo NAVSEG. A ferramenta permite informar o Plano de Navegação – com informações como rota, destino, aviso de saída, horário de retorno e número de pessoas a bordo – o que possibilita o acompanhamento pelas marinas, clubes náuticos, Capitanias, Delegacias e Agências (CDA). Em caso de emergência, essas informações agilizam buscas e resgates. O passo a passo de como utilizar o aplicativo NAVSEG está disponível abaixo.
Fonte: Agência Marinha de Notícias






