A Marinha do Brasil diante dos novos desafios oceânicos
No século XIX, a missão era garantir o domínio costeiro. No século XX, proteger a navegação e o comércio. Agora, no século XXI, a Marinha do Brasil precisa enfrentar um ambiente oceânico em transformação: disputas por energia, novas tecnologias de guerra naval, mudanças climáticas e pressões internacionais. Nunca os mares foram tão decisivos para a soberania nacional.
Energia, comércio e a Amazônia Azul
A chamada Amazônia Azul é hoje uma das maiores riquezas estratégicas do Brasil. São mais de 5,7 milhões de km² de área marítima sob jurisdição nacional, com potencial para chegar a 6,9 milhões com a ampliação da plataforma continental junto à ONU. Nesse espaço estão recursos de petróleo e gás do pré-sal, biodiversidade marinha e as rotas que movimentam 95% do comércio exterior do país.
A proteção desse território é vital para a segurança energética e econômica do Brasil. As plataformas do pré-sal garantem bilhões de dólares em exportações anuais, enquanto os portos conectam o país às principais cadeias globais. Para a Marinha, isso significa que defender o mar é defender o coração da economia brasileira.
Novas ameaças oceânicas
Se no passado o risco maior era um conflito convencional, hoje o cenário é muito mais complexo. A Marinha precisa lidar com crimes transnacionais, como tráfico de drogas, contrabando e pesca ilegal, que drenam bilhões da economia e afetam a segurança alimentar.
Outro ponto sensível são os cabos submarinos de fibra óptica, responsáveis por mais de 95% do tráfego mundial de internet. Eles representam um alvo vulnerável para ciberataques e sabotagens, tornando a defesa digital tão importante quanto a física.
Além disso, o Atlântico Sul atrai crescente interesse de potências extrarregionais, que mantêm presença militar em ilhas e rotas próximas. Some-se a isso o impacto das mudanças climáticas, que aumentam o nível do mar e a frequência de desastres naturais, impondo novas missões de ajuda humanitária e resposta a crises.
Modernização e dissuasão naval
Para enfrentar esse ambiente, a Marinha aposta em programas estratégicos de longo prazo. O mais ambicioso é o PROSUB, que prevê a construção de submarinos convencionais e de um submarino de propulsão nuclear, elemento central da dissuasão naval brasileira.
Outro destaque é o programa das fragatas Classe Tamandaré, que modernizará a frota de superfície com navios capazes de defesa antiaérea, antisubmarino e operações de escolta. No campo tecnológico, sistemas de monitoramento como o SisGAAz (Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul) ampliam a capacidade de vigilância e resposta.
Esses investimentos são fundamentais para garantir que o Brasil não apenas defenda suas águas, mas também projete poder no Atlântico Sul. Afinal, como já dizia Mahan, o mar é a espinha dorsal do poder das nações — e no século XXI, o Brasil precisa estar à altura de sua geografia e de suas riquezas.
Conclusão
A Marinha do Brasil está no centro de um dos maiores desafios estratégicos da nação: transformar a riqueza oceânica em poder soberano. Do pré-sal aos cabos submarinos, das operações contra ilícitos à construção de submarinos de ponta, cada ação é parte de uma missão maior: assegurar que o Atlântico Sul continue sendo uma fronteira de oportunidades, e não de vulnerabilidades.
Fonte: Defesa em Foco






