Dólar pesa menos na dívida e ajuda exportações
O dólar em alta deve prejudicar menos as companhias endividadas na moeda e ajudar mais os exportadores nos resultados do quarto trimestre de 2015. Com valor de fechamento praticamente estável em relação ao terceiro trimestre, mas uma cotação média bastante superior, o câmbio promete ser uma variável positiva na temporada de balanços que toma fôlego nesta semana.
A moeda americana chegou ao fim de dezembro cotada a R$ 3,95, ante R$ 3,97 ao término de setembro, o que deve manter estável as dívidas em divisas estrangeiras quando convertidas para real no balanço. Já o dólar médio do quarto trimestre ficou em R$ 3,84, enquanto a cotação média da moeda americana de julho a setembro foi de R$ 3,55, o que deve impulsionar os ganhos.
A Fibria inaugurou no dia 27 a temporada de balanços para as companhias não financeiras, com uma prévia do que pode ser uma tendência geral. A fabricante de celulose reverteu prejuízo em lucro liquido de R$ 905 milhões no quarto trimestre, com alta de 115% no lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda) na base de comparação anual.
“O setor de celulose continuará sendo aquele que apresenta o melhor desempenho, ajudado pela persistente depreciação do real”, acreditam os analistas Marcos Assumpção, Daniel Sasson e Carlos Eduardo Schmidt, do Itaú BBA.
Para a Klabin, produtora de papel para embalagem que divulga seus resultados na próxima quarta-feira (3), a estimativa do Itaú BBA também é de uma alta de dois dígitos no Ebitda, com custo menor e maior receita de exportação. A Suzano, de papel e celulose, deverá ser prejudicada por menores volumes dos dois produtos, custos de manutenção mais elevados e diluição menor de gastos fixos, devido a perda de produção na fábrica de Mucuri.
Ao lado do setor de celulose, as companhias de serviços financeiros, agronegócio e a Embraer são as apostas do Santander para destaques operacionais no quarto trimestre de 2015. “Alimentos e bebidas, telecomunicações e educação também estão em posição de gerar bons resultados”, consideram os especialistas da instituição Daniel Gewehr e João Noronha, em relatório.
No setor de serviços financeiros, a aposta do Itaú BBA são as companhias de fidelização, com preferência pela Smiles. A expectativa é que haja anúncio de polpudos dividendos com os resultados, que devem trazer forte faturamento de milhas.
Já a Gol, controladora da Smiles, deve ter mais um trimestre ruim, com margens negativas e queda de demanda acima dos cortes de capacidade realizados pela empresa, além da pressão do dólar em alta sobre os custos, segundo os analistas Sara Delfim, Murilo Freiberger e Joe Moura.
Ainda na ponta negativa, o Santander destaca os setores de siderurgia (particularmente a Usiminas), energia, saneamento, bens de capital (à exceção da WEG), construção e varejo. No comércio, a Natura deve chamar atenção pelo fraco desempenho, acreditam os analistas do banco espanhol, enquanto Raia Drogasil e Lojas Renner podem ser os pontos fora da curva.
Impulsionadas pelas exportações, as companhias brasileiras de capital aberto não financeiras devem registrar um crescimento consolidado de dois dígitos no resultado operacional no trimestre. No entanto, o elevado endividamento das empresas tende a impedir que o avanço operacional chegue ao lucro líquido, que deve avançar abaixo da inflação.
O Santander projeta uma alta de 4,5% no resultado líquido consolidado das 117 empresas do seu universo de cobertura, que representam cerca de 95% da capitalização de mercado da bolsa paulistana. O avanço previsto, ainda que superior aos 2% de alta do terceiro trimestre, é bastante inferior à inflação acumulada de mais de 10% em 12 meses até dezembro.
Para os lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização (Ebitda), a estimativa do Santander é de um avanço de 17,2% no quarto trimestre, em relação a igual período de 2014. Se confirmado, o crescimento também ficará acima da alta de 7% do Ebitda no terceiro trimestre.
A alavancagem das empresas, porém, deve permanecer alta, ainda que estável. Ao fim de setembro, a alavancagem das companhias estava em 3,4 vezes, quando considerada a relação entre dívida líquida e Ebitda, ante 3 vezes no segundo trimestre. Em comparação, na crise de 2009, o indicador estava em 1,5 vez.
“A tônica dos resultados do quarto trimestre serão as empresas sentindo o efeito do cenário macro na última linha dos balanços”, diz Gewehr, estrategista do Santander. “As companhias não estão conseguindo repassar a inflação, o que está comprimindo as margens. A combinação de atividade econômica fraca, com inflação alta e alavancagem acima da média histórica leva o lucro a crescer muito pouco”, conclui.
Fonte: Valor Econômico






